Teatro Casa Grande resiste, e Joia reabre com atividades culturais variadas

·6 min de leitura

RIO — Esta história começa há 55 anos, num galpão abandonado numa rua de terra batida no Leblon. Quatro amigos apaixonados por cultura viram ali a possibilidade de abrir um negócio voltado para a Música Popular Brasileira. Nascia o Café Teatro Casa Grande, palco de shows memoráveis de nomes como Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque e Milton Nascimento. Três anos depois, o café passou a ser apenas teatro: a cozinha deu lugar a um foyer, e as mesas e cadeiras viraram um palco e uma plateia com 604 lugares. E vieram espetáculos inesquecíveis, como “Um gordoidão no país da inflação”, de Jô Soares; e “O mistério de Irma Vap”, com Marco Nanini e Ney Latorraca. Tanta história resiste por esforço da família dos criadores. Na pandemia, três gerações se uniram para não deixar as cortinas se fecharem.

— Sinto um orgulho enorme por ver os meus netos dando continuidade a um trabalho que sempre foi muito batalhado. Lamento que o meu marido não esteja aqui para ver a beleza de família que ele construiu — afirma Vilma Haus, viúva de Max Haus, um dos fundadores.

Eduardo, de 25 anos, e Gabriel, de 22, filhos de Leo Haus; e Arthur, de 21, e Bernard, de 19, filhos de Silvia Haus, ajudaram em tarefas como aferição de temperatura, leitura dos ingressos e checagem de comprovantes de vacinação.

— Vínhamos para o teatro com nosso pai, ajudávamos a atender o telefone. Foi muito bacana ter a colaboração dos nossos filhos e ver a seriedade e a dedicação deles — destaca Silvia.

O ator, diretor, produtor e roteirista Miguel Falabella conheceu grandes sucessos no Casa Grande, como "Louro, alto, solteiro procura", protagonizado e escrito por ele, "Como encher um biquini selvagem", escrito e dirigido por ele, e "Hairspray", que produziu e dirigiu. Destaca que o teatro foi se transformando junto com ele:

— As nossas transformações se deram juntas. É um teatro pelo qual tenho um imenso carinho. Acho importante como resistência da nossa categoria na cidade do Rio de Janeiro. É de extremo conforto, com grande capacidade técnica, que nos permite montar o que quer que seja. Fico muito honrado e orgulhoso de fazer parte desta história.

Com o fim do contrato com a Oi, que se associou ao nome do teatro de 2008 a 2019, o sustento do local se tornou um desafio. Em 2019, o governo do estado, proprietário do terreno onde funciona o Casa Grande, lançou um edital de licitação que previa sua ocupação por atividades não necessariamente culturais. O edital foi suspenso por recomendação do Tribunal de Contas do Estado.

No início deste mês, foi firmado um convênio entre a Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa e os gestores do teatro: Leo, Silvia e Rodrigo Gerheim, filho de outro fundador, Moyses Ajhaenblat. O contrato permite que o lugar seja utilizado por mais dez anos, renováveis por outros dez.

Este ano, a manutenção foi garantida por um aporte de R$ 1,5 milhão da PetroRio, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

— Estamos buscando um patrocinador para o ano que vem, que também entenda a importância da cultura e construa conosco uma nova etapa do teatro. O Casa Grande tem uma enorme relevância cultural e social, para o Rio e para o país. Por tudo o que aconteceu aqui, é dever cívico preservá-lo — diz Leo.

Palco de resistência à ditadura

Resistência sempre foi palavra de ordem do Casa Grande. Durante a ditadura, o teatro foi palco de debates sobre cultura, arte e cidadania e de atos de contestação ao regime autoritário e opressor. Lá foi lançada, em 1984, a campanha à presidência da República de Tancredo Neves,que batizou o local de território livre da democracia. Também foi lá que, em 1985, foi decretado o fim da censura artística, pelo então ministro da Justiça, Fernando Lyra.

Hoje, quem está em cartaz é o humorista Rafael Portugal, em “Eu comigo mesmo”. A peça pode ser vista até o próximo dia 28, às sextas e aos sábados, às 20h; e aos domingos, às 19h, com entradas a R$ 80 (plateia, inteira) e R$ 70 (balcão, inteira).

A temporada do ano que vem começa com o espetáculo “Cura”, da Cia. Deborah Colker, inspirado na busca de Deborah por uma resposta para a epidermólise bolhosa, doença genética que acomete seu neto Theo.

— Esse espetáculo traduz exatamente a expectativa de todos nós. Estamos apostando numa grande retomada e na reaproximação com o público. O Casa Grande foi o local onde os nossos pais se casaram, representa muito em nossas vidas, e faremos o que estiver ao nosso alcance para mantê-lo vivo — resume Leo Haus.

Cine Joia reabre com programação teatral

Era final de agosto, e o diretor de teatro, TV e cinema gaúcho Oscar Zanelli procurava um lugar para dar um curso de interpretação. Chegou a tentar parcerias com estúdios de pilates, mas não foi bem recebido. Em uma de suas buscas, calhou de parar em frente ao Shopping 680, em Copacabana, e dar de cara com uma placa de “Aluga-se”diante do antigo Cine Joia, que suspendeu suas atividades em março do ano passado, no início da pandemia.

— Liguei para o telefone de contato, era da proprietária. Expliquei que estava sozinho, vindo de pandemia. Produtor de teatro está sempre duro. Fechamos o arrendamento por um ano já no primeiro encontro. Não acredito muito em acaso, era para ser. Digo que foi o Cine Joia que me achou — conta Zanelli, morador de Copacabana.

Ele diz que o Joia está “nu”, sem equipamentos de som ou de luz, e que ele tem feito empréstimos com amigos para apresentar a peça infantil “Divertidamente”, em cartaz desde 23 de outubro, aos sábados, às 16h, com ingressos a R$ 20.

— A ideia é atrair o público mesmo. Preciso que as pessoas venham, para eu conseguir pagar o aluguel e melhorar a estrutura do Joia — diz.

Sucessos dos anos 1960, 1970 e 1980

A partir do próximo dia 29, o Cine Joia receberá, às segundas-feiras, às 20h, o musical “The greatest hits”, com o ex-paquito Marcelo Faustini e a banda Cezar Guerreiro. No repertório, sucessos dos anos 1960, 1970 e 1980, de nomes como Elvis Presley e Little Richard. Ingresso a R$ 70 (inteira).

— O Joia é um marco de Copacabana e da cultura do Rio. Fico feliz por participar desta retomada — afirma Faustini.

Oscar Zanelli também pretende abrir espaço para shows de stand up comedy às quartas-feiras. Ano que vem, ele planeja reativar o cinema, inaugurado em 1969 pela família Valansi, dona da Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira. O local, batizado com o nome da matriarca da família, era conhecido pela programação, marcada por filmes independentes e clássicos.

— Eu era muito fã do Cine Joia, lançava todos os filmes da minha produtora Cavideo lá. Era um lugar que abraçava o cinema independente carioca e costumava receber eventos também. Fiquei feliz com a notícia da reabertura — afirma o diretor e produtor de cinema Cavi Borges.

Abrir o espaço para eventos, como lançamentos de livros e palestras empresariais, e para aulas de dança e teatroterapia também são ideias de Zanelli, que é de família circense e domina a arte de fazer malabarismo.

— É muito difícil empreender em cultura num país que não valoriza a cultura. Mas estou acostumado a dar murro em ponta de faca. Quero que as pessoas vejam o Cine Joia como um coworking artístico — diz.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos