Surpresa da eleição em Minas, Romeu Zema aposta no descrédito da política tradicional

Apontado como terceiro colocado em pesquisas eleitorais, Romeu Zema terminou com mais votos no primeiro turno (Divulgação/Partido Novo)

Por Marcelo Coelho

Belo Horizonte (MG) — “As pessoas estão cansadas dos políticos de sempre”, afirmou o empresário Romeu Zema, candidato ao governo de Minas Gerais pelo Partido Novo, logo após vencer o primeiro turno da eleição estadual. Minutos depois que o resultado foi divulgado ele era questionado como explicar os surpreendentes 4,1 milhões de votos que o garantiram no segundo turno. O estreante na política ficou à frente do senador Antônio Anastasia (PSDB), que teve 2,8 milhões de votos, e do governador Fernando Pimentel (PT), que recebeu 2,2 milhões de votos.

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Na campanha para a segunda etapa da disputa, Zema mantém o tom das críticas aos políticos tradicionais e aposta na insatisfação dos eleitores para chegar ao Palácio da Liberdade em 2019. “Os tucanos representam os mesmos políticos de sempre, com as mesmas promessas que não são cumpridas nunca”, diz sobre o embate com Anastasia.

Em meio a satisfação com o bom resultado nas urnas, tanto Zema quanto pessoas próximas do candidato não deixaram de demonstrar surpresa com o primeiro lugar obtido no início do mês. As pesquisas eleitorais divulgadas na véspera da eleição colocavam o empresário em terceiro lugar, se aproximando de Pimentel. Aliados do governador petista chegaram até a fazer campanha pedindo votos para Zema na tentativa de garantir um segundo turno entre PT e PSDB, já que o tucano poderia vencer logo no primeiro turno. Menos de 24 horas para a eleição, o Ibope apontava Anastasia com 42% das intenções de voto, seguido de Pimentel com 25% e Zema com 23%.

O resultado causou espanto em todos os candidatos e analistas políticos. Foi Zema que ficou com 42,7% dos votos, mais de 1,3 milhão a frente de Anastasia, com 29%. “Minha votação deixa claro que os mineiros acreditam que existe uma solução de mudança para a política. E mostra também que os políticos tradicionais não entenderam que as velhas práticas não têm mais espaço com o eleitor”, explica Zema.

Um dos principais assessores políticos do candidato, o vereador em Belo Horizonte Mateus Simões (Novo) admite que a vitória com mais de 4 milhões de votos não era esperada, mas que a equipe do Novo já acreditava que Zema estaria no segundo turno.

“Esperávamos ultrapassar o Pimentel. Percebemos que o eleitor mineiro queria uma alternativa ao PSDB e ao PT no estado. Durante 20 anos esses partidos não deram conta de resolver nenhum dos problemas de Minas, nem do país. Tivemos nas últimas décadas Fernando Henrique, Eduardo Azeredo, Aécio Neves, Lula, Dilma, Anastasia e Pimentel, nenhum deles entregou nada para o estado. Minas ficou mais pobre e menos relevante. Nesta eleição o eleitor percebeu a viabilidade de uma terceira via e apostou nela”, analisa o parlamentar do Novo.

As características de Zema, com uma fala “carregada de sotaque e sem discursos ensaiados de políticos”, também são apontadas por Simões como motivo de seu crescimento nos últimos dias antes do primeiro turno. O candidato teve pouco tempo para propaganda e só ganhou visibilidade na televisão ao participar do último debate dos governadores na Rede Globo.

“Zema conseguiu uma identificação com o cidadão mineiro padrão. Nos últimos anos só tivemos políticos com os quais as pessoas não se identificam. Ele tem a imagem do trabalhador, como todos os mineiros. Tem sotaque, como os mineiros, principalmente do interior”, diz Simões.

Zema e o apoio a Bolsonaro

O fato de ter pedido voto para o candidato Jair Bolsonaro (PSL) no debate é considerado um dos fatores que explica seu crescimento na reta final. No entanto, assessores e o próprio Zema minimizam a influência do capitão reformado do Exército em seu desempenho. “Já era meia noite e meia quando falei que o voto para presidente em João Amoêdo e no Jair Bolsonaro representava o voto da mudança”, explicou Zema.

A citação a Bolsonaro foi considerada “inaceitável” pelo diretório nacional do Novo, mas a situação foi contornada rapidamente. Zema admitiu que foi um descuido e declarou que votará no candidato do PSL no segundo turno por não concordar com as propostas do PT.

Divulgação/Partido Novo

Para o cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fábio Wanderley, a declaração pública de apoio a Bolsonaro foi fundamental para que Zema conquistasse os 4 milhões de voto no primeiro turno.

“Sem dúvida teve uma grande influência o fato de ele ter citado Bolsonaro e declarado apoio. Vimos no primeiro turno que o efeito Bolsonaro foi nacional, não apenas em Minas. Foi um impulso similar ao que aconteceu no Rio de Janeiro com o candidato Wilson Witzel. Essa eleição teve uma dinâmica especial e mostrou uma propensão das pessoas a buscar no militar, uma liderança truculenta autoritária, a resposta para a solução dos problemas. Quem se aproximou dele conseguiu receber esses votos”, explica o professor.

O empresário de Araxá, município da região do Triângulo Mineiro, presidiu por quase 30 anos o Grupo Zema, que tem mais de 400 lojas de eletrodomésticos no estado e dezenas de postos de combustíveis e foi fundado em 1923 pelo seu avô Domingos Zema. O candidato do Partido Novo aposta na experiência no setor privado para convencer os eleitores de que é o nome ideal para tirar Minas da grave crise fiscal que se encontra.

Um dos nomes que pretende chamar para participar de sua administração, caso vença a eleição, é o ex-presidente do Banco Central e um dos criadores do Plano Real, Gustavo Franco, que atua como um dos coordenadores econômicos no programa do Novo. Zema colocou em seu plano de governo a meta de reduzir a máquina pública, cortando cargos comissionados e reduzindo o número de secretarias das atuais 21 para 9 pastas.