Tatuadoras comandam estúdio só para mulheres no Rio

Candida Sastre

Existe um lugar em que a tattoo faz jus à condição de substantivo feminino: chama-se Casa Xottta, com três “Ts”, em alusão às consoantes da palavra inglesa. No estúdio, localizado na Rua Frei Caneca, no Centro, sete mulheres impulsionam a sororidade e a liberdade criando desenhos à flor da pele.

Fundado pela cenógrafa Lis Mainá Pincelli, a Tatudona, o espaço logo diz a que veio. Nas salas de atendimento, grafites de vulvas e úteros estilizados mostram que o feminismo tem, sim, voz e traço no local. “Procuramos desmarginalizar o desenho da vagina. Ainda veem nosso corpo como uma coisa proibida”, analisa Lis. Para quebrar preconceitos estruturais, a casa promove eventos como o Festival de Mulheres Tatuadoras, que está na quinta edição.

Além de Lis, as artistas residentes são Gabriela Serrano, Fabiana Mimura, Barbara Soterio, Lolly, Clarice Osório e Luana Xavier. Há 13 anos no mercado, Luana é a mais experiente. “Em outros estúdios em que trabalhei, já me pediram para usar mais maquiagem e ser mais feminina. Fora isso, ouvi comentários grosseiros tanto dos outros tatuadores quanto dos clientes”, diz Luana, que celebra a liberdade artística do local. “Estamos juntas compartilhando o espaço e somos nós que cuidamos de tudo, do marketing à limpeza. Na Casa Xottta, o próprio nome acaba fazendo um filtro natural, pois os homens que vêm aqui são mais abertos.”

O assédio também é abordado — e decodificado — no local. Uma cartilha chamada “Minha Tatu, Minhas Regras”, com direcionamentos para um procedimento de tatuagem seguro, é distribuído pelas meninas. O manual foi feito em Belo Horizonte após uma série de denúncias de abuso sexual cometido por um tatuador da capital mineira.

A bióloga e tradutora Martina Davison, de 24 anos, coleciona dez desenhos feitos na Casa Xottta. “Tatuagens feministas são importantes para incentivar o empreendedorismo feminino. Além disso, no processo, me senti à vontade e compreendida”, diz Martina. “Tenho um desenho no ombro que é uma leitura do poema ‘Coma arroz, tenha fé nas mulheres’, de Fran Winant, feita pela Tatudona. Não teria o mesmo sifnificado caso tivesse feito em outro estúdio.”

A funcionária pública Maria do Carmo Sampaio, de 60 anos, começou a frequentar o estúdio há pouco tempo. “Sempre quis fazer uma tatuagem. Porém, a minha juventude foi alienada pela ditadura militar”, lembra. Mas o tempo passou e, graças à influência dos filhos, ela decidiu correr atrás do prejuízo. “Quero acompanhar o mundo. Descobri que eu tinha muitos pensamentos machistas e, nesse aprendizado, resolvi me tatuar, fiz um punho cerrado com o símbolo do feminismo e espadas de São Jorge”, emenda ela, que fez questão de escolher uma mulher para atendê-la. “O mundo da tatuagem é muito machista, temos que lembrar que as mulheres vão brilhar na profissão que elas quiserem.”

Aberto há um ano, o estúdio também recebe eventos e cursos de arteterapia e música. Além disso, duas psicólogas fazem atendimento a “preço social”. Em breve, haverá também aulas de herbolaria (estudo das plantas medicinais e suas aplicações na cura das doenças) e de cosmética natural. Tudo ministrado por mulheres, claro.