Títulos fazem torcida crescer? Entenda os casos de Palmeiras, Fluminense e Vasco

Por mais que seja sedutora, a ideia de que conquistar títulos é o suficiente para fazer uma torcida crescer não se sustenta na prática, foi o que revelou a pesquisa O GLOBO/Ipec. Troféus são importantes e ajudam, mas não são a única variável na equação.

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Confira comparativo: Flamengo lidera ranking de torcida da pesquisa O GLOBO/Ipec, além de receita, público e redes sociais

Os percentuais apresentados pelo Fluminense na pesquisa são a prova disso. O time das Laranjeiras viveu anos dourados de sua história entre 2007 e 2012, com uma Copa do Brasil, dois Brasileiros, um vice da Libertadores e um vice na Sul-Americana. Dez anos depois, era possível se imaginar que a boa fase deste período poderia já ser notada no percentual de tricolores entre os entrevistados mais jovens, de 16 a 24 anos.

- Existem pesquisas que apontam que o torcedor começa a definir seu time de vez aos 8 anos. A pesquisa leva em consideração torcedores de no mínimo 16 anos. Sendo assim, para saber se uma boa fase teve impacto no resultado do pesquisa, ele precisa ter acontecido no mínimo oito anos antes - explica o jornalista Rodrigo Capello.

Entretanto, o que o levantamento mostrou foi o envelhecimento da torcida em curso, com 0,3% dos torcedores na faixa mais jovem e 2,3% entre os mais velhos. Ambos os números discrepantes da torcida geral do Fluminense, 1,1%.

Raio-X do Vasco: Pesquisa O GLOBO/Ipec mostra percentual de torcedores maior entre jovens

O efeito dos títulos no crescimento da torcida, quando ocorre, não é imediato. Em meio à geração mais vitoriosa de sua história, o Palmeiras apareceu com 5,4% dos torcedores entre 16 e 24 anos, número menor do que os 7,4% da torcida geral. A tendência é que os feitos da equipe de Abel Ferreira apareçam no futuro.

Vasco busca outro caminho

Quando a conquista de títulos está fora de cogitação, os clubes precisam criar outras alternativas para manter sua base de torcedores ao menos estável. O Vasco, em meio à longa decadência esportiva, aposta há alguns anos no fortalecimento da identidade ligada a causas raciais e de gênero.

Trata-se de um trabalho de longo prazo. As primeiras ações do cruz-maltino neste sentido ocorreram pouco mais de dez anos atrás, na gestão de Roberto Dinamite. O clube voltou a promover com mais frequência sua história de luta pela inclusão do negro no futebol, com a criação de camisas e ações de marketing. Uma delas marcante, quando torcedores foram convidados a deixar suas mãos pintadas de preto no muro de São Januário.

Ações de marketing desse tipo caíram em desuso durante 2015 e 2017, quando Eurico Miranda era presidente. A distanciamento da torcida no ambiente digital cresceu, com torcedores sendo bloqueados de interagir com perfis do clube nas redes sociais por causa das críticas direcionadas à diretoria.

Posteriormente, com o presidente Alexandre Campello, o clube voltou a se atentar às ações que pudessem promover simpatia de torcedores em geral, não apenas vascaínos. Foi marcante a camisa com a bandeira do arquirrival Flamengo usada pelo Vasco em homenagem às vítimas do incêndio no Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019.

Nos últimos dois anos, o olhar do clube ficou concentrado na causa LGBTQIAP+.

- Esses dados de crescimento da nossa torcida entre os mais jovens é muito interessante. Acho que é o resultado do esforço do clube em se reconectar com os jovens a partir da defesa de causas identitárias que fazem parte do DNA do Vasco. As nossas agendas, interesses e ações estão entre as prioridade das novas gerações - afirmou o vice-presidente de marketing, Vitor Roma.

Além disso, o Vasco tenta capitalizar para si o alcance de influenciadores vascaínos, casos do streamer Casimiro e de Iran Ferreira, o Luva de Pedreiro. A ideia é engajar os torcedores existentes e fisgar novos pela criação de vínculos, identificação, que não dependam de títulos.

O resultado dessas estratégias será mais perceptível no futuro, mas o percentual de 4,8% dos torcedores entre 16 e 24 anos já sinaliza que o cruz-maltino começou a frear a tendência de envelhecimento da torcida.

- Quem frequenta São Januário percebe a energia física nos jogos. É o vigor físico da juventude. Eu atribuo isso à mudança de comportamento do clube. Houve uma aproximação com os influenciadores. O Vasco era um clube que bloqueava o usuário na rede social que falava mal do presidente - lembrou Bruno Maia, vice-presidente de marketing do Vasco entre 2018 e 2019. - Acredito que o pior momento já tenha passado. Qualquer profissional que for negociar com o Vasco vai ver uma tendência de crescimento. A torcida diminuiu sim, mas quando aumenta a base de jovens, você tem uma tendência agora positiva.

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