Talibã celebra vitória sobre EUA e amplia repressão, deixando manifestantes mortos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em mais um dia em que as promessas de moderação foram colocadas à prova, o Talibã celebrou pela primeira vez ter derrotado os "arrogantes Estados Unidos" e reprimiu protestos no leste do Afeganistão e em Cabul, provocando diversas mortes.

O grupo extremista islâmico retomou o poder no domingo (15), após conquistar a capital 20 anos depois de ser enxotado pelas forças ocidentais lideradas pelos EUA, que o puniram por ter protegido os terroristas que executaram os ataques do 11 de Setembro.

Desde então, os fundamentalistas têm dado repetidas entrevistas e declarações afirmando que não repetiriam seu governo anterior, de 1996 a 2001, no qual implantaram um simulacro de califado islâmico medieval, no qual não havia direitos humanos e a brutalidade imperava.

Na quarta (18), ao menos três pessoas já haviam sido mortas ao protestar contra o Talibã na cidade de Jalalabad, 150 km a leste de Cabul.

Já nesta quinta, centenas de manifestantes foram às ruas da capital e de outras cidades para celebrar o Dia da Independência, no caso o fim do jugo britânico em 1919. Levando o pavilhão nacional afegão, elas gritavam "nossa bandeira, nossa identidade" e o usual "Alá é o maior".

Em comunicado, os talibãs fizeram a primeira provocação direta aos EUA, que deixaram o Afeganistão à mercê do grupo após iniciarem sua retirada de tropas, em abril.

“Hoje celebramos o aniversário da nossa independência do Reino Unido. Nós, ao mesmo tempo, como resultado de nossa resistência jihadi, forçamos outra potência arrogante do mundo, os EUA, a fracassar e se retirar do nosso solo sagrado do Afeganistão", disse o Talibã.

O grupo também pediu para que os sacerdotes muçulmanos exortem a população a defender a união nacional nas orações tradicionais de sexta-feira —pressupondo tal união sob o Talibã, claro.

Os relatos são nebulosos, mas nos atos ocorridos ganharam ar de protesto contra os novos donos do poder, que reagiram do jeito que sabem: atirando. Em Asadabad (Kunar, leste afegão), testemunhas disseram à agência de notícias Reuters que houve um pequeno massacre.

"Centenas foram para as ruas. No começo eu estava com medo e não queria ir, mas quando vi meus vizinhos se juntando ao ato, peguei uma bandeira que tinha em casa e fui. Várias pessoas morreram e ficaram feridas no corre-corre e pelos tiros do Talibã", disse Mohammed Salim.

Houve confusão também em Jalalabad e Khost, outra cidade importante a leste, e em Cabul, mas sem informações sobre vítimas. Na capital, houve tiros relatados. O Talibã, procurado por agências de notícias, não se pronunciou.

Mesmo que haja exageros, dada a dificuldade de aferição da realidade pela imprensa local e pelos cada vez mais raros jornalistas ocidentais no Afeganistão, uma coisa é certa: o Talibã terá de lidar com mais resistência popular do que na sua encarnação passada.

Em 1996, o grupo vencera uma guerra civil amarga, iniciada em 1992, após os turbulentos anos de governo dos guerrilheiros islâmicos que emergiram vitoriosos da ocupação soviética de 1979 a 1989.

O país era um amontoado de ruínas, sem infraestrutura, e não havia a comunicação instantânea de hoje. Por todas as suas falhas conceituais, os 20 anos de presença ocidental melhoraram um pouco as condições de vida e, principalmente, a liberdade e interconectividade dos afegãos.

Se isso irá se estruturar em uma oposição real ao grupo, é outra história. Nesta quinta, o chanceler russo, Serguei Lavrov, afirmou que há um bolsão de resistência sendo organizado no mítico vale do Panjshir, uma cênica região montanhosa 100 km a noroeste de Cabul.

"O Talibã ainda não controla todo o Afeganistão", disse Lavrov, cujo país tem feito uma abertura cuidadosa nos contatos com os fundamentalistas, diferentemente da China, que deu apoio mais explícito aos radicais.

Ambos os países são rivais dos EUA e tentam faturar com a nova situação. Nesta quinta, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês Hua Chunying disse que "o Talibã hoje é mais calmo e racional do que da última vez que esteve no poder".

"Nós encorajamos e esperamos que eles coloquem em prática o que disseram nos últimos dias", disse ela. Seu chefe, Wang Yi, afirmou numa conversa com seu colega britânico, Dominic Raab, que o mundo precisa apoiar o Afeganistão.

Segundo Lavrov, a resistência é liderada por um dos vice-presidentes do regime derrubado, Amrullah Saleh, e Ahmad Massoud, o filho do "leão de Panjshir", o maior herói nacional daqueles que lutaram contra o Talibã nos anos 1990, Ahmad Shah Massoud.

Saleh, que se diz o presidente interino de fato do país, postou no Twitter palavras de apoio aos manifestantes, pedindo que levassem bandeiras afegãs às ruas.

O problema para ele é semelhante ao que afligiu o pai de Massoud, morto numa ação cinematográfica, na qual terroristas se fingiram de repórteres e explodiram tudo com uma câmera-bomba durante entrevista dois dias antes de 11 de setembro de 2001.

Panjshir nunca caiu para o Talibã, sendo a base da Aliança do Norte, grupo que misturava tribos de etnias minoritárias, como tadjiques e uzbeques, em oposição à base majoritária dos fundamentalistas, os pashtuns —40% dos 37 milhões de afegãos.

Ao longo dos anos talibãs, cerca de 10% do território ficou com esses opositores, mas o governo foi tocado a partir de Cabul. Na realidade, se não fosse o 11 de Setembro, eles provavelmente teriam sido eliminados pelo Talibã.

Além disso, como egresso do governo de Ashraf Ghani, presidente que fugiu para Abu Dhabi, a liderança de Saleh é questionável. Nesse sentido, é mais importante descobrir qual será o movimento de senhores da guerra poderosos como Abdul Rashid Dostum, um uzbeque étnico que comandava as defesas de Cabul e sumiu no dia da chegada do Talibã.

Enquanto isso, os talibãs vão montando o governo, a partir de consultas com líderes como o ex-presidente Hamid Karzai e o ex-chanceler Abdullah Abdullah. Até Ghani se disse interessado em voltar.

O Ocidente se faz de desentendido e, com o desengajamento dos EUA e a posição europeia de considerar os talibãs no poder um fato consumado, o caminho parece aberto ao grupo. "É o acontecimento geopolítico mais importante desde a anexação da Crimeia [pela Rússia] em 2014", disse o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, dizendo que era preciso negociar com os fundamentalistas.

Declarada a volta do Emirado Islâmico do Afeganistão e a reintrodução da sharia, a lei islâmica, resta saber como isso se dará na prática. Moderação e sharia não andam juntas: a leitura estrita do texto legal muçulmano feita pelo Talibã levou às barbaridades cometidas contra opositores, minorias e mulheres.

Ainda que porta-vozes como Zabihullah Mujahid tenham dito que haverá liberdade feminina no país, o aposto "de acordo com os limites da sharia" repetido por ele e outros gera justificada desconfiança.

E há a crise contínua no aeroporto de Cabul, palco de ao menos 12 mortes desde domingo —inclusive o símbolo do fracasso da retirada americana decretada pelo presidente Joe Biden em abril, os afegãos que se agarraram a cargueiros decolando e morreram ao cair do céu.

Nesta quinta, a imagem de uma menina sendo erguida por cima do muro do aeroporto e entregue a um soldado americano viralizou. Não está claro se a garota voltou a encontrar a família dentro do local ou se foi passada a outras pessoas na tentativa de colocá-la a bordo de um voo.

Assim como a criança, uma mulher também recebeu ajuda dos soldados dos EUA para pular a barreira.

A saída das forças, que acaba dia 31 mas pode se estender até o fim das evacuações, foi o gatilho para a ofensiva talibã, que em duas semanas tomou conta de todo o país. Biden lavou as mãos e defendeu sua decisão, que de resto ratificou um acordo entre EUA e Talibã feito pelo antecessor, Donald Trump.

Nesta quinta, o Talibã cercou o aeroporto e impediu o acesso de civis afegãos sem passaporte e visto. As forças americanas, que protegem a embaixada transferida para a área e organizam a evacuação, se queixaram —embora, na véspera, a Otan (aliança militar ocidental) tenha determinado a mesma restrição.

Resultado, há filas e cenas de campos de refugiados em plena capital. Embaixadas ocidentais reportaram ter retirado cerca 8.000 pessoas em voos militares desde o domingo, mas a situação segue incerta.

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