O que, afinal, é a 'Cultura Ocidental' que Talibã diz combater no Afeganistão?

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  • Talibã alega que combate a uma chamada 'Cultura Ocidental' está entre seus objetivos

  • Grupo extremista islâmico ameaça as liberdades individuais das mulheres no Afeganistão

  • Especialista alerta para piora de situação que já era ruim sob a ocupação norte-americana

O retorno do Talibã ao poder no Afeganistão recolocou os ideais do grupo extremista na pauta mundial. Entre eles, está o combate a uma suposta 'Cultura Ocidental', conceito que muitas vezes pode soar abstrato ou demasiadamente amplo. Para entender melhor o ponto, o Yahoo! conversou com Ana Prestes, cientista política e analista internacional sobre o tema.

Questionada, Prestes lembra que há um princípio básico da Antropologia que trata da alteridade —natureza ou condição do que é outro, do que é distinto. Para ela, tendemos a generalizar o que não conhecemos. Aqui no Ocidente, essa prática se dá com frequência, por exemplo, com conceitos amplos que reduzimos sob os termos 'islamismo', 'árabes' ou 'povos asiáticos'.

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"Quando o Talibã fala em ocidentais também há generalização. O Ocidente é Nova Iorque? É o Reino Unido que tentou colonizar o Afeganistão? Então, a primeira regra básica é se despir um pouco dessa visão generalizante", pondera a analista.

Segundo Prestes, quando grupos fundamentalistas falam em "Ocidente" há "muita coisa misturada". Ela destaca como o termo pode se referir aos Estados Unidos, país que tem histórico intervencionista na região.

"[Quando falam em combater a Cultura Ocidental] eles estão se referindo a uma Europa colonizadora, que tem muita presença naquela região. Eles também estão falando do país ocidental hegemônico pós-Segunda Guerra que são os Estados Unidos (...) Estão falando do jeito dos norte-americanos de quererem impor seus modelos de democracia e cultura para outros países", diz Prestes ao lembrar que essa conduta foi recorrente na hora de justificar diversas intervenções como as ocorridas na Síria, Líbia, Iraque, entre outras.

Questão das mulheres pós-Talibã

Logo nas primeiras horas sob o novo governo, acendeu-se o alerta sobre como ficaria a vida das mulheres no país, visto que o Talibã ficou conhecido por ser um dos regimes mais opressores na questão de gênero no período em que chefiou o Afeganistão, entre os anos de 1996 e 2001.

Com o Talibã no poder, mulheres estiveram proibidas de estudar, trabalhar e até sair às ruas sem estarem acompanhadas de um homem. Ainda assim, um dos primeiros símbolos usados para tratar da volta da opressão foram vestimentas como a burca e o hijab.

"Ciência Política, Sociologia e Antropologia são importantes para que possamos ver além da aparência, para buscarmos a essência das coisas. É importante ressaltar que o período em que os EUA estiveram no Afeganistão também foi prejudicial às mulheres porque foi negativo para a sociedade em geral. Por exemplo, 70% da população do país sofre com insegurança alimentar. Houve prejuízos econômicos e estruturais muito fortes para o povo afegão como um todo", alerta a especialista.

Prestes lembra também que a situação mais estruturada da capital Cabul não se replicava em outras áreas do país. Há relatos de violência e abuso contra as mulheres por parte do contingente norte-americano que ocupava o país.

Existe, segundo ela, um "fundamento patriarcal" que rege a sociedade tanto com norte-americanos ou talibãs no comando. Ainda assim, a ascensão do grupo fundamentalista pode acentuar a gravidade de um quadro que já era alarmante.

"O que alertamos é que com o domínio dos talibãs, [a vida das mulheres no país] pode piorar muito. Não é que com os Estados Unidos ocupando o país era bom. É isso que precisa ser desmanchado da nossa cabeça. Não é que com os norte-americanos por lá estava tudo lindo. Já não estava bom, o problema é que agora pode ficar ainda pior". Diante da situação crítica que se instalou no país com a retomada do Talibã, os EUA admitem até adiar a retirada total de suas tropas no país.

Protagonistas de suas próprias histórias

Questionada sobre a importância de se ouvir a demanda das mulheres afegãs para buscar soluções para a crise, Prestes diz ser fundamental porque "são elas as autoras e protagonistas da história da mulher afegã". A analista vê o tamanho da repercussão da questão feminina no país como um avanço em relação ao passado.

"Se fosse há 20 anos, esse tema das mulheres não estaria tão forte como hoje. Seria tratado como uma coisa a mais dentro de um todo. Não teria tanta centralidade, é só perceber que quase todo analista ao abordar o tema coloca a questão das mulheres porque existe uma pressão internacional muito forte para que isso seja pautado", argumenta.

Desde que assumiu, o Talibã vem tentando vender uma imagem de moderação ao restante da comunidade internacional. Ainda assim, há relatos de que a circulação de mulheres pela rua diminuiu, indicando que não há confiança no discurso oficial adotado pelo grupo. Ainda assim, houve registros de mulheres que foram às ruas protestar contra o novo regime

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