Sylvia Bandeira analisa os avanços femininos e reflete sobre assédio: 'Adoro o flerte, a brincadeira da sedução. O fiu fiu tem a sua hora'

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Sylvia Bandeira conheceu o cantor francês Charles Aznavour (1924-2018) em uma festa da socialite Beki Klabin, nos frenéticos anos 1970. Ficaram conversando em francês a noite inteira e a foto dos dois, com direito a beijinho no rosto, foi publicada com destaque na revista Manchete. “Ele era um baixinho charmosíssimo”, observa a atriz. Pouco tempo depois, ela o encontrou num voo em direção à Itália. “Falei toda animada: ‘Bonjour, Charles!’. Ele olhou para aquela mulher enorme e respondeu, comedido: ‘Bonjour’. Percebi, pela sua reação, que ele não tinha ideia de quem eu era e de ter ficado horas de papo comigo”, conta, às gargalhadas.

Charles pode até não ter se lembrado de Sylvia, mas ela, que não gosta de revelar a idade, jamais o esqueceu. Os discos do mestre da canção francesa não saíam da vitrola de sua infância, parte dela passada em Paris por causa da carreira do pai, diplomata — “meus pais ouviam direto” — e o romantismo desvairado de suas letras sempre a acompanhou. Por este e muitos outros motivos, o musical “Charles Aznavour — um romance inventado”, com texto de Saulo Sisnando e direção de Daniel Dias da Silva, tem valor tão sentimental. “As pessoas estão precisando de amor e esse espetáculo traz isso”, analisa. Na peça, que tem no palco o ator Mauricio Baduh e os músicos Liliane Secco e Ulisses Nogueira, ela interpreta Isabel, uma atriz que, na juventude, viveu um romance com Aznavour. “Muita gente vai dizer que tive um caso com ele, mas isso não tem importância”, afirma em uma bem-humorada entrevista por chamada de vídeo em que falou também sobre casamentos, feminismo, assédio e passagem do tempo.

Qual é a sensação de voltar aos palcos neste cenário de pandemia?

Fui para a casa que eu e meu marido (o engenheiro Carlos Eduardo de Souza Dantas Ferreira, com quem é casada há 37 anos) temos em Pedro do Rio quando começou a quarentena. Tudo me pareceu muito assustador. Fiquei lá, ao ar livre, preenchi a rotina com livros e seriados, e só vinha ao Rio para coisas pontuais. Com o tempo, passei a sentir muita falta de atuar. Recebi muito incentivo do meu marido. Durante os ensaios, parecia estar numa bolha, sem ver essas notícias horrorosas. Fizemos tudo sem patrocínio. Na plateia, só são permitidos 40% da capacidade de lotação e, no palco, somos apenas quatro pessoas que tomam todos os cuidados. Life goes on.

Quais as mensagens que as canções de Charles Aznavour transmitem em 2021?

Se você pensar bem, o jovem não acredita mais no amor romântico, característica do século XX. O encontro e o sexo são imediatos. Aquela paixão delirante cantada nas músicas dele, esse amor sofrido, não existe mais. Onde a gente ainda vê essas histórias dilacerantes? Da forma que o mundo vai, ficou tudo mais banalizado. As pessoas estão precisando de amor e o espetáculo traz isso. Eu escolhi as músicas do repertório de Aznavour, tem muitas que todo mundo conhece, como “She”, e outras menos famosas.

Você foi educada para ser independente?

Sou filha de diplomata, nasci em Genebra, na Suíça, morei na França, na Austrália, no Chile, na Guatemala, nos Estados Unidos e na República Dominicana. Casei-me jovem, aos 19 anos, com o empresário Robert Falkenburg II. Meu pai queria que eu fosse diplomata. Dizia: “Nada melhor do que a Sylvia ter a ‘Mercedesinha’ dela e ser independente em qualquer lugar do mundo”. Pensava à frente do tempo. Depois de sete anos de casamento e um casal de filhos (a atriz também tem uma filha do atual marido), me separei e fui realizar o sonho de ser atriz.

Depois, casou-se com Jô Soares. Vocês matêm contato?

Há pouco tempo, uma amiga queria saber o telefone dele. Eu liguei para saber se poderia dar. Não somos íntimos, mas mantemos contato. Quando eu ia ao seu programa, sentia um primeiro olhar de carinho e depois uma coisa mais fria, que achava estranho. Talvez porque fui eu quem cortei (o relacionamento), depois de dois anos. Tenho lembranças maravilhosas. Ele era tudo, a paixão, o carinho, o humor, o incentivo. Nós ríamos muito. Jô foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

Quais foram os avanços femininos de lá para cá?

Temos ainda muito o que conquistar. A diferença é que, atualmente, o feminismo e a nossa liberdade estão em todos os lugares. Porém, segue existindo a brutalidade do homem. Sempre me considerei capaz de arrasar alguém por meio da palavra, mas tinha muito medo da violência física. Não sofri agressão por ter saído fora antes. Também acho impressionante ainda ouvir pessoas amigas falando que precisam “perguntar para o marido”. Isso não existe na minha concepção de vida. Carlos Eduardo me conquistou porque, quando falei que uma determinada atitude era machista, ele me pediu para ensiná-lo a ser diferente.

Outro tema muito falado hoje, diferentemente do passado, é assédio. passou por isso?

Na inexperiência da juventude, quantas vezes me deixei levar por situações que eram assédio. Cantadas desconfortáveis e totalmente sem propósito. Sempre achei que tinha um jeito de dar fora, mas era um fora meio canhestro. Hoje, não teria a menor possibilidade de passar por coisas assim, como o homem colocar a mão sobre a minha numa entrevista de trabalho, e eu permanecer inerte. É cruel como eles se aproveitaram. Era comum em todos os meios. Porém, agora, começou a se demonizar qualquer tipo de cantada. Existe diferença entre o cara dizer que você está bonita e assédio. Com o tempo, haverá um equilíbrio maior.

Como você lida com a passagem dos anos?

Tenho energia imensa e a coisa da joie de vivre. Não tem como dizer que lido superbem, que é maravilhoso, mas a outra opção é pior. Não aparento o visual de uma anciã. Quando estou bem, vou chegar chegando, um pouco mais magra é melhor (risos). Tenho boa genética, minha tia está com 103 anos, lúcida. Sinto muita admiração pela Jane Fonda, mas reparei que ela botou boca. Não precisava! Tem muita gente jovem fazendo isso, mexendo no rosto, virou uma doença. Realizei um refrescamento com o Pitanguy, em 2008. Atualmente, só faria coisas sutis. Vejo mulheres assumindo os fios brancos, e acho lindo. Mas eu sou cabelo, não vou ficar de repente com a cabeça branca. Ainda estranho isso.

Qual é o charme da mulher madura?

Os mais jovens são encantados pelas maduras. É absolutamente natural. Estou casada, mas não virei freira. Adoro o flerte, a brincadeira da sedução. O fiu fiu tem a sua hora e não tira pedaço de ninguém. O ser humano me seduz. Meu marido é o meu eixo. Jamais falou: “Você precisa dar uma secadinha”. Só me faz elogios. Outro dia, reviu o filme “Gilda” com Rita Hayworth e disse que sou muito mais bonita do que ela. Só respondi: “Oh, my God!”.

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