Por que estamos falando mais de Tabata Amaral do que da própria reforma da Previdência?

Matheus Pichonelli
Luis Macedo/Agência Câmara
Luis Macedo/Agência Câmara

Nem Jair Bolsonaro nem Rodrigo Maia. O maior símbolo da votação de uma reforma marcada por simbolismos é a jovem deputada Tabata Amaral.

Eleita pelo PDT de São Paulo, ela contrariou a orientação do seu partido e votou a favor das mudanças no sistema de aposentadoria no país. Virou tema de intensos debates sobre o suposto engodo da nova política e, antes de migrar para outra legenda (o Novo?), foi parar nos trending topics do Twitter.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Nos grupos progressistas, marcadamente contrários à reforma, pipocavam placas do tipo “Nunca me enganou” e “Ela me enganou”, enquanto apoiadores sui generis, como o Movimento Brasil Livre, parabenizava em público a cientista política e ativista da educação por “não compactuar com a velha turma que trabalha no quanto pior, melhor” e por “enxergar além do prisma ideológico”.

Só quem tem as lentes já completamente embaçadas por outro prisma ideológico, como o MBL, poderia resumir a questão com tantas loas fora de hora, e isso não é um detalhe.

Pode-se questionar a virulência e o hiperfoco dos ataques à deputada, mas não o simbolismo da decisão em um contexto em que o presidente da República defende e ativa uma série de manifestações favoráveis ao trabalho infantil e o Congresso decide, por 379 votos contra 131, que os trabalhadores adultos terão de cruzar a linha dos 65, entre homens, e 62, entre mulheres, para ter direito a se aposentar em um país com pesada herança escravocrata e onde pessoas acima dos 50 anos são basicamente descartados pelo mercado.

Não é que o futuro preocupa: ele simplesmente pode não existir.

A decisão ganha mais contornos simbólicos quando se pensa que a deputada foi eleita pelo PDT, o Partido Democrático Trabalhista, herdeiro do espólio do velho Partido Trabalhista Brasileiro (homônimo do PTB atual), de Getúlio Vargas.

Herdeiro do varguismo, o PDT foi recriado há quase 40 anos por Leonel Brizola, que na época declarou: “Somos as verdadeiras reformas, a mudança, o voto Rebelde. O PDT é um partido derramadamente democrático. Somos a expressão brasileira do socialismo democrático e tornamos a feição social democrata, pois é preciso chegar a um certo nível de igualitarismo para termos desenvolvimento. Somos as emanações das lutas sociais”.

No caso da reforma, as lutas sociais se aglutinaram do lado oposto de Tabata, notadamente nas ruas, onde centrais sindicais rivais e em crise gritaram em vão contra uma reforma mais do que esperada por investidores com quem a esquerda já não acessa.

O lado oposto era o lado de dentro do Congresso, onde, só na Câmara, um terço dos 513 deputados federais eleitos e reeleitos em 2018 são empresários e profissionais liberais, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Do total, 133 parlamentares eleitos se declam empresários, 14 são produtores do agronegócio e sete, comerciantes.

A trajetória de Tabata é o oposto da maioria dos colegas. Filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus nascida na periferia de São Paulo, ela se tornou a sexta deputada mais votada do estado, com mais de 264 mil votos, após colecionar 30 medalhas de concursos de matemática, física, química, informática, astronomia, robótica e linguística.

Formada pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, ela já foi chamada de “menina prodígio” pela Folha de S.Paulo, mas sempre se recusou a atribuir a sua ascensão à tal “meritocracia”, espécie de palavra mágica dos jovens liberais que renegam as responsabilidades do Estado para equiparar as condições da corrida. “A gente está em um país onde há muitas desigualdades. Minha crítica não é quanto à meritocracia em si, mas em querer aplicar a meritocracia quando o ponto de partida é desigual”, declarou ela à BBC.

Parece uma fala de uma militante de esquerda que não naturaliza as desigualdades – e, neste ponto, é.

Apesar das expectativas, ela só começou a virar assunto nacional quando enquadrou o então ministro da Educação Ricardo Vèlez Rodrguez em uma audiência da Câmara.

