Talibãs vigiam sítio onde ficavam budas de Bamiyan no Afeganistão

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Membros dos talibãs fazem guarda, em 2 out. de 2021, em frente ao buraco onde ficava a estátua do buda Shahmama Buddha, na província de Bamiyan, até ser destruída em março de 2001 (AFP/Bulent Kilic)

Em Bamiyan, vale mítico no centro do Afeganistão, os talibãs vigiam as cavidades que abrigavam os dois famosos budas gigantes que seus chefes e companheiros destruíram com explosivos em 2001.

"Os budas foram destruídos pelas autoridades talibãs em 2001", menciona uma placa de bronze gravada, selada na pedra. A bandeira do movimento radical sunita está plantada em uma guarita, onde dois jovens armados parecem muito entediados.

De acordo com Ali A. Olomi, historiador especialista em Oriente Médio na universidade estadual Abington em Penn, Estados Unidos, o mulá Mohamad Hasan Akhund, nomeado primeiro-ministro do governo talibã no mês passado, é "um dos artífices da destruição dos Budas".

Ao ser questionado se, em retrospecto, foi uma boa ideia dinamitar as estátuas - ato considerado um dos maiores crimes contra o patrimônio mundial - Saifurahman Mohamadi, um jovem talibã recém-nomeado para a Direção de Assuntos Culturais da província de Bamiyan, mal consegue esconder sua vergonha.

"Não posso comentar este assunto", disse à AFP.

"Eu era muito jovem. Se fez isso, o emirado islâmico deve ter tido seus motivos. Mas a verdade é que, agora, nós nos comprometemos a proteger o patrimônio histórico do nosso país. É nossa responsabilidade", afirma.

O esplêndido Vale de Bamiyan, localizado a uma altitude de 2.500 metros no coração do maciço do Hindu Kush, é o ponto mais ocidental alcançado pelo budismo, o que fez dele um importante local de peregrinação.

Ao longo dos séculos, as influências indiana, persa, turca, chinesas, mogol e helênica se cruzaram, formando uma encruzilhada de civilizações únicas no mundo e deixando para trás, em vários lugares - muitos dos quais ainda inexplorados -, um patrimônio extraordinário.

Atuais e ex-funcionários da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Bamiyan, refugiados no exterior, ou que entraram de forma clandestina, garantem à AFP que mil peças de valor inestimável, armazenadas em três sítios em Bamiyan, foram roubadas, ou destruídas, após a volta dos talibãs ao poder em meados de agosto.

- Budas nunca serão reconstruídos -

"Confirmo que houve saques, mas foi antes da nossa chegada", diz Mohamadi.

"Fizemos uma investigação e estamos tentando recuperá-las. Além disso, o trabalho do centro cultural da Unesco continua", completou.

De fato, os jornalistas da AFP observaram que os carpinteiros trabalham nos dois edifícios monumentais que dominam Bamiyan e estão quase concluídos.

Estimado em cerca de US$ 20 milhões e financiado pela Unesco e pela Coreia do Sul, o projeto seria inaugurado no início de outubro.

"Agora tem que ver como vai funcionar", diz, de Bruxelas, o diretor do programa Cultura, do escritório da Unesco em Cabul, Philippe Delanghe.

"Recebemos sinal verde de Nova York. Estou pensando em voltar ao Afeganistão na semana que vem. O atual governo quer que a gente volte. Vou ver como faço para chegar a Bamiyan", acrescentou.

"Estão tentando mostrar que está tudo bem e que estão interessados no patrimônio", explicou o diretor da delegação arqueológica francesa no Afeganistão, Philippe Marquis, que está na França agora.

"Eles se deram conta de que as atividades de proteção do patrimônio geram empregos e uma receita regular", no momento em que a situação econômica do país é desastrosa, acrescenta.

Enquanto isso, pedaços dos Budas jazem sob pobres telhados de madeira e tecidos rasgados pelos ventos do vale. No século XVII, eles sobreviveram aos ataques do imperador mogol Aurangzeb e, no século XVIII, aos do rei persa Nader Shah, que se contentou com desfigurá-los.

Depois de tanto tempo, especialistas mundiais parecem ter chegado a um consenso: eles nunca serão reconstruídos.

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