Tarcísio conta com Alckmin, Haddad e Kassab para se aproximar de Lula

Para além dos acenos dados ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o novo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem em seu entorno pessoas que serão ativos para uma eventual aproximação com a gestão do petista. De modo geral, os quadros do PSD de Gilberto Kassab têm boa relação e interesse em estreitar laços com o governo federal.

Novo governador de São Paulo: Tarcísio promete 'entendimento' com Lula

Mapa da apuração: Veja como foi a eleição para o governo de São Paulo nos municípios

A sintonia entre os dois mandatários é vista como delicada, uma vez que o fiador político de Tarcísio, o presidente Jair Bolsonaro (PL), considera Lula como um inimigo intratável. A ojeriza ao Partido dos Trabalhadores repercute em boa parte do bolsonarismo e pode dificultar a relação do novo governador paulista com sua própria base. Ao longo da campanha, Tarcísio foi alvo de críticas do entorno de Bolsonaro quando tentou se afastar da imagem radical do presidente.

Tarcísio, porém, é tido no meio político como um pragmático. Não se questiona a proximidade dele de Bolsonaro, mas é dado como certo que, em nome da realização de um governo exitoso, ele buscará construir pontes.

Apesar de ter se filiado ao Republicanos para disputar a eleição, chegou a alijar o partido das decisões políticas sobre a campanha, por exemplo, no primeiro turno. No rol de aliados, a sigla de Kassab tem mais peso.

Entre os ativos que podem ajudar Tarcísio no diálogo com o governo federal,estão o próprio Kassab, que foi ministro de Dilma Rousseff e se manteve neutro na eleição presidencial, além de Guilherme Afif Domingos (PSD), que foi coordenador do plano de governo do bolsonarista. Embora seja próximo a Paulo Guedes, Afif foi também vice-governador de Geraldo Alckmin entre 2011 e 2014, e ministro de Dilma Rousseff (PT).

Dia seguinte: Bolsonaro chega ao Palácio do Planalto e permanece em silêncio sobre vitória de Lula nas eleições

Embora Afif tenha hoje em dia pouco contato com Alckmin, não existe inimizade entre os dois, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Afif é tido como nome certo no secretariado de Tarcísio e foi escalado pelo governador eleito para coordenar a transição de governo.

Aliados de Tarcísio dizem que toda decisão de diálogo só vai se dar de fato após o dia 16 de novembro, quando o governador eleito volta de uma viagem de férias com a família aos Estados Unidos. Nesse intervalo, é possível que ocorra o encontro de Lula com governadores.

O vice de Tarcísio, Felicio Ramuth (PSD), é outro ativo, visto que o ex-prefeito de São José dos Campos passou 28 anos no PSDB e politicamente era próximo de Alckmin. Quando o ex-governador decidiu deixar o PSDB e chegou a negociar a transferência para o PSD para disputar o governo de São Paulo pela sigla de Kassab, Felicio participou das conversas. Alckmin, como é sabido, escolheu filiar-se ao PSB no processo de aproximação de Lula.

Ramuth se aproximou do então governador Geraldo Alckmin enquanto esteve à frente da Prefeitura de São José dos Campos, de 2017 a 2022. Alckmin deixou o cargo em abril de 2018 para disputar a Presidência da República, mas manteve contato com Ramuth desde então.

Mapa da apuração: veja o resultado final das eleições 2022 em todo o Brasil

Na noite do domingo, Ramuth e Alckmin trocaram mensagens calorosas, "um pouco além do protocolar", nas palavras do vice-governador eleito. A relação dos vices deve servir de ponte para o entendimento que deve ser construído a partir de agora entre seus parceiros de chapa.

Do lado petista, o candidato derrotado ao governo paulista, Fernando Haddad (PT), telefonou ao adversário lhe cumprimentando pela vitória e "se colocando à disposição" para ajudar São Paulo.

A mensagem foi lida por aliados de Tarcísio como uma demonstração de boa vontade para fazer pontes entre as duas administrações. Os bolsonaristas, afinal, esperam que Haddad ocupe até um cargo de ministro em 2023.

— O Haddad se colocou à disposição para abrir os canais de comunicação com o governo Lula. Provavelmente ele terá um papel importante (na Esplanada) — diz Ramuth.

Pragmatismo de Kassab

O ex-prefeito Gilberto Kassab é tido como peça-chave do futuro governo de Tarcísio. Seu partido se aliou a Tarcísio ainda na pré-campanha, pacto que levou Ramuth à vaga de vice, e o ex-prefeito embarcou com afinco na candidatura. Embora tenha embarcado no projeto bolsonarista em São Paulo, manteve-se neutro na disputa presidencial.

A expectativa do entorno de Tarcísio é que agora, eleito, Lula procure tanto o PSD quanto o União Brasil, que ficaram neutros na disputa presidencial, para ampliar sua base no Congresso a partir do ano que vem.

Nikolas Ferreira, Zambelli e Ricardo Salles: veja reação de tropa de choque bolsonarista após vitória de Lula

Tarcísio declarava ao longo da campanha que esperava parceria com o governo federal, com Bolsonaro reeleito, para tocar obras e investimentos em infraestrutura e habitação em São Paulo. Nas vezes em que foi questionado sobre a possibilidade de o presidente no cargo ser Lula, o então candidato não demonstrou ver problemas em recorrer aos petistas.

— Eu entendo que (os planos) não (mudariam), porque o seguinte: moradia também é uma pauta do outro candidato (Lula), também é uma prioridade. Eu tenho certeza que ele vai olhar também pela população de São Paulo — disse Tarcísio.

Ele é crítico frequente dos embates promovidos entre o ex-governador João Doria (PSDB) e Bolsonaro, principalmente em relação à compra e distribuição de vacinas contra a covid-19 na pandemia — embora poupe o aliado dos comentários. As declarações eram dadas em geral como defesa de que as gestões estadual e federal precisam de um mínimo de alinhamento, o que não houve com Doria no Palácio dos Bandeirantes. Por outro lado, foi Bolsonaro quem diversas vezes atacou o tucano e lhe concedeu apelidos depreciativos.

Governo de transição

Após a vitória, Tarcísio se negou a revelar nomes de seu futuro gabinete. A equipe deve usar esta semana para repouso e retomar as reuniões a partir da seguinte. Mas algumas expectativas já estão postas.

Ramuth deve ocupar alguma secretaria a pedido do próprio Tarcísio, embora diga não saber qual pasta deve receber. Outros nomes são cotados, como o ex-deputado Eleuses Paiva para a Saúde, Maurren Maggi para o Esporte, Rosana Valle na Secretaria de Mulheres e Rafael Benini com a Infraestrutura.

Apesar de contar com o apoio do PSDB, MDB e outros partidos que também estavam no governo tucano nos últimos anos, Tarcísio tem defendido uma renovação completa dos quadros, ainda que não negue a presença desses partidos no secretariado. O União Brasil, por exemplo, tem a pretensão de manter a influência sobre a indicação para a pasta dos Transportes.