No país da avacalhação, bastam um cabo e um celular para tirar um presidente do sério

Brazil’s President Jair Bolsonaro speaks during opening of the National Agro Meeting, Brazil August 10, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Vi e revi algumas vezes o vídeo em que o presidente Jair Bolsonaro desce de seu automóvel oficial, em Brasília, para tirar o celular das mãos de um youtuber que o provocava e não consigo pensar em um momento que resuma melhor o esculacho que se transformou o país dos últimos anos para cá.

Antes que alguém me pergunte: não, não acho que tudo isso tenha começado no governo do ex-capitão.

Bolsonaro é antes a consequência do que a causa de um estado avançado de idiotia que passa, mas não começa nem termina, com sua eleição em 2018. Talvez não tenhamos visto sequer o seu apogeu.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

A deterioração de qualquer sinal de vida inteligente ao redor do centro do poder faz com que qualquer cidadão com camisa de time e celular em punho possa se credenciar para fazer perguntas ou provocações a um candidato em campanha –no caso, o próprio presidente.

Quem ralava debaixo de sol e chuva para acompanhar a rotina de autoridades públicas na virada dos anos 2000 e 2010 vai certamente se lembrar de quando passou a dividir microfones com personagens de programas de entretenimento como Pânico e CQC.

Lembro da última coletiva do então presidente Lula após votar no segundo turno de 2010, em uma escola de São Bernardo do Campo (SP). Foi quando do nada surgiram alguns palhaços para interromper aos gritos o pronunciamento para dar ao petista uma pantufa para usar em sua aposentadoria. Foi constrangedor.

Jair Bolsonaro, por uma dessas ironias da vida, fez sua fama em programas de entretenimento do tipo em uma época em que melancias penduradas no pescoço cabeça já não bastavam para chamar atenção. A concorrência era brava. Com uma câmera na mão e nenhuma ideia na cabeça, qualquer um poderia fazer o mesmo.

O jeito, para Bolsonaro, era mostrar as patas de cavalo em programas de auditório e ganhar engajamento atacando minorias e espalhando platitudes sobre problemas reais do país. Foi assim que a atração televisiva ganhou status de “mito”.

Por sorte o Brasil não faz fronteira com a Rússia, como é o caso da Ucrânia, onde um comediante que fazia cosplay de político na TV acreditou e fez um país inteiro acreditar que estava pronto para os desafios deste século e, talvez sem perceber que não estava mais no set nem em um ensaio para revista de moda, resolveu bancar o Rambo e provocar “só” a segunda maior potência militar do Planeta. Deu no que deu.

Bolsonaro não chegou a tanto, embora não deva ter cidadão brasileiro que não tenha rezado baixinho quando ele prometeu economizar saliva para gastar seu arsenal de pólvora contra a MAIOR potência militar mundial.

Fato é que esse amadorismo que mistura ignorância com má fé empoderou uma multidão de aparvalhados que viram no capitão um bom exemplo de sucesso e agora tenta tirar sua casquinha: “se ele esse cara conseguiu chegar até onde chegou, eu também sou capaz de (complete a frase)”.

O raciocínio provavelmente convenceu um cabo da reserva do Exército de que ele estava preparado para emparedar o presidente avesso a entrevistas. Como? Chamando-o de “vagabundo”, “safado”, “covarde” e – o trending topic do dia – "tchutchuca do centrão”.

A audácia, claro, fez a festa da torcida organizadas nas redes sociais que viram o presidente beber do próprio veneno. De quebra, viram também que bastava um cabo, sem a companhia de um soldado, para tirar do sério o “mito” da galera.

Quem gosta de MMA ou entretenimento barato não tinha do que reclamar.

Wilker Leão conseguiu o que queria ao ver o presidente se aproximar para um ensaio de agressão e ser contido pelos seguranças aos gritos.

A campanha mal começou e já tem uma cena como marco. O marco de um tempo de completa avacalhação.