'Suspiro de democracia vem do jornalismo', diz Janio de Freitas, 90

***ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-03-2012 - Janio de Freitas, então com 79 anos, em sua sala na sucursal carioca da Folha. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
***ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-03-2012 - Janio de Freitas, então com 79 anos, em sua sala na sucursal carioca da Folha. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Eram os anos 1990. Janio de Freitas tinha acabado de fazer uma radiografia em uma clínica no Rio de Janeiro, cidade onde sempre viveu. Ao lado de outros pacientes, ele aguardava uma checagem realizada por técnicos para saber se precisaria repetir o procedimento.

De repente, um médico entrou na sala: "Quem é Janio?". Todos se assustaram com o tom incisivo. "Sou eu", respondeu, envergonhado. "Você sabe que está fazendo um enfisema pulmonar?", questionou o homem de jaleco branco, unindo bronca e preocupação. "Sou seu leitor, porra!"

Àquela altura, ele tinha parado de fumar, mas acumulava décadas de consumo de pelo menos um maço e meio de cigarros todo dia. Desde então, a doença respiratória evolui lentamente --"vai me criar problema se eu resolver pegar onda", brinca. No mais, é boa a saúde de Janio, que completou 90 anos no último dia 9 de junho. Para a satisfação dos leitores, como o médico, o jornalista não pensa em parar de escrever.

"Janio foi um mestre para mim. Sempre que eu estava apurando uma matéria muito complexa, recorria aos conselhos dele", conta Elvira Lobato, repórter que trabalhou mais de 20 anos ao lado do jornalista na sucursal da Folha no Rio.

Considerado uma referência pela geração de Elvira e pelos jornalistas que ocuparam as Redações nas décadas seguintes, Janio foi empurrado para a imprensa num lance do acaso. Tinha feito um curso de aviação civil e pretendia se profissionalizar como piloto quando machucou o joelho em uma partida de basquete --nos anos seguintes, preferiu jogar vôlei e futebol, além de praticar jiu-jitsu.

Como a lesão tornaria difícil a retomada da aviação, resolveu mudar de rota. Virou uma espécie de auxiliar de edição no Diário Carioca, pelo qual passaram nomes como Luiz Paulistano, jornalista sempre exaltado por Janio. "Como eu tinha trabalhado como desenhista, me ofereceram oportunidades na diagramação. Depois, passei à seção de polícia como repórter", lembra Janio, que se tornou jornalista profissional em 1954.

A experiência em diversas áreas do jornal se repetiu na revista Manchete, para onde foi em 1955. Quatro anos depois, estava pronto para liderar uma revolução na imprensa do país, a reforma do Jornal do Brasil. Como escreveu Ruy Castro, "sua primeira página era de inédita clareza e modernidade. Os textos, alinhados por tamanho, altura e largura, aproximavam-se por assunto. Os títulos tinham objetividade de jornal e charme de revista".

Em 2 de junho de 1959, Janio --antes de completar 27 anos-- e colegas como Amílcar de Castro, Reinaldo Jardim, Ferreira Gullar e José Ramos Tinhorão apresentavam o novíssimo Jornal do Brasil, obrigando a concorrência a repensar suas diretrizes editoriais e gráficas.

A sua versatilidade contribuiu para que o projeto do JB fosse tão bem-sucedido. "Estudei o quanto pude as peculiaridades administrativas do jornal, a oficina, a área industrial. Eu sabia, por exemplo, operar uma linotipo [equipamento antigo de produção de textos que usava chumbo derretido]."

Nos anos seguintes, assumiu cargos de direção no Correio da Manhã e no Última Hora. Mário Magalhães, jornalista que conviveu com Janio durante 16 anos na sucursal do Rio, lembra uma frase do arquiteto Sérgio Bernardes, publicada na revista O Cruzeiro: "Janio de Freitas nasceu para fazer jornal como Mozart para fazer música".

Na década de 1970, a ditadura militar fez chegar aos donos de jornais o recado de que não gostaria de ver Janio à frente de algum dos veículos. Restou a ele ser sócio de uma gráfica, dedicada sobretudo à impressão de livros.

