Tarifa dos ônibus aumenta no Rio, e passageiros reclamam de estado de conservação dos veículos

O passageiro que precisar se deslocar de ônibus no município do Rio terá que desembolsar R$ 4,30 a partir da meia noite deste sábado, quando o reajuste de 25 centavos passou a valer. No entanto, quem usa diariamente os coletivos para ir ao trabalho, relata uma rotina de problemas a bordo deles, com bancos soltos, ar condicionado desligado e até infestação de baratas.

— Olha só esse ônibus todo "cacarecado": tem muita sujeira, os bancos estão soltos, o ar nunca funciona — reclamou a recepcionista Ariane Guimarães, enquanto esperava pelo ônibus da linha 397 (Candelária x Campo Grande), parado no ponto final, na Avenida Presidente Vargas.

As janelas abertas, apesar do aparelho de refrigeração instalado, contrastavam com o banco instalado na vaga destinada às pessoas com deficiência, que tinha apenas metade acolchoada, ainda assim com rasgos, enquanto a parte destinada ao apoio das costas do passageiro estava com o ferro exposto.

— Moro em Irajá e trabalho em Copacabana, então, durante a semana, ando de 483 (Ipanema x Penha) e é do mesmo jeito ou até pior — completa Ariane, enquanto, do outro lado da rua, um ônibus da mesma empresa — a transportes Campo Grande, integrante do Consórcio Santa Cruz, estava enguiçado.

Do outro lado das pistas, em frente ao camelódromo da Uruguaiana, a linha a apresentar problemas era a 328 (Candelária x Bananal), da Viação Paranapuan, integrante do Consórcio Internorte. Um dos veículos tinha a fiação atrás do volante à mostra e a lanterna quebrada; enquanto o estacionado na vaga de trás tinha seus letreiros auxiliares, que estavam apagados, substituídos por uma fita adesiva verde: colada ao vidro do para-brisa, trincado de cima abaixo, informava o número "328".

Se por fora são nítidas as condições precárias, quem é passageiro relata que, dentro dos coletivos da cidade, é "só perrengue":

— O ar não funciona, então só viajamos de janelas abertas. Quando tem (refrigeração), pinga na gente que está sentado, além de os ônibus estarem infestados de baratas. Fico enojada, revoltada — conta a operadora de caixa Adriana Firmo, passageira do 343 (Candelária x Jardim Oceânico), que reclama do aumento da tarifa:

— A gente paga nossos impostos, e nem deixa de pagar passagem porque o ônibus está com qualquer problema. Então, na realidade, a gente não tem o que merece.

Um acordo entre a prefeitura e os empresários de ônibus faz com que o município arque com a diferença entre a passagem paga pelo passageiro, agora de R$ 4,30, e o "preço real", de R$ 6,20:

— O que a prefeitura está fazendo é pagando 2 reais para a população. Então é normal que reajustes aconteçam, a gente vai fazer isso com muito equilíbrio, mas você teve um aumento absurdo do diesel e, repare, isso não vai para o empresário — explicou o prefeito em evento na manhã desta sexta-feira, na Barra da Tijuca.

Ele também explicou que o município conta com os sensores de ar condicionado, para pode manter a fiscalização sobre o funcionamento. Na prática, os consórcios Intersul, internorte, Santa Cruz e Transcarioca terão até 31 de julho deste ano para instalarem monitores de temperatura nos coletivos, para que os empresários sejam punidos com redução do subsídio citado por Paes, em caso de irregularidade no funcionamento do aparelho.

— O que a gente está colocando é uma inovação: um sistema de monitoramento eletrônico, em que é como se tivesse um fiscal dentro de cada ônibus, em cada viagem, então a gente vai ter o poder de monitoramento bem maior. Hoje (o poder de fiscalização) é limitado, com 50 fiscais pra toda a cidade. É uma inovação tecnológica para a cidade, que vai trazer muito mais qualidade ao serviço — afirmou a secretária municipal de Transportes, Maina Celidonio.

Em decreto publicado na terça-feira, ficou estabelecido que a nova tarifa, de R$ 4,30, valeria para os ônibus comuns, mas também para o VLT, transporte complementar (SPTL e cabritinhos), além do BRT.

O sistema de ônibus articulados recebeu nesta sexta-feira 40 novos ônibus, que circularão no trecho do chamado "Lote 0", entre Terminal Alvorada e o Jardim Oceânico. Os veículos se somam a outros 36 veículos novos, que estão em circulação no corredor Transolímpico.

No entanto, quem depende dos corredores Transcarioca e Transoeste, ainda não atendidos pelos novos coletivos, reclama:

— O serviço é péssimo. A manutenção é péssima, a porta vem aberta até em dias de chuva, é superlotado — reclama Quezia Rosa, moradora de Santa Cruz que leva, diariamente, três horas para chegar ao trabalho, em Botafogo. — Pego o BRT desde o início e, com o tempo, vejo que tinha mais conforto. Hoje as viagens demoram mais. Consumo dizer que tudo de pior está nos ônibus para Santa Cruz — completou.

Já a supervisora Adriana Correia precisa do serviço de ônibus para ir à Barra da Tijuca três vezes na semana, mas enfrenta calor nos articulados, que tem aparelho de ar condicionado e janelas que não abrem:

— Tá horrível, o ar não funciona, é sempre quente — disse.

Paulo Valente, porta-voz do Rio Ônibus — sindicato que representa as empresas de ônibus cariocas — justifica que no "período de crise financeira" a idade média da frota aumentou de três para sete anos. Além disso, afirma que "o Rio Ônibus está em diálogos permanentes com a Prefeitura para a recuperação do sistema e maior eficiência na oferta de viagens".

Já a Secretaria municipal de Transportes (SMTR), por meio de nota, informa que "ações de fiscalizações para verificar o estado de conservação dos ônibus fazem parte da rotina diária" da pasta, que multou 3,5 mil multas por mau estado de conservação dos veículos no último ano. Além disso, a SMTR explica que, em casos de irregularidade, os consórcios responsáveis são autuados e os ônibus podem ser lacrados. Por fim, a secretaria oferece um canal para denúncias de passageiros, o telefone 1746, "possibilitando soluções mais ágeis e inclusão nas estatísticas da Prefeitura para fins de planejamento".

A MOBI-Rio, operadora do BRT, por sua vez, explica que "nenhum veículo sai das garagens de portas abertas" e que os "ônibus constantemente sofrem ações de vândalos, que destroem os mecanismos das portas". A empresa também informa que, "o serviço no sistema como um todo está sendo requalificado", com a chegada de novos ônibus que contam com mecanismos de portas reforçados, e que os ônibus antigos estão sendo remanejados para outras linhas, para melhora nos intervalos