Tarcísio deve desculpas ao estado de São Paulo, diz advogado que pede investigação do candidato

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 26.09.2022 - O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 26.09.2022 - O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, afirma que o ex-ministro Tarcísio de Freiras (Republicanos), candidato ao Bandeirantes, "deve desculpas ao estado de São Paulo", após suspeitas envolvendo a visita dele a Paraisópolis, na capital paulista.

O Prerrogativas apresentou na quarta (26) uma notícia-crime ao Ministério Público de São Paulo pedindo investigação sobre a ordem de um integrante da equipe do candidato bolsonarista a um cinegrafista da Jovem Pan para que apagasse as imagens do tiroteio que interrompeu a visita do político à favela de Paraisópolis. Para os advogados, há indícios da prática de crime de obstrução da Justiça.

O grupo também vai divulgar uma nota nesta quinta-feira (27) em que diz que o episódio expõe "a deterioração irreversível da candidatura do ex-ministro bolsonarista".

E segue: "Trata-se de uma conduta sombria e mafiosa, adotada deliberadamente pela campanha de Tarcísio de Freitas, em conluio com a Joven Pan e com servidores públicos da Abin [Agência Brasileira de Inteilgência], que estão à disposição de sua segurança. São ocorrências deploráveis que não podem ser ignoradas de modo algum pelo eleitorado paulista".

Para Marco Aurélio de Carvalho, "nunca houve no estado uma eleição tão conturbada, tão violenta e tão cheia de mistérios". "Tarcísio será muito bem-vindo caso decida morar em SP, mas o ato de se candidatar por um estado com o qual não tem vínculo afetivo, social, cultural é uma verdadeira ousadia", afirma ainda o advogado.

O Prerrogativas também entrou com uma representação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo providências para que seja apurada a disseminação "consciente e voluntária" pelas campanhas de Tarcísio e do presidente Jair Bolsonaro (PL) da informação de que o tiroteio tinha sido um atentado.

Tarcísio estava na sede de um projeto social que inaugurou um polo universitário na favela quando um tiroteio entre policiais e suspeitos terminou com uma morte, no último dia 17.

O profissional da Jovem Pan, que pediu para não ser identificado, fazia imagens da campanha do postulante ao Governo de São Paulo. Ele e outros profissionais de imprensa foram levados em uma van da campanha a um prédio na zona sul usado pela equipe de Tarcísio.

No local, segundo áudio obtido pela Folha, houve perguntas ao profissional sobre o que ele havia filmado e a ordem para que ele apagasse as imagens. "Você filmou os policiais atirando?", questiona um integrante da campanha. "Não, trocando tiro efetivamente, não. Tenho tiro da PM pra cima dos caras", responde o cinegrafista.

O membro da campanha ainda pergunta se ele havia filmado as pessoas que estavam no local onde o evento com Tarcísio foi realizado. "Você tem que apagar", diz o segurança.

A Folha de S.Paulo apurou, no entanto, que as imagens já tinham sido enviadas à Jovem Pan. No momento logo após o tiroteio, a emissora passou a exibir imagens do local do tiroteio, da ação da polícia e da retirada às pressas da equipe de Tarcísio.

Procurada e informada sobre o teor da reportagem, a emissora se manifestou por meio de nota.

"A Jovem Pan exibiu todas as imagens feitas durante o tiroteio. O trabalho do cinegrafista permitiu que a emissora fosse a primeira a noticiar o ocorrido no local. Não houve contato da campanha do candidato Tarcísio com a direção da emissora com o intuito de restringir a exibição das imagens e, por consequência, o trabalho jornalístico."

A Folha de S.Paulo enviou a transcrição do áudio obtido à assessoria de Tarcísio e questionou se a ordem do integrante da campanha não consistiria em apagar uma prova do caso, que ainda está sob investigação pela Polícia Civil do estado de São Paulo.

Em resposta, a equipe do candidato disse que "um integrante da equipe perguntou ao cinegrafista se ele havia filmado aqueles que estavam no local e se seria possível não enviar essa parte para não expor quem estava lá".

A assessoria ainda disse que, durante a agenda, diversos veículos fizeram imagens da situação e as colocaram no ar. "Nunca houve nenhum impedimento por parte da campanha em relação a isso. Qualquer afirmação que questione isso é uma mentira", continuou a nota.

O caso foi utilizado politicamente pelo presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), no horário eleitoral veiculado no mesmo dia do episódio. "O candidato a governador de São Paulo Tarcísio de Freitas e sua equipe foram atacados por criminosos em Paraisópolis", afirma o locutor da propaganda.

Tarcísio, logo após o ocorrido, postou no Twitter que sua campanha havia sido "atacada por criminosos". Depois, disse que o caso foi um ato de intimidação sem relação com política, mas com questão territorial.

Leia, abaixo, a íntegra da nota do Prerrogativas:

"O grupo Prerrogativas, composto por juristas, docentes e profissionais do Direito, a par do conteúdo da entrevista concedida pelo repórter-cinematográfico Marcos Andrade, demissionário da Rádio Jovem Pan, após ser pressionado por um integrante da campanha de Tarcísio de Freitas a apagar imagens que fizera de um tiroteio em Paraisópolis durante visita do candidato àquela comunidade no dia 17, vem expressar o seu posicionamento, denunciando a suma gravidade dos fatos, que expõem a deterioração irreversível da candidatura do ex-ministro bolsonarista ao governo do estado de São Paulo.

O que se colhe da referida entrevista é uma aterradora e crucial narrativa feita por um profissional de imprensa íntegro e corajoso, cujo relato escancara, de um lado, assustadoras evidências de manipulação dolosa para fazer supor ter havido um fantasioso atentado contra o candidato, e de outro, ainda piores indícios de participação ativa de integrantes da campanha e de servidores públicos a ela ligados, para engendrar a ocorrência do episódio propriamente dito, o que, se comprovado, assume um deletério caráter criminoso e não apenas aniquila a credibilidade eleitoral de Tarcísio, como também o implica na perpetração de atos premeditados de simulação de confronto que deram margem à morte de uma pessoa.

O assédio ilícito sofrido pelo cinegrafista tinha o objetivo (consentido pela campanha e provavelmente pelo próprio candidato) de ocultar o envolvimento no tiroteio de indivíduos à paisana e de membros da equipe de campanha. Assim se pretendeu conscientemente obstruir a elucidação dos fatos, intento frustrado devido à atitude firme e honesta de Marcos Andrade. A apuração plena dos acontecimentos já havia motivado a apresentação de notícia-crime pelo grupo Prerrogativas ao Ministério Público paulista. Mas diante dos termos expostos pelo repórter, que incluem pedido da campanha de Tarcísio para que Marcos Andrade fosse despedido pela Jovem Pan, o que teria sido acatado pela empresa jornalística, salvo se ele aceitasse gravar um vídeo em apoio ao candidato, a história ganha contornos ainda mais tenebrosos.

Trata-se de uma conduta sombria e mafiosa, adotada deliberadamente pela campanha de Tarcísio de Freitas, em conluio com a Joven Pan e com servidores públicos da Abin que estão à disposição de sua segurança. São ocorrências deploráveis que não pode ser ignoradas de modo algum pelo eleitorado paulista, prestes a tomar uma decisão relevante sobre os rumos da administração do estado nos próximos quatro anos. Levando-se em conta as conclusões trazidas pelo episódio de Paraisópolis, a eleição de Tarcísio de Freitas representaria a degradação completa do governo de São Paulo, entregue às práticas criminosas e milicianas do bolsonarismo, que já se fazem evidentes desde a campanha eleitoral."