Surgem tentativas de mediação no conflito na região etíope de Tigré

Robbie BOULET
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Civis etíopes fogem dos confrontos na região de Tigré, em 13 de novembro de 2020, ao leste de Gadaref, Etiópia
Civis etíopes fogem dos confrontos na região de Tigré, em 13 de novembro de 2020, ao leste de Gadaref, Etiópia

Várias mediações eram organizadas nesta segunda-feira (16) para pôr fim ao conflito que opõe o Exército federal etíope às forças da região dissidente de Tigré desde 4 de novembro, após um fim de semana marcado por uma perigosa escalada.

No comando desta região do norte da Etiópia, a Frente de Libertação dos Povos de Tigré (TPLF) lançou no sábado vários "foguetes" contra Asmara, capital da vizinha Eritreia, acusada de ajudar militarmente o Exército da Etiópia na região de Tigré.

No dia anterior, a TPLF também disparou "mísseis" contra dois aeroportos na vizinha região etíope de Amhara.

Essa escalada reforça os temores de que a guerra degenere em um conflito incontrolável na Etiópia e desestabilize toda região do Chifre da África.

Além da perda "significativa" de vidas humanas, este conflito vai "desencadear uma onda de migração e deslocamento interno, potencialmente arriscada para a estabilidade da região", explica Sanya Suri, analista da África Oriental à The Economist Intelligence Unit.

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) disse que espera uma onda em massa de refugiados no vizinho Sudão, para onde cerca de 25.000 etíopes já fugiram do conflito.

"Deve haver negociação, e o conflito deve terminar", disse o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, após receber o vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores etíope, Demeke Mekonnen Hassen.

No dia anterior, funcionários do governo disseram à AFP sob condição de anonimato que Museveni receberia funcionários do governo e da TPLF nesta segunda-feira para iniciar uma mediação.

Por enquanto, porém, cada um dos dois campos nega participar de qualquer diálogo com o outro, e nenhuma informação foi vazada sobre uma possível presença em Uganda de uma delegação da TPLF.

Esta manhã, a célula de crise do governo etíope qualificou como "falsa" a "informação (...) de que as autoridades etíopes participarão da mediação com a TPLF em Uganda".

No dia anterior, o Ministério das Relações Exteriores da Etiópia havia dito à AFP "não saber" de uma viagem do ministro, e o presidente de Tigré também indicou "não estar ciente desta iniciativa de Uganda".

Do mesmo modo, o governo etíope e a União Africana (UA) - com sede em Addis Abeba - disseram à AFP nesta segunda-feira não ter informações sobre uma possível missão de mediação do ex-presidente nigeriano Olusegun Obasanjo.

Segundo seu porta-voz, Kehinde Akiyemi, em declaração à AFP, porém, ele estava "a caminho" de Addis Abeba para "conversas" como parte de uma "missão de mediação".

"A Etiópia vai ganhar", declarou no domingo o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2019, garantindo que a campanha militar que lançou em 4 de novembro, depois de meses de tensão com a TPLF desafiando sua autoridade, "estava progredindo bem".

O governo, que afirma já controlar a zona oeste de Tigré, na fronteira com o Sudão, anunciou no domingo a captura de Alamata, cidade localizada 180 km por estrada ao sul da capital regional Mekele.

O apagão imposto à região e as restrições à circulação de jornalistas dificultam a verificação das reivindicações de ambos os lados, assim como a avaliação da situação militar no terreno.

Abiy disse recentemente que nenhuma negociação começaria até que as autoridades em Tigré fossem totalmente desarmadas.

Nesta segunda-feira, a Câmara alta do Parlamento etíope criticou os apelos ao diálogo, porque o governo e a TPLF "não estão, de forma alguma, em pé de igualdade do ponto de vista legal e moral".

"A TPLF violou a Constituição e comprometeu a ordem constitucional. O governo federal está trabalhando apenas para restaurá-la", disse a Casa, em um comunicado.

A TPLF controlou o aparato político e de segurança da Etiópia por quase 30 anos antes de ser gradualmente posta de lado por Abiy desde que ele se tornou primeiro-ministro em 2018.

Vários meses de tensões culminaram com a organização, em Tigré, de uma votação qualificada como "ilegítima" pelo governo federal e com a recusa da TPLF em permitir que um general do Exército federal assumisse o cargo na região.

Ao enviar o Exército para Tigré, Abiy afirma ter respondido a ataques a duas bases militares na região lançados pelas forças da TPLF.

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