Técnica de enfermagem morta com suspeita de Covid-19 sonhava em ser mãe e com a volta aos plantões do Samu

Marcos Nunes
Daniele Costa foi sepultada sob aplausos e ao som de uma sirene, nesta quarta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Edson Passos, no município de Mesquita

RIO — Morta na última segunda-feira, após ficar internada na Unidade de Tratamento Intensivo no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, a técnica de enfermagem Daniele Costa, havia completado 41 anos, no último dia 6. Descrita por parentes como sendo uma pessoa alegre, ela trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento de Austin, em Nova Iguaçu, e tinha dois sonhos. Um era o de casar e ter filhos, já que adorava crianças. O outro, era o de retornar aos plantões no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), coisa que acabou conseguindo fazer antes de apresentar os primeiros sintomas de Covid-19, no último dia 14.

— Minha prima tinha dois sonhos. Um era o de casar e ter filhos, já que ela adorava crianças. O outro era o de retornar a trabalhar no Samu. Ela dizia que gostava de trabalhar na ambulância para ajudar a socorrer as pessoas. Já havia trabalhado antes neste mesmo serviço. Conseguiu voltar há pouco tempo, e chegou fazer um plantão lá — disse Helen Costa, de 29.

Sepultamento foi transmitido em rede social

Daniele Costa foi sepultada sob aplausos e ao som de uma sirene, nesta quarta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Edson Passos, no município de Mesquita. Um grupo pequeno de familiares e de amigos esteve presente ao sepultamento. Para que todos pudessem se despedir da auxiliar de enfermagem, a família transmitiu a cerimônia por uma rede social.

Durante o sepultamento, Maria Beatriz Costa, mãe de Daniele, se emocionou e lembrou que a filha não teve o tratamento adequado para Covid-19 quando buscou socorro no Hospital Geral de Nova Iguaçu. A própria técnica de enfermagem chegou a postar um vídeo, uma semana antes de morrer, onde reclamava do atendimento de um médico que, segundo ela, mandou que a funcionária da saúde voltasse para casa sem receitar nenhum medicamento.

— Filha, tanta gente você ajudou. E na hora que você precisou de ajuda, o hospital da sua cidade virou as costas. Pai, abraça minha filha e nos conforte — disse Maria Beatriz , num trecho do vídeo, enquanto chorava.

Uma das colegas de Daniele, que compareceu ao enterro, disse que a técnica de enfermagem não recebeu a assistência que costumava dar para os pacientes que atendia.

— No último momento da vida dela, ela não teve o que sempre deu. Que foi amor, carinho e a melhor assistência — disse a amiga.

Daniele trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Austin, em Nova Iguaçu. A técnica de enfermagem começou a sentir os sintomas da doença no dia 14 de abril. Dois dias depois, procurou o Hospital Geral de Nova Iguaçu.

Vítima reclamou do atendimento médico recebido

Um vídeo postado nas redes sociais, ela diz que o primeiro médico que a recebeu estava há pelo menos 12 horas sozinho no plantão e sem se alimentar. Em seguida, ela fala que, após realizar uma tomografia computadoriza, foi atendida por um outro médico, que segundo ela, nem a olhou nos olhos, e em seguida a liberou.

Em homenagem à profissional, familiares e amigos utilizaram máscaras de proteção que tinham o rosto de Daniele, além de camisetas com uma imagem da técnica de enfermagem.

Antes de ser internada, em Volta Redonda, a auxiliar de enfermagem foi atendida na UPA em que trabalhava. De lá, foi transferida por conta da gravidade do estado para o Zilda Arns, no último dia 22. Na segunda-feira, ela não resistiu e morreu.

Procurada, a Prefeitura de Nova Iguaçu, que administra o Hospital Geral de Nova Iguaçu, disse que Daniela foi atendida no local e que, no momento em que os exames foram feitos, não havia necessidade de internação. Abaixo, a íntegra da nota enviada pela assessoria do município.

"A paciente Daniele Costa, de 41 anos, foi atendida no Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI) em 16 de abril, com sintomas de síndrome gripal. Foi acolhida pela equipe médica e de enfermagem e fez todos os procedimentos recomendados: mensuração à oximetria, com 98% de saturação do oxigênio no sangue, e tomografia sugestiva à Covid-19. Esses resultados mostraram que, naquele momento, não havia necessidade de internação. Equipes do hospital orientaram Daniela a manter o isolamento domiciliar, conforme diretriz do Ministério da Saúde.

Vale ressaltar que o HGNI é um hospital de trauma e adequou seus leitos para receber paciente com a suspeita ou confirmação da Covid-19, enquanto os hospitais de campanha e modular, de responsabilidade do Estado, estão sendo construídos. Na manhã desta quarta-feira (29), a unidade contava com 68 pessoas internados, sendo 30% de pacientes de outros municípios. Além disso, o Hospital da Posse mantém a rotina de atendimento de urgência e emergência, recebendo pessoas baleadas, esfaqueadas, acidentadas e casos clínicos graves".