De tapioca a aluguel de carros: relembre polêmicas envolvendo o uso de cartões corporativos do governo federal

Com a queda do sigilo sobre os dados do Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF), conhecido popularmente como cartão corporativo, foram revelados gastos da gestão Bolsonaro. Os dados mostram R$ 27,6 milhões em despesas, incluindo itens para decorações de festas, doces e com animais de estimação.

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Cartão corporativo: Bolsonaro gastou com pet shop, doces e decoração de festa

As informações disponibilizadas no site da Secretaria-Geral da Presidência da República trouxeram novamente à tona discussões em torno do uso dos cartões corporativos. O instrumento foi criado em 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, com a intenção de proporcionar agilidade e mais controle no caso de gastos excepcionais e de pequeno valor. Desde então, no entanto, seu uso gera polêmicas no cenário político nacional. Relembre alguns casos:

Tapioca de Orlando Silva

Em 2007, no segundo governo Lula, o então ministro do Esporte, Orlando Silva, usou o cartão corporativo para pagar uma tapioca. Na ocasião, Silva disse que se enganou ao usar o cartão e que logo devolveu o valor de R$ 8,30, referente ao gasto. Ele afirmou também que decidiu devolver à União o valor total dos gastos que fez com cartão corporativo — R$ 34.378,37, referentes a gastos entre 2006 e 2007. Segundo o ministro, o dinheiro foi retirado da própria poupança e pago em três parcelas.

Em fevereiro de 2008, durante a CPI dos Cartões Corporativos Orlando Silva negou que tenha usado os cartões de pagamento do governo para despesas pessoais. Silva disse que seus gastos apontados como "irregulares" foram realizados em compromissos oficiais do ministério.

Além da compra da tapioca, o ministro foi acusado de gastar R$ 20.112, com o cartão para pagamento de diárias e alimentação. Silva teria usado o cartão corporativo para pagar diárias em um hotel quatro estrelas em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde esteve hospedado em um final de semana na companhia da mulher, da filha e de uma babá. O ministro admitiu na CPI que se hospedou no hotel na companhia da família, mas negou que estivesse de folga no período. Segundo Silva, a presença de sua mulher foi necessária para seguir o protocolo da agenda oficial que cumpriu no Rio de Janeiro.

Ministra cai após gastos abusivos

No ano seguinte, Matilde Ribeiro entregou ao presidente Lula sua carta de demissão do cargo de ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial após ser pressionada pelo governo devido a abusos cometidos com o uso do cartão corporativo. Em entrevista, ela admitiu ter cometido um "erro administrativo" e leu uma carta em que debita a dois ordenadores de despesa da secretaria parte do erro pelo mau uso do dinheiro público.

Em 2007, ela fez cem pagamentos a locadoras de automóveis, média de dois a cada semana, segundo dados do Portal da Transparência. A despesa de Matilde com veículos foi de R$118 mil, o que representa 69% do total de seu gasto. Daria para comprar até dois carros executivos, modelo usado pela ministra em viagens, segundo sua assessoria.

Matilde também usou o cartão para fazer compras em um freeshop no valor de R$461. E também para pagar contas em resorts e bares no Rio, totalizando gastos de mais de R$171 mil em 2007.

Gastos durante o Carnaval

Sem agenda oficial nos dias 20 e 21 de fevereiro de 2007 no Rio de Janeiro, terça-feira de Carnaval e Quarta-Feira de Cinzas, o ministro Altemir Gregolin, da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, debitou na conta de seu cartão corporativo gastos de R$120 na churrascaria Porcão, R$45 no restaurante Demoiselle, R$57,90 no Hers Bar e R$545 no Hotel Glória.

O ministro afirmou, na ocasião, que que teve agenda oficial com o ministro da Pesca da Noruega, Sven Ulriksen, que o convidou para o camarote dos exportadores de bacalhau para o Brasil, patrocinadores do enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense : "Brasil e Noruega : unidos pelo bacalhau". O desfile e o encontro com o norueguês se encerraram no dia 19 e a agenda oficial divulgada por Gregolin registrava o evento até o dia 20. As despesas na churrascaria, bar, restaurante e hotel foram registradas dia 21. Na época, a assessoria do ministro disse que ele usou o cartão no dia 19, data do compromisso com o norueguês. E que só foi debitado dia 21, quando os bancos abriram.