Tarcísio promete acabar com cracolândia em SP, mas falta de detalhes gera apreensão de violência

No domingo de eleição, depois do fim da apuração do segundo turno, houve correria e tiros de balas de borracha na cracolândia no Centro de São Paulo. A operação no fim do dia de ida às urnas foi simbólica para ONGs, assistentes sociais e agentes de saúde: eles receiam uma nova escalada da violência diante do aumento de ações de segurança e da promessa do governador eleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) de acabar com a cracolândia.

A assessoria de imprensa de Tarcísio informou que a solução passa pela adoção de “políticas públicas integradas”, principalmente envolvendo “acolhimento, tratamento” e “criação de oportunidades”.

“A máxima defendida pelo futuro governo de Tarcísio é a de que as pessoas não vão para a rua porque consomem drogas, e sim consomem drogas porque estão na rua. Será elaborada uma política de habitação proativa para retirar as pessoas dessa situação”, informou a assessoria, acrescentando que está previsto o reforço de ações em parceria com a polícia e a Guarda Civil Metropolitana.

A equipe do governador eleito cita também o plano de levar o núcleo administrativo do governo estadual ao Campos Elíseos, para revitalizar a região, atrair trabalhadores e o comércio.

Para alguns movimentos sociais que trabalham com usuários do crack, porém, a consequência seria uma região mais militarizada.

— É uma ideia controversa, que não resolve, só espalha (a cracolândia) — diz Talita Gonsales, pesquisadora do Laboratório de Justiça Territorial da Universidade Federal do ABC .

Em 2017, no governo de João Doria, que também havia se comprometido com o fim da cracolândia, uma megaoperação reabriu ruas fechadas por barracas de vendas de droga e a concentração de usuários diminuiu. Mas a cracolândia não acabou — ficou dispersa pelas redondezas.

Paisagem mudou na praça

Quem anda hoje pela “Praça do Cachimbo” vê uma paisagem muito diferente da região antes conhecida pelo consumo e comércio de drogas em espaços públicos. A Alameda Cleveland ganhou uma nova camada de asfalto, uma quadra de basquete e uma minipista de skate, projeto que se tornou motivo de orgulho para o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP). Mas não é preciso caminhar muitos metros para saber que o problema só mudou de endereço. O “fluxo” se espalhou e tem até alguns novos pontos fixos, como no cruzamento da rua Helvétia com a avenida São João, onde a polícia delimitou o espaço onde os usuários devem ficar.

O servidor público Paulo Eduardo Bernardes Augusto, de 56 anos, mora no Centro desde 1995, mas afirma que nunca viu uma situação como a de agora:

— Antes (o fluxo) ficava concentrado ali na região da praça Princesa Isabel. Agora se espalhou. Tem por todo canto — disse Augusto, que discorda da forma como o problema é combatido. — É uma questão social. São pessoas que precisam de tratamento, não de tiro da polícia ou mudança da sede do Palácio, que só vai varrer os dependentes químicos e falar que o Centro tá bonito. E a saúde, onde fica?

Com a deflagração da Operação Caronte, no ano passado, novas prisões de traficantes foram feitas, e a venda e o consumo de drogas foram coibidos. Mas, novamente, os usuários se dispersaram.

Em paralelo, movimentos sociais e ONGs relatam hostilidade e abusos da Guarda Civil e da polícia. Um dos pontos de polêmica vem da parceria entre governo do estado e prefeitura, em uma nova fase da Caronte, que prevê que os policiais abordem usuários e os enviem a unidades de saúde.

— Vemos policiais pegando de 30 a 40 pessoas de uma vez e levando para a delegacia. Essas pessoas ficam horas esperando, sem ter o que comer. São obrigadas a ficar lá até serem enviadas ao atendimento dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Há usuários que chegam no CAPS algemados. Não há base legal para isso — critica a antropóloga Amanda Amparo, doutoranda pela USP que pesquisa a cracolândia desde 2014.

Segundo o governo paulista, desde o início da Caronte, 555 usuários foram conduzidos à delegacia por uso de drogas e “encaminhados aos órgãos de assistência social e saúde, ou liberados, conforme decisão própria”. O secretário-executivo de Assuntos Estratégicos da prefeitura, Alexis Vargas, diz que a abordagem policial e o encaminhamento a serviços de saúde é parte de uma nova fase da Caronte, que foca em coibir o consumo de drogas nas ruas.

— Essas pessoas não são presas. Elas são conduzidas à delegacia, se segue um rito processual, e, no caso daquelas em que se observa um prejuízo das faculdades mentais, há um encaminhamento às unidades de saúde — diz Vargas. — A polícia não está substituindo serviços. Ela faz o trabalho dela, de inteligência e segurança, e encaminha os usuários para as unidades de saúde. É natural. Só não foi possível fazer antes porque a concentração em um mesmo lugar era muito grande.

O GLOBO conversou reservadamente com profissionais que atuam nos CAPS. Eles relataram que a taxa de aceitação do tratamento costuma ser maior quando o usuário é abordado pela equipe de saúde do que pelos agentes de segurança.

— A massa da população é usuária. Quando se faz uma operação e se colocam as pessoas em condição de crime, a intenção não é combater o tráfico, mas combater essas pessoas. Essa é a grande preocupação. Qual vai ser o limite com o novo governo, que tem prometido mais violência e não apresentou até agora um plano de cuidado e atenção? — questiona a antropóloga Amanda Amparo.

Relatos de hostilidade

Ao mesmo tempo, a ação policial mais ostensiva tem gerado relatos de hostilidade a agentes de saúde, assistentes sociais, advogados e defensores públicos que prestam atendimento na delegacia aos detidos na Operação Caronte. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil apura denúncias de possíveis conflitos entre agentes e usuários de drogas.

— Há trabalhadores da região sendo ameaçados de morte. Assistentes sociais e de saúde com medo de trabalhar. Temos tomado cuidado de não sair uniformizados sozinhos. O receio é que isso se torne mais comum — conta Maria Angélica Comis, do Centro de Convivência É de Lei, que atua na redução de riscos e danos associados à política de drogas.