A Folha o chamou de volta à imprensa, em 1980. Mais conhecido até então como um notável editor, Janio mostrou que era também um repórter de excelência, como ficou evidente no furo publicado durante o governo José Sarney.

Em maio de 1987, revelou que o processo para a construção da ferrovia Norte-Sul havia sido fraudulento. Cinco dias antes do anúncio oficial, a Folha tinha publicado, de maneira cifrada e em meio aos anúncios classificados, os 18 vencedores. Ou seja, já se conheciam de antemão os resultados da licitação.

Janio, porém, não considera essa a sua reportagem mais relevante entre as publicadas pelo jornal. Cita uma informação de junho de 1983 em sua coluna: os médicos do presidente João Batista Figueiredo cogitavam a hipótese de uma cirurgia cardíaca.

A saúde do presidente está "muito boa", reagiram o líder do governo na Câmara dos Deputados e o porta-voz do Planalto. "Levei pau de todos os lados." Uma semana depois, no entanto, o segredo em torno da cardiopatia implodiu. "Coração faz Figueiredo pedir licença" foi a manchete da Folha.

Em 16 de julho, um dia após a cirurgia nos EUA, Janio escreveu uma coluna em tom de desforra. Listava as contestações à informação publicada por ele e concluía: "Ao general Figueiredo, pronta recuperação. Aos outros citados, também".

"Mais do que o domínio técnico, oscilando entre o brilhantismo e a genialidade, a maior influência de Janio de Freitas para o jornalismo brasileiro são o destemor e a dignidade", afirma Mário Magalhães.

De modo geral, as colunas na Folha se dividem em dois grupos, as informativas, como Painel e Mônica Bergamo, e as opinativas, caso de Ana Cristina Rosa, Cristina Serra, Hélio Schwartsman e tantas outras. Desde o início da sua coluna, em 1983, Janio embaralhou essas classificações. Buscava informações exclusivas --e trazia muitas-- em meio a análises sobre as movimentações do poder em um sentido mais amplo, que ia além das questões partidárias.

Nem todos gostavam do modelo, segundo Janio. "Otavio [Frias Filho] me deixou muito a impressão de que não apreciava a coluna. Queria algo mais ao estilo circunspecto, clássico, do comentarismo político que é editorializado."

A relação entre o diretor de Redação e o colunista foi, muitas vezes, difícil. De acordo com Janio, ao fim da eleição de 1989, em que Fernando Collor saiu vencedor, Otavio (1957-2018) disse por telefone que havia ressalvas do comando do jornal em relação aos textos dele sobre a disputa presidencial. Sempre segundo Janio, Otavio apontava que o colunista tinha sido bastante crítico em relação a Collor e havia poupado os demais candidatos.

"Eu não poderia ter dado aos demais o tratamento que dei ao Collor, um candidato cercado de gente perigosa, um destrambelhado."

Em janeiro de 2000, o extinto caderno Mais! publicou um texto de Janio sobre Cuba. O jornalista retornava à ilha caribenha mais de quatro décadas depois de ter acompanhado a ocupação de Havana pelos guerrilheiros vindos da Sierra Maestra. A cidade era outra, escreveu, alternando descrição, análise e contexto histórico. "Nenhuma memória de que foi o cenário encantador da mais apoteótica festa cívica e política jamais havida nestas Américas."

Otavio ligou para lhe dar os parabéns, repetindo o que havia feito quatro anos antes, a respeito de um texto sobre a Grécia, publicado na editoria de Turismo. Na coluna sobre os 100 anos da Folha, em fevereiro de 2021, Janio lembrou esses episódios, revestindo-os, mais uma vez, de ironia: "Um elogio para cada 20 anos é ao menos uma média original".

O fato de uma relação atribulada entre a cúpula de um grande jornal e um dos seus principais colunistas durar tanto tempo, 42 anos, talvez diga algo sobre a Folha e sobre Janio.

"Janio de Freitas exerce a sua independência radical inclusive em relação à própria Folha, onde escreve há quatro décadas, da qual é um dos melhores críticos. Essa independência, muitas vezes, resultou em uma relação bastante tensa com o diretor de Redação Otavio Frias Filho, mas um sabia da importância do outro e de quanto essa tensão ampliava os horizontes da própria Folha", diz o jornalista Matinas Suzuki Jr., que exerceu diversos cargos de comando na Redação e conviveu longamente com ambos.

