Surpreso com decisão de Crivella, especialista diz que liberação de camelô pode levar à aglomeração

Luiz Ernesto Magalhães e Rafael Nascimento de Souza
Camelódromo no Centro do Rio volta a funcionar na primeira fase do plano de flexibilização da prefeitura, enquanto muitas lojas continuam fechadas

RIO — Com os shoppings fechados e grande parte do comércio de rua proibido de funcionar, o prefeito Marcelo Crivella resolveu liberar as ruas do Rio para os camelôs. A decisão não constava no plano de reabertura gradual da economia, apresentado pelo município na segunda-feira, e foi publicada na noite de terça-feira num Diário Oficial extraordinário. Integrantes do comitê científico que presta consultoria à prefeitura foram pegos de surpresa.

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O infectologista Rafael Câmara, que integra o comitê, diz que o grupo não foi consultado e enxerga critério político na liberação de ambulantes na primeira das seis fases de redução do isolamento.

— Não posso falar por todo conselho, mas votei por retomar as atividades porque nunca teremos testes para todo mundo, que seria o ideal — diz Câmara, acrescentando que a abertura de lojas de móveis e de carros, acordada com Crivella, trazia baixo risco: — São atividades que não geram tanta movimentação.

Niterói faz drive-thru

Enquanto o Rio abre espaço para os ambulantes (são 14 mil cadastrados, fora os informais) sem realizar testagem em massa, Niterói começou ontem a fazer exames em sistema drive-thru. Foram montadas duas tendas, em Cafubá e São Francisco. De 127 exames realizados, sete deram positivo.

Segundo o secretário de Saúde de Niterói, Rodrigo Oliveira, a ideia não é testar toda a população, mas nortear ações de controle da pandemia:

— Não pretendemos testar todos, mas queremos garantir um conjunto de informações que nos permita acompanhar a curva da pandemia na cidade. Quanto mais testes fizermos, mais perto da realidade nos aproximaremos. Com isso, teremos mais segurança no plano de transição para o “novo normal”.

Niterói tem, segundo balanço divulgado pelo estado, 3.357 casos de Covid-19 confirmados e 122 mortes. O município do Rio, por sua vez, contabiliza 4.055 mortos e 32.951 casos da doença. No estado, são 6.010 óbitos e 59. 240 infectados.

Com o aval oficial da prefeitura do Rio, as ruas ontem ficaram lotadas de camelôs. Lojistas também aproveitaram para, mesmo sem poder, levantar as portas, comprometendo o cronograma de fim gradual das restrições. Em Copacabana, bairro que concentra o maior número de casos de Covid-19, camelôs não obedeciam às regras impostas pela prefeitura. Nenhum deles disponibilizava álcool em gel para os clientes, como determina o decreto, e muitos sequer usavam máscaras. Na Central e no Comércio Popular da Uruguaiana , a situação foi igual.

A retomada do comércio informal foi criticado por representantes do varejo, que só devem reabrir integralmente em julho, seguindo o plano de reabertura proposto pelo município.

— Só posso definir essa medida como populista. Mais do que um absurdo, essa decisão é um escândalo — disse o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Rio e do Clube de Diretores Lojistas, Aldo Gonçalves.