Técnica em enfermagem conta como venceu a Covid-19, que infectou familiares e levou seu pai, e se prepara para ser mãe

Em depoimento a Eduardo Vanini
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Jaina atende a pacientes crônicos num hospital infantil

"Meu pai sempre me ensinou a oferecer o melhor de mim sem esperar nada em troca por isso. Afinal, como ele dizia, as coisas boas chegam até nós em algum momento. Manter a mente nos eixos, porém, não tem sido fácil em meio à pandemia do novo coronavírus, sobretudo, se você é uma técnica em enfermagem e moradora de Manaus, uma das cidades brasileiras que mais sofrem com a doença. Ainda assim, quando olho para a montanha-russa de emoções vivida nos últimos meses, consigo perceber que, de alguma forma, os ensinamentos dele nunca estiveram tão latentes dentro do meu coração.

Em meio à explosão de casos na capital, vi quase todos os integrantes da minha família serem infectados pelo vírus. O primeiro foi o meu irmão mais novo, de 27 anos; três dias depois, minha mãe e meu marido; em seguida, chegou a minha vez, junto ao meu pai, Marcone. Comecei a sentir dor no corpo, calafrios e tive febre alta, o suficiente para que me afastasse imediatamente do meu trabalho no Hospital e Pronto-Socorro da Criança, na Zona Oeste da cidade, onde lido com pacientes crônicos. Não consegui me levantar da cama por dois dias, até que a situação foi melhorando gradativamente. A poucos metros da minha casa, todavia, meu pai vivenciava exatamente o oposto: aos 53 anos e considerado parte dos grupos de risco por ser obeso e hipertenso, seu quadro se agravava a cada dia.

Ao vê-lo nessa situação, decidi levá-lo até um serviço de pronto-atendimento, onde passou a noite internado. Na manhã seguinte, seu estado de saúde era ainda pior, mas o local não tinha a estrutura adequada para atender pacientes como ele. Precisava ser transferido imediatamente para um hospital onde houvesse unidade de terapia intensiva. Foi quando deparei com um dos dramas mais temidos numa situação como a que vivemos: não havia leitos de UTI disponíveis na cidade.

Precisava agir rápido e, então, decidi gravar um vídeo no qual implorava, de joelhos, por ajuda. A filmagem repercutiu rapidamente e foi parar até no ‘Jornal Nacional’. Graças a essa atitude, recebi muito apoio, e meu pai pôde ser transferido naquela tarde para um hospital adequado ao atendimento de pacientes em situação grave. Lá permaneceu internado, até o pior acontecer, três dias depois. Quando meu telefone tocou na tarde de sábado, solicitando minha presença no hospital, sabia exatamente o que tinha se passado.

Inicialmente, senti-me conformada, de alguma maneira, porque sabia que ele tinha sido atendido com muito carinho pelos meus colegas, profissionais da saúde. Em seguida, veio aquela sensação de culpa. Sei que fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas, como filha, sempre nos questionamos se não podíamos ter feito mais. Eu, que sempre vou às lágrimas com as histórias que presencio no meu trabalho, não chorei nos primeiros dias que seguiram a morte de meu pai.

Angustiada, comecei a me consultar com uma psicóloga e entendi que reagi dessa maneira porque estava em estado de choque. Para mim, a qualquer momento, ele ia aparecer na minha janela para tomarmos um café juntos. Era como se meu pai estivesse viajando por um tempo. Comecei, então, a falar mais sobre ele, relembrar momentos que vivemos juntos e pensar no quanto se sacrificou pela minha educação. Aos poucos, fui compreendendo melhor a situação.

Mesmo curada da Covid-19, ainda sinto um peso na respiração ao subir uma escada ou uma ladeira, embora tenha 28 anos e pratique corrida. Mas nada foi tão desafiador quanto retornar ao trabalho. Diante da entrada do hospital, depois de quase 20 dias de licença, toda aquela angústia vivenciada ao lado do meu pai em ambientes como aquele voltou aos meus pensamentos. Por mais que ame a minha profissão, confesso ter chegado a me questionar, nos últimos dias, se realmente queria seguir em frente. Afinal, também perdi muitos colegas nos últimos meses por causa do contágio nos hospitais.

Optei pelo sim e, naquele mesmo dia, uma grata surpresa mostrou como a minha escolha não podia ter sido mais acertada. Um menino de 4 anos, vítima de uma doença degenerativa que compromete o seu sistema motor, conseguiu apertar a minha mão enquanto eu trocava a sua fralda e dizia: ‘A titia voltou. Ainda não estou bem, mas vou ficar’. Naquele momento, eu chorei. Sei o quanto a vida parece difícil, às vezes, mas não há dinheiro no mundo que pague a sensação de estarmos cumprindo a nossa missão. Tudo isso me fez encontrar uma força interior que não sabia existir dentro de mim.

Mesmo depois de atravessar dias tão difíceis, eu e meu marido nos preparamos agora para a chegada de nossa filha. Decidimos adotar o bebê de uma prima que engravidou e não tem condições de criá-lo. Já demos entrada em todos os trâmites legais e, possivelmente, enquanto você lê este relato, Maria Clara já esteja entre nós. Sua chegada nos enche de alegria e esperança, como uma semente que germinou. É uma das coisas boas que chegam até nós, de tempos em tempos, quando fazemos o bem. Como meu pai dizia.”