Ela decidiu fazer um TCC voltado à estudar a relação 'patroa-doméstica'

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“Maria, passe as blusas do Julio que separei para você passar. Passa direito tá, com amor, não é como sua cara não. Arruma a casa direito, vou receber visita. Não come nada da geladeira. Não te pago para você comer nada.”

‘Marias’ como a de cima recebem bilhetes assim diariamente e, em nome do emprego de doméstica, aturaram episódios de humilhação.

Foram 'Marias’ como a de cima que motivaram a estudante de Ciências Políticas da UnB (Universidade de Brasília) Thais Cardoso Pereira a realizar um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) voltado à discussão da relação patroa-doméstica. Mas nenhuma delas a motivou mais do que a própria mãe.

“A minha mãe é empregada doméstica, desde pequena eu via o quão ela se esforçava e era humilhada na profissão para conseguir me manter e dar as oportunidades que ela não pode ter. Ela não pode estudar, então sempre incentivou eu e meu irmão a desbravar esse universo. Eu queria trabalhar com algo que minha mãe conseguisse compreender, que fizesse parte do universo dela”, escreveu Thais, em entrevista exclusiva ao Yahoo! Notícias.

Por meio de entrevistas anônimas, ela coleta os relatos das trabalhadoras e pede para que comecem contando suas histórias de vida, e não somente os episódios de desrespeito.

Confira a entrevista:

- Qual o seu intuito com o trabalho e de que forma você pretende desenvolvê-lo?

Em meu trabalho eu pretendo mostrar que essa disputa de poder é também uma relação politica. Além de destacar que essa estrutura hierárquica entre empregadas domésticas e patrões, é reflexo de uma fundamentação social racista e que domina e dociliza os corpos de empregadas domésticas, possuindo características reverberadas do período escravocrata.

Estou desenvolvendo o trabalho por meio de entrevistas, afim de coletar os relatos das trabalhadoras. Por perceber que o ambiente acadêmico por vezes utiliza minorias somente como números e dados. Eu início a entrevista pedindo para as empregadas me contarem um pouco da história delas, uma vez que elas não são apenas trabalhadoras empregadas, são primeiramente mulheres com toda uma trajetória.

- Qual a importância de discutirmos essa relação 'patroa-doméstica' em um ano como 2019

Discutir essa relação é importante primeiramente para perceber como a reverberação do período escravocrata se faz presente, uma vez que estruturou toda a nossa sociedade. É curioso perceber que ainda que nao estejamos mais no período da escravidão, essa realidade desumana se faz presente ainda nos "novos senhores de engenho" e nas "amas de casa".

Em um contexto politico e social de 2019, as pessoas se sentem confortáveis para diminuir as pessoas, é como se tivesse havido uma validação desse discurso. Diversas pessoas comentaram na postagem que era normal aquilo, que a culta era da empregada doméstica. O que é triste, ja que não conseguimos olhar para o próximo com o mínimo de empatia.

Pelo que venho pesquisando percebo que essa relação somente se maquiou, elas se mantém só que de um novo modo. Ainda que obviamente tenha se tido mudanças significativas com a PEC das domésticas, bem como a articulação dos Sindicatos das empregadas domésticas, nota-se que ainda não é o suficiente para garantir a efetividade dos direitos para as trabalhadoras.

Um ponto que vem vendo bem interessante é como muitas das trabalhadoras domésticas mensalistas estão migrando para serem diaristas, trazendo na visão delas um pouco mais de autonomia mas ao mesmo tempo uma dificuldade na garantia dos direitos.

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- Como você enxerga a evolução (ou involução) dessa relação ao longo dos anos no Brasil?

Durante esse processo, receber o relato das trabalhadoras é difícil, o fato de ser filha de empregada doméstica e explicar para elas o objetivo do meu trabalho, aos poucos elas ficaram mais confortáveis, até porque as entrevistas são anônimas.

Para identificar as trabalhadoras, eu identifiquei todas com nome composto, sendo o primeiro nome Maria, o segundo nome eu pedi para elas escolherem uma palavra que resumia a vida de trabalhadora delas. Tem a Maria do Sofrimento, a Maria Guerreira, a Maria da Esperança, e afins.

- Poderia detalhar, por gentileza, alguns relatos e bilhetes que você tem recebido? Como você tem lidado com eles?

Por vezes são relatos que mexem demais comigo, principalmente por imaginar que minha mãe passa por essa situação diariamente.

Dentre os relatos a questão do assédio sexual está se fazendo muito presente, algumas tiveram que inclusive pedir demissão do trabalho. Elas não poderem comer a comida dos patrões, possuírem um horário para entrar no trabalho, mas não para acabar, já que se surge uma nova demanda elas tem que fazer naquele momento.

Boa parte das entrevistadas começou a trabalhar muito nova, crianças ate, o que nos trás a discussão sobre o trabalho infantil, que se faz muito presente até hoje, principalmente em regiões mais periféricas do país.

- Qual sua percepção durante as entrevistas?

Durante as entrevistas é nítido a surpresa ao perceber que quero saber a história delas, uma vez que elas estão acostumadas com esse apagamento de suas narrativas.

Foi nítido que as trabalhadoras com mais tempo nesta profissão percebem que não são "quase da família" dos patrões, percebem que é só um trabalho e que diversas vezes são humilhadas, mas precisam daquilo e por isso se sujeitam a condições insalubres de trabalho ou desrespeitosas.

A coercitividade dos patrões se apresenta primeiramente na desumanização destas mulheres e mantendo as estruturas hierárquicas para garantir um certo "respeito" e possui até um certo domínio psicológico.

A valorização do estudo para os filhos tbm se faz bastante presente em suas falas e que dói não poder participar das reuniões escolares as vezes, devido a profissão.

No caso de trabalhadoras negras tbm está se percebendo os 3 estereótipos da mulher negra, desde o período escravocrata: preta raivosa; sexualizada e mãe preta.

Uma questão bem interessante tbm que pra mim é um dos pontos chaves é que todas as empregadas (mensalistas) que estou entrevistando não percebem as empregadas diaristas como domésticas.