'Também conseguimos ser felizes', diz autora de foto na favela que viralizou

·4 min de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Estava perto das 15h da última sexta-feira (17) quando um temporal fez cair a energia no morro do Turano, na zona norte do Rio de Janeiro. Carla Vieira, 20, logo ouviu da janela o barulho de crianças que corriam para brincar na chuva.

Bela, sua pitbull fêmea, que dormia na sala, acordou com a voz dos meninos. Contra a advertência da mãe, que temia por um resfriado da cachorra, a jovem abriu o portão e deixou a cadela de um ano e sete meses sair para o primeiro banho de chuva da vida.

Lá fora, depois de hesitar, Bela foi ao encontro dos meninos, e Carla, equilibrando guarda-chuva e celular nas mãos, registrou a cena: as quatro crianças —Rhuan, Isaque, Weverton e Natan— esparramadas nas escadarias do morro em meio à torrente de água da chuva que descia, e Bela, no primeiro plano, em um sorriso de boca aberta.

"Postei e larguei o telefone. Depois de um tempo senti meu telefone vibrando e tocando sem parar, todo mundo querendo entrar em contato. Pensei: aconteceu alguma coisa", conta Carla. Naquele momento, a imagem já tinha sido reproduzida e compartilhada por uma torrente de perfis nas redes sociais.

"Desde o primeiro dia eu estou sinceramente chocada, mas me divertindo demais", afirma Carla, que mora com a mãe, o padrasto e mais duas irmãs. Elas, aliás, estão ajudando a irmã a responder às mensagens que chegam sem parar desde sexta-feira.

Dos 411 seguidores que ela tinha no Instagram antes da postagem, passou para mais de 6.000. A foto, com a legenda "pinto no lixo" (gíria popular para alegria), já conta com mais de 36 mil curtidas e 1.600 comentários. Em um dos perfis que compartilhou, o número de curtidas já passa de 66 mil.

Nascida e criada no morro do Turano, Carla nunca teve câmera, nem amadora nem profissional. Só teve o primeiro celular, com o qual começou a fotografar, depois dos 13 ou 14 anos, lembra. Em março, com o dinheiro de um trabalho como aprendiz administrativa, ela comprou um aparelho mais moderno, de cerca de R$ 1.200, cuja última das dez parcelas será paga em janeiro. Hoje está desempregada.

"O computador que eu tinha queimou, e também sem querer queimei o notebook da minha irmã", diz, rindo. "Como a fotografia sempre foi um hobby para mim, sempre fui tirando foto de tudo e de qualquer coisa que eu quisesse. As coisas de que eu gosto, eu pesquiso, procuro aprender."

A jovem publica no seu perfil principalmente imagens de paisagens da natureza do Rio. "Eu sempre saio com o telefone e volto cheia de foto", diz ela, que foi convidada por um estúdio na zona sul da cidade para acompanhar, na terça (21), uma sessão de fotografia infantil.

No primeiro dia deste ano, o morro do Turano foi notícia com a primeira criança assassinada na cidade em 2021. A menina Alice Pamplona, 5, morreu com um tiro no pescoço quando comemorava a chegada do Ano-Novo com a família, no terraço da casa da prima.

Não são raras as aparições da favela no noticiário policial: segundo dados da plataforma Fogo Cruzado, o morro do Turano contabilizava 41 tiroteios neste ano até novembro, média de quase quatro por mês. Entre as comunidades com presença de UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), é a quinta com mais registros.

Para Carla, o que explica a repercussão da foto é o contraponto que ela oferece à imagem de pobreza e violência que o imaginário social atribui às favelas como marcas exclusivas. A cena da alegria infantil em meio à brincadeira na chuva é algo que, segundo ela, é pouco conhecida fora da comunidade.

"Quando um registro assim aparece, contradizendo o pensamento que as pessoas de fora têm da favela, é chocante", afirma. "Naquela foto, as pessoas conseguem ver que temos nossas dificuldades, nossas lutas diárias, mas mesmo dentro da necessidade, da violência, da escassez, também conseguimos ser felizes."

Ela própria, aliás, foi uma criança como aquelas que retratou no morro em que cresceu. "Quando chovia e faltava luz, era certo alguém me chamar aqui", diz. "A gente brincava de pique-esconde, pique-pega, guerrinha de balão de água. Se eu estivesse com tempo naquela sexta-feira, com certeza estaria brincando com eles também", afirma.

Na hora do temporal, a vendedora de salgados Joice Silva, 38, soube que o filho Rhuan Carlos, 6, estava na chuva. Preocupada, conta que deu uma bronca no menino quando ele apareceu em casa.

Mais tarde, um dos vizinhos veio até ela e mostrou a foto que já viralizava na internet. "Eu tomei um susto, mas depois me lembrei da minha infância. Quem nunca brincou na chuva?"

Com a repercussão da imagem, Carla diz que gostaria de inspirar mais pessoas da favela a divulgar seus trabalhos. "A favela tem pessoas de muito talento. É importante que não fique só no olhar. É olhar e fazer. Aqui tem pessoas capazes de fazer melhor que eu. Quero que portas sejam abertas para as comunidades, não somente para o Turano", diz.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos