Surtos de PMs podem estar ligados ao mito de que são heróis, diz especialista em segurança

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PM Wesley Soares Góes (dir.) foi morto em 28 de março após um surto no Farol da Barra, em Salvador (BA). PM Frederico Correia Resende sequestrou atentende da Gol em Guarulhos (SP) neste domingo (12/4) | Fotos: Reprodução
PM Wesley Soares Góes (dir.) foi morto em 28 de março após um surto no Farol da Barra, em Salvador (BA). PM Frederico Correia Resende sequestrou atentende da Gol em Guarulhos (SP) neste domingo (12/4) | Fotos: Reprodução

Por Paulo Eduardo Dias

No intervalo de quinze dias dois policiais militares ganharam destaque na imprensa ao protagonizarem surtos mentais no país.

O mais recente se deu na noite deste domingo (12/4) no saguão de embarque do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (Grande SP). Segundo o boletim de ocorrência, o policial militar Frederico Correia Resende, 36 anos, lotado no Paraná, tomou como refém uma comissária de bordo de 30, funcionária da GOL linhas aéreas. Imagens do PM com a mulher sob sua mira viralizaram nas redes sociais.

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Resende teria pedido emprestado uma caneta a mulher momentos antes do avião embarcar para Maceió, capital de Alagoas. Logo após receber o objeto o utilizou como arma para manter a aeromoça sob seu poder. Ele chegou a dizer ter uma bomba dentro de uma mochila que carregava. Enquanto negociava com policiais civis e federais que atuam no aeroporto, ele se disse “perseguido durante o voo” e que “estariam tentando matá-lo”, aponta um trecho do B.O.

No vídeo, ele disse que, por não entrar em um esquema de corrupção, virou carta marcada. A todo instante ele pedia para que fossem acionados policiais federais. Durante as negociações com policiais civis e federais, Resende forneceu o número de telefone de um capitão, seu superior no estado paranaense. Por telefone, o oficial contou que Resende “estaria sob surto psicótico e que foi liberado pelo psicólogo da Polícia Militar do Estado do Paraná para fazer tratamento psiquiátrico”.

Pouco tempo depois de conversar com seu superior hierárquico e se tranquilizar, Resende jogou a caneta no chão e soltou a refém. O boletim de ocorrência cita que o homem não ameaçou a comissária de morte, mas que apenas a usou como “parlatório” para solicitar a presença da Polícia Federal. A funcionária da empresa aérea resolveu não prestar queixa sobre o fato.

Em nota, a Polícia Militar do Paraná informou no início da noite desta segunda-feira (12/4), que o soldado já se encontra de volta ao estado e que “foi encaminhado para atendimento e tratamento psicológico”.

O caso de Resende se soma ao do PM da Bahia Wesley Soares Góes, 38, morto a tiros por colegas de farda após surtar no Farol da Barra, em Salvador, em 28 de março. Naquela tarde, fardado e com um fuzil, passou a atirar para alto e dizer frases desconexas.

Após mais de três horas de negociação, Góes efetuou disparos na direção de equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais que tentavam sua rendição. No revide acabou atingido e, socorrido, não resistiu aos ferimentos.

Para a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Samira Bueno, é possível conectar as duas histórias, já que “tudo indica é que esses policiais tiveram um surto”. “A gente percebe que cada vez com mais frequência temos visto episódios similares de profissionais de segurança pública que se expõem dessa forma, que fazem reféns, que atiram a esmo, que colocam em risco suas vidas e de outras pessoas”.

Samira Bueno pontua que a saúde mental dos policiais causam mais mortes entre o grupo do que após serem vítimas de confrontos. “Não à toa, que se você for olhar os dados do anuário de 2019 você vai ver que a gente tem mais caso de policiais vítimas de suicídio do que policiais mortos em confronto no horário de trabalho”, explicou. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, que tabulou dados do ano anterior, foram 91 suicídios contra 62 profissionais de segurança mortos em serviço.

Para a especialista em segurança pública, as corporações deveriam se atentar ao problema, buscando novas formas para auxiliar os profissionais que atuam na segurança pública do país, principalmente vetando a noção de que policiais são “heróis”, o que, em sua análise, os deixa ainda mais vulneráveis. “O primeiro é o mito do policial herói, se ele é herói, você tira dele o elemento trabalhador, logo você não precisa se preocupar com as condições de trabalho ou equipamentos de proteção individual. Passando desde coletes à prova de balas vencidos, armas que vivem falhando, baixo salário, precariedade nas condições de trabalho, principalmente nos níveis mais baixos”.

Samira Bueno pontua que os discursos de secretários de segurança pública, de governadores, de políticos que de algum modo estão associados à bancada da bala ou a agenda da segurança pública, de que “o policial é um herói” e “policial é policial 24 horas”, só prejudicam a saúde mental de cada um deles, já que reforça o estigma de que não precisam de apoio mental. “O fato de que se você é um herói que está lutando contra o mal, você é macho, então esse elemento da masculinidade do homem forte que não pode ser frágil, não pode pedir ajuda, porque o acompanhamento psicológico, a terapia, isso é coisa de menina, coisa de mocinha. O macho que é macho não precisa dessas coisas, ele lida ele mesmo com esses problemas. E a vida é muito mais complexa do que isso”.

Ambos os casos retratados pela reportagem abordam ocorrências envolvendo policiais militares, o que para a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública pode estar ligado a “uma hierarquia e um código de disciplina que são muito rígidos, sem nenhum mecanismo para esse policial desabafar”.

“Se o braço armado do Estado, aquele representante do Estado que tem, inclusive, o direito de matar em nome do Estado, está afetado por esses traumas e a gente está varrendo isso para debaixo do tapete, fingindo que não está acontecendo, a situação pode ficar muito mais grave”.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que Frederico Correia Resende foi “foi preso em flagrante e indiciado por ameaça. O caso foi registrado pela 3º Deatur e encaminhado à Polícia Federal”.

Também através de nota, o Batalhão de Polícia Ambiental do Paraná informou que “o comandante da unidade, acompanhado por um oficial médico, deslocou-se até o estado de São Paulo nesta segunda-feira (12/04) para trazer ao Paraná o policial militar que esteve envolvido na ocorrência no Aeroporto de Guarulhos, na noite de domingo (11/04). Ao chegar no Paraná, o soldado foi encaminhado para atendimento e tratamento psicológico. A Força Verde está providenciando todos os cuidados necessários ao profissional, bem como tomando outras medidas que o caso requer. Sobre as afirmações que o policial militar fez durante o ato, o Batalhão Ambiental informa que todas serão apuradas pela unidade”.