Janio cogitou deixar o jornal algumas vezes, mas o publisher Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) o convenceu a ficar. "Frias sempre foi capaz de mudar a minha decisão", lembra. "Tenho enorme admiração por ele. É uma pena que não haja um trabalho mais aprofundado sobre a contribuição do Frias para o jornalismo."

O jornalismo, aliás, tal qual praticado hoje no Brasil, é alvo de comentários cortantes e recorrentes nos textos de Janio. O que mais o incomoda, inclusive na Folha, é a perda das técnicas jornalísticas.

"Veja a F-1. Há um Lewis Hamilton que cria um desenho ao fazer a curva. Abre um pouco mais na entrada, fecha no meio e passa a um dedo da mureta. O outro vem e faz a curva aos trancos", compara. "Um dispõe de técnicas, o outro não. Talento não é suficiente. O que é a técnica nesse caso? É uma apuração dos meios de realizar o talento."

Avaliação mais dura ele faz em relação à realidade política do país. "O governo Bolsonaro, assim como foi o de Temer, é uma fábrica de retrocessos e de burrice."

Seus 90 anos chegam com uma bagagem pesada de desilusão, como devem notar os leitores da sua coluna, publicada aos domingos. Surgem, porém, aqui e ali, sinais de confiança, até mesmo na imprensa, tão criticada por Janio. "É do jornalismo que ainda vem esse suspiro de democracia e de contenção das maldades, da corrupção."

RAIO-X

Janio Sérgio de Freitas Cunha, 90

Nasceu em Niterói (RJ) em 9 de junho de 1932. Tornou-se jornalista profissional em 1954 e passou por veículos como Diário Carioca, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Última Hora. Começou em 1980 na Folha, jornal do qual se tornou colunista em 1983. Recebeu prêmios como Rei da Espanha e Esso.

Jornalistas gravaram mais de 60 horas com Janio

De março a novembro de 2018, os jornalistas Fernanda da Escóssia, editora na revista piauí e professora de jornalismo na UFRJ, e Mário Magalhães, autor de livros como "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo" e ex-repórter da Folha, fizeram 20 sessões de entrevista com Janio de Freitas, totalizando mais de 60 horas gravadas.

Além de falar sobre sua trajetória, ele comentou as transformações vividas pela imprensa brasileira ao longo dos séculos 20 e 21. Ainda não há definição sobre como e quando o depoimento será publicado.

Levei para casa a mesa que era do Janio

Depoimento de Elvira Lobato

Tive a sorte de trabalhar ao lado de Janio de Freitas por mais de 20 anos. Ele foi um mestre para mim. Sempre que eu estava apurando uma matéria muito complexa, recorria aos conselhos dele.

Acredito que, ao revelar a fraude na licitação da ferrovia Norte-Sul em reportagem publicada em 1987 na Folha, o Janio tenha sido o primeiro jornalista brasileiro a usar o recurso de publicar um anúncio cifrado no jornal antes da abertura das propostas em licitações públicas.

Ele soube com antecedência que os concorrentes tinham combinado as propostas de preço e loteado as áreas entre eles. Janio publicou os preços de cada lote com um anúncio cifrado. Foi uma grande lição para nós. Depois disso, muitos repórteres usaram esta estratégia para denunciar fraudes.

Além disso, Janio me inspirou a parar de fumar. Ele fumava muito e conseguiu abandonar o vício. Fiquei com vergonha de continuar poluindo o ar da Redação e segui o exemplo do meu mestre.

Guardo com carinho a mesa que foi dele por muitos anos. Consegui resgatá-la e está no meu escritório em minha casa. A Folha estava modernizando o mobiliário da sucursal do Rio, e os operários faziam a troca dos móveis. Eles estavam retirando a mesa do Janio e eu a salvei.

Anos depois, contei a história para o Janio e ele ficou enciumado porque também amava a mesa. Mas era tarde demais. A nova dona já estava apegada a ela.

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