Como quem alerta que o ministro estava nu, ela questionou o despreparo de quem, passados três meses no cargo, tinha apenas um “Power Point com dois, três desejos para cada área da Educação”. “Cadê as metas? Quem são os responsáveis? Isso daqui não é planejamento estratégico, isso e uma lista de desejos. Eu quero saber onde que eu encontro esses projetos? Quando cada um começa a ser implementado? Quando serão entregues? Quais são os resultados esperados? São três meses, a gente consegue fazer mais do que isso”, afirmou. “Eu não espero mais nenhuma resposta, já entendi que isso não vai acontecer. A mim, me resta lamentar o que está acontecendo, continuar o meu trabalho de educação, que não começa com este mandato, e esperar que o senhor mude de atitude - o que parece completamente improvável - ou saia do cargo de ministro da Educação.”

A fala, que viralizou ao som de “Tabata guerreira, do povo brasileiro”, fragilizou ainda mais a situação do ministro, que acabou demitido na sequência.

Quatro meses depois, ela se tornou a deputada que a chamada esquerda-raiz ama odiar – afinal, na hora H, o símbolo da nova política se aliou aos senhores de cabelo branco que até outro dia chamava Bolsa Família de Bolsa Esmola e agora prometem catapultar a economia do país aproximando a classe trabalhadora da precarização.

Tabata entrou no rol de antigas referências da esquerda que, pela posição ambígua (ou, para muitos, não totalmente alinhada com uma pauta de compromissos mais ampla) onde dormitam nomes como Cristovam Buarque, Fernando Gabeira e Marina Silva.

A gritaria talvez não fosse tanta se ela não tivesse sido eleita por um partido de base (e batismo) trabalhista, mas vale lembrar um detalhe: ela não foi a única pedetista a trair a orientação da legenda, que se posicionou contra a reforma. Dos 27 deputados eleitos pela sigla, oito desobedeceram a orientação.

Você sabe quem são os outros sete? Pois é.

A desobediência é simbólica também quando se pensa que, no Brasil, 8 em cada 10 eleitores não confiam em partidos políticos – que, num sistema de voto proporcional, deveriam ser instâncias de mediação entre eleitos e representados. Mas, se nem mesmo os filiados obedecem às instruções das legendas, as verdadeiras donas das cadeiras e da elaboração de politicas públicas, e o grande protagonista político é um grupo maleável e sem sustância ideológica chamada “centrão”, quem precisa levar a instituição política partidária (e em crise) a sério?

A proliferação de partidos, a troca de votos por apoio, a crise de representação e a infidelidade partidária são o terreno onde mudanças na Previdência são definidas.

“No entanto, só se fala de Tabata Amaral”, resumiu, em seu Twitter, a filósofa e escritora Daniela Lima. Ela prossegue: “É difícil entender a surpresa, visto que ela já vinha defendendo a Reforma abertamente em entrevistas. E mais: a deputada nunca se comprometeu com o trabalhismo ou com uma agenda de esquerda - mesmo quando se tratava de educação. Por que estamos deslocando nossas expectativas e afetos para isso? Por que não estamos falando do voto de mulheres que representam uma nova esquerda, como Sâmia Bonfim, Talíria Perrone e Áurea Carolina? Por que o voto de uma única deputada parece um problema maior do que a aprovação do texto?”.

Outra amiga, socióloga especialista em relações de trabalho, observa com interesse a comoção e questiona: “Por que estão indignados com ela? Para além do machismo explícito de muitos, o que esse incômodo tem a dizer?”.

Ela lembra que Tabata é uma mulher de origem periférica que “venceu na vida” e se tornou um símbolo das disputas políticas em cima dessa narrativa. É também símbolo dos anos PT: sobe na escala, mas vota contra o que a levou até ali. Nada mais simbólico também da perda de terreno e da capacidade de interlocução das legendas de esquerda nas franjas da cidade.

“Ela é uma pessoa que quer resolver as coisas hoje, do jeito que dá e sem revolução. Que abraça o que vem. O problema é que o que tem pra hoje é rebaixado demais. O que dói é ver alguém tão inteligente fechando com um projeto de futuro sem imaginação”.

O nó da coisa toda, segundo essa minha amiga, é a contradição de um país onde a elite acena para a esquerda com pautas que não dá pra abrir mão (educação e direitos humanos, por exemplo), mas que chama o Rappi pra matar barata em casa e negocia o dinheiro do transporte com a diarista, ao tempo em que a classe média que melhorou de vida, mas não muito, vê nela uma promessa que não foi cumprida para todos.

Ela lembra que, no Brasil, direitos trabalhistas e sociais sempre foram um cobertor curto. “Nossa informalidade é imensa. Isso cria a ideia de privilégio mesmo pra quem não é privilegiado.”

A ambiguidade de Tabata, e a virulência em torno dela, não é a causa, mas consequência de um país banhado em contradições.