Surpresa na eleição holandesa cresceu ao enfrentar ultradireita em debate

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - As eleições parlamentares na Holanda podem ter dado mais votos a Mark Rutte, 54, desde 2010 primeiro-ministro do país, mas a grande sensação foi a segunda colocada, Sigrid Kaag (pronuncia-se Kaarr), 59, ministra do Comércio de seu gabinete. Quando subiu na mesa do comitê de campanha e dançou -numa imagem que viralizou em redes sociais-, ela tinha o que comemorar: sob sua liderança, o Democrático 66 (D66) superou dois outros partidos ao obter 15% dos votos e 24 assentos no Parlamento, 5 a mais que em 2017. A atuação de Kaag tem muito a ver com isso, afirma o cientista político Alexandre Afonso, professor de políticas públicas da Universidade de Leiden (Holanda). Com um papel incisivo nos debates, Kaag se opôs explicitamente ao candidato xenófobo Geert Wilders, do partido de ultradireita VVD, até então a segunda maior sigla na Holanda. Wilders já havia atacado a ministra do Comércio por ser casada com um ex-vice-ministro do governo palestino de Iasser Arafat, o embaixador Anis al-Qaq, 73, hoje ativista pela paz no Oriente Médio. Mãe de quatro filhos -Janna, 25, Makram, 22 (adotado em um orfanato em Israel), Adam, 21, e Inas, 18-, a líder do D66 não se furta a descrever suas experiências numa família inter-étnica. "Sou uma mãe que às vezes, na Holanda, tem que explicar que sua filha -que parece diferente- é realmente sua filha. Às vezes, por causa de minha escolha de marido e carreira, sou tratada como estrangeira em meu próprio país. E me pergunto: quem decide quem são 'estrangeiros holandeses' e quem não são?", afirmou em um discurso que foi chamado de "poema" e repercutiu muito em 2018. No campanha, o rival de ultradireita a chamou de "traidora", por ter usado um lenço na cabeça em viagem ao Irã em 2018, quando Kaag ocupou por alguns meses o Ministério das Relações Exteriores. "Não aceito essa pecha", respondeu ela, reafirmando o programa progressista de seu partido em temas como imigração, refugiados, ambiente e cooperação internacional. Conflitos bem mais graves foram constantes em sua carreira diplomática. Em 2013 e 2014, Kaag liderou a missão de desarmamento da ONU que levou à destruição das armas químicas na Síria. Em 2016, um ano antes de entrar no governo holandês, ganhou o Prêmio Carnegie Wateler da Paz por cumprir missões delicadas e perigosas no Oriente Médio. "Tenho muita experiência em tempos de guerra, mas também em crises em tempos de paz", disse ela quando decidiu ingressar no D66 e se declarou disposta a conquistar votos holandeses "a partir de uma convicção progressista e profundamente liberal". Uma pesquisa do instituto Ipsos feita depois das eleições mostrou que ela cumpriu essa meta ao menos entre eleitores de até 34 anos e com alto nível de escolaridade. O D66 foi o principal partido entre esses grupos, com 18% e 21% dos votos, respectivamente. "Kaag carregou muitos votos na reta final da campanha, entre outros motivos por sua posição firme, pela carreira internacional e por ser mulher", diz Afonso. A Holanda nunca teve uma mulher como chefe de governo, e Kaag já deixou claro que quer esse posto. Fluente em seis línguas -entre as quais o árabe, no qual se formou no Cairo-, ela nasceu em Rijswijk, nos arredores de Haia, e cresceu no centro da Holanda. Perdeu um irmão quando tinha 6 anos e, aos 12, sua mãe foi diagnosticada com câncer e seu pai, pianista clássico, entrou em depressão profunda. As tragédias sucessivas fizeram Kaag e sua irmã serem criadas em orfanatos diferentes, experiência que fez dela uma criança autônoma, disse em entrevista. "Ensinou-me que a vida pode surpreender você, para o bem ou para o mal, e que você deve sempre poder contar consigo mesmo." Criticada por adversários como "forasteira elitista", a líder democrata rebate. "Candidatei-me a todos os empregos e tive de provar o meu valor como qualquer outra pessoa. Tenho minhas próprias dores como pessoa e mãe e os dois pés no chão. Meus filhos têm empréstimos estudantis como todo mundo. Todos nós trabalhamos para viver." Mais batalhas serão necessárias para atingir seu objetivo de liderar um dia o governo holandês, analisa Afonso. Pela tradição, o premiê é o líder do partido mais votado, e o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD) de Mark Rutte manteve-se à frente com 22% dos votos e 34 assentos no Parlamento. "No momento, é Rutte quem domina a política holandesa, e ele não deixa muito espaço para mais ninguém", afirma o cientista político. Outra questão é que o crescimento do D66 se deu à custa de um encolhimento do Partido Verde, em parte ajudado pelo fato de que, como ministra, Kaag foi uma das líderes do movimento europeu para vincular acordos comerciais a compromissos ambientais, o que incluiu críticas ao Mercosul. Mas isso significa que sua expansão aconteceu dentro do mesmo campo progressista. "O tamanho relativo dos blocos ficou o mesmo nesta eleição, mas houve mais fragmentação", diz ele. Sem cláusula de barreira, um recorde de 17 siglas devem formar a Tweede Kamer (equivalente holandesa à Câmara dos Deputados), uma multiplicidade de partidos chamada na Europa de "holandificação". Por outro lado, o D66 conseguiu escapar da sina que acompanha partidos pequenos quando chegam ao governo e passam de pedra a vidraça. Em vez de perder votos, Kaag os ampliou e conquistou popularidade e poder para influenciar o governo. Na pesquisa do instituto Ipsos, ela aparece em segundo lugar como a pessoa mais indicada para se tornar primeira-ministra, com 16% das preferências. É um resultado expressivo para uma estrela ainda em ascensão, mas ainda é a metade dos 33% de Mark Rutte. O premiê manteve alta sua aprovação mesmo depois de renunciar e convocar novas eleições por falhas de seu governo em um programa de subsídios para creches, que prejudicou milhares de famílias. A até agora curta atuação de Kaag como ministra porém não passou sem ressalvas. Uma delas foi a promessa de 100 milhões de euros (R$ 654 mi) para a melhoria da educação em países pobres após uma troca de tuítes com a cantora americana Rihanna. Outra foi uma transferência de 13 milhões de euros (R$ 85 mi) para a organização da ONU que ajuda refugiados palestinos (UNRWA), decisão criticada por falta de transparência por membros do próprio governo. Numa hipótese menos provável, diz Afonso, uma fragmentação partidária ainda maior poderia deixar o D66 em um patamar semelhante ao do VVD, o que permitiria a Kaag atuar como pivô nas discussões de futuras coalizões. Por enquanto, é quase certo que Kaag chegará a um acordo de coalizão com Rutte, ao lado de um terceiro ou quarto partidos que alcancem a maioria necessária de 76 cadeiras. Como segunda força, o D66 estará em posição de reivindicar o Ministério das Finanças. Será um trampolim importante para uma política que diz se inspirar nas primeiras-ministras Angela Merkel (Alemanha) e Jacinda Ardern (Nova Zelândia), "líderes que não esperam por apoio, mas criam apoio para si mesmas".