Suspeito de espionagem, secretário respondeu não se lembrar sobre fala de dossiês contra deputados

Lucas Altino
Secretário Lucas Tristão, último do lado direito da bancada, respondendo às perguntas

RIO — Convocado à Alerj para responder aos deputados sobre suspeita de espionagem, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão, respondeu que "não se recorda" de ter afirmado que possuía dossiês contra os 70 parlamentares, o que gerou uma crise entre a assembleia e o governo, inclusive com menções a suposta instalação de grampos ilegais em gabinetes. A posição do secretário gerou mais discussões entre governistas, que consideraram a resposta satisfatória, e oposicionistas, que pretendem levar o caso adiante. O Ministério Público do Rio já foi oficiado para investigar o assunto e a acusação gerou um pedido de impeachment do governador por parte da bancada do PSL.

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A crise veio à tona no último dia 11 de fevereiro, quando o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT) afirmou em plenário que havia ouvido do próprio Lucas Tristão que ele possuía dossiês contra os 70 deputados da casa. Por isso, o parlamentar pediu investigações por parte do MP e Polícia Federal.

Questionado por dezenas de deputados , que lotaram a sessão de oitiva, Tristão afirmou que não se recorda de ter falado sobre possuir dossiês.

— Não me recordo de ter falado algo assim Em hipótese alguma eu participaria de algum ato que ferisse a convivência harmônica entre os poderes — explicou Tristão , que depois foi questionado se poderia ter mencionado algo assim fora de reuniões oficiais. — Mesmo em conversas informais, acho difícil eu ter falado algo nesse tom. Se eu fui mal interpretado em algum momento, peço desculpas ao parlamento.

Em outro momento, Tristão explicou que teve em mãos apenas relatórios sobre perfil técnico e biografia política dos deputados, recebidos no início do mandato pelo deputado Márcio Pacheco (PSC), líder do governo, como forma de facilitar seu trabalho e ter maior conhecimento sobre a casa. Questionado, o secretário respondeu que os relatórios não possuíam informações de foro pessoal. Ao final, Pacheco chegou a mostrar o suposto relatório, de 140 páginas, com informações básicas dos parlamentares, como mapa de votação por cidades e bairros.

A resposta não convenceu grande parte dos deputados. Muitos temem que dossiês ilegais tenham sido elaborados através de grampos em gabinetes, o que vem sendo especulado nas últimas semanas, apesar da falta de evidências concretas.

— Essas respostas mais confundiram do que esclareceram. Saio daqui convicto que o presidente da Alerj, André Ceciliano, disse que tinha dossiê. Estamos tentando aqui é cumprir preceito constitucional, que pudesse manter a harmonia e independencia entre ai. O mote central desta desarmonia é o Tristão — afirmou o deputado Luiz Paulo (PSDB)

Para o deputado Flávio Serafini (PSOL) a intenção da oitiva é saber se o estado possui, hoje, relações republicanas. Ele afirmou que "o assunto não está encerrado" pois o MP e a polícia já foram oficiados, e a Alerj possui mais outros instrumentos ilegais para apuração dos fatos.

— Se o governo está cometendo investigações ilegais, está atentando contra a democracia, e não contra deputados A ou B. Prefiro acreditar que não estamos corroendo pilares da defesa da democracia e exercício parlamentar, mas precisamos tirar essa dúvida.

Já o deputado Dr Serginho (PSL), um dos autores do pedido de impeachment do governador Wilson Witzel por causa da acusação de espionagem, destacou que , em momento algum, o secretário negou que havia afirmado que possuía dossiês. Apenas que não se recordava. O deputado protagonizou uma discussão com Márcio Pacheco.

— O secretário disse que não se recordava de ter falado isso para o Ceciliano. Mas ele deixou claro que nunca fez grampos, nem dossiês — disse Pacheco, que atacou, em diversas vezes, o mérito do pedido de impeachment. — Essa peça é um circo.

Também em defesa do governo, o deputado Alexandre Knoploch (PSL) afirmou que a insistência das perguntas a Tristão seria uma afronta do poder legislativo sobre o executico. Seu colega, Rodrigo Amorim (PSL), considerou que as respostas do secretário já eram satisfatórias e o assunto " estava esgotado".

Outros deputados lamentaram a possibilidade dessa crise afastar investimentos e atrapalhar a recuperação econômica do Rio. O deputado Alexandre Freitas (Novo) perguntou se Tristão renunciaria caso a existência dos dossiês de provasse verdadeira. O secretário tergiversou.

— Sou a favor da investigação, e se houver culpados, que eles sejam responsabilizados.