Diretora belga Miet Warlop traz alquimia entre absurdo e luto em cena vibrante do Festival de Avignon

© Michiel Devijver / NTGent

"One Song" ("Uma Canção", em inglês), da diretora belga Miet Warlop, nasce de um convite feito à artista pelo NTGent, dirigido por Milo Rau, para contar sua “história do teatro”, um desafio aceito por encenadores como a espanhola Angélica Liddell. Warlop constrói uma cena frenética que conquistou o público de Avignon na sexta-feira (8), quase um pesadelo em technicolor, misturando esporte e música para retomar o fio narrativo de sua carreira, que começou em 2005 com um “réquiem” para seu irmão.

Márcia Bechara, enviada especial a Avignon

O trabalho da encenadora e artista visual Miet Warlop incendiou um dos palcos principais do Festival de Avignon na sexta-feira (8), reunindo alguns dos melhores ingredientes que compõem o menu iconoclasta da cena contemporânea. O espetáculo abandona qualquer utilização clássica do texto, que se torna em “One Song – Histórias do Teatro IV” nada mais do que um ruído, difuso e irônico, que ecoa a partir do megafone de uma “comentarista esportiva” que parece saída de uma “disneylândia” macabra.

Esse mesmo texto que aparece fagocitado e reinventado através de placas de gesso branco, dando uma estranha e frágil concretude a expressões como “If”, “Yes”, “We”, “Why”, “Not”. Placas que são manipuladas por uma “cheerleader” barbada, cujos movimentos executam um balé absurdo, como se compusesse blocos de palavras em um estranho jogo de tabuleiro. Um texto que, inclusive, pode se espatifar no chão e se transformar em pó, dissolvendo a ideia da perenidade da narrativa sobre a cena. O mesmo pó branco utilizado pela performer-ginasta antes de subir no “cavalo” para tocar furiosamente seu violino durante “One Song”, a “canção” interminável de Warlop.

E “jogo” talvez seja justamente a “palavra” que melhor defina a cena bem-humorada da belga Miet Warlop. Em cena, 12 performers se reúnem para ilustrar a potência aumentada da prática esportiva (“resultado supremo do movimento”) e da música (“apogeu de sons e ruídos”). Num tsunami de uniformes esportivos, toalhas, objetos, instrumentos e microfones, eles executam juntos uma longa música intermitente, sob os aplausos efusivos de torcedores enlouquecidos, dispostos sobre uma bancada no palco, verdadeira metáfora de uma miniplateia, que pode alternadamente incentivar ou vaiar os atores.

Catártico

Como uma micro-sociedade, os personagens de “Uma Canção” exibem seus desejos e frustrações, como se repetissem interminavelmente rituais de despedidas e começos. A belga propõe uma celebração, oferecendo um verdadeiro arsenal para viver uma cerimônia que mira a vida, e a morte.

Trata-se de “uma canção em forma de show com o pano de fundo metafórico da competição, que nos convida a formar uma comunidade, unidos e diversos, a nos levantarmos em forma de celebração, a transmitir alegria e emoção através da canção com grande intensidade. Como uma explosão de energia", diz a diretora em entrevista concedida ao Festival de Avignon.

Neste sentido, a artista, cuja dimensão plástica percorre a obra, afirma que seu trabalho "toca no exorcismo" entendido como "a expressão de nossos demônios e nossos medos", dando a “One Song” uma ambição catártica.

Disposto na linha de frente da cenografia, um metrônomo – objeto usado por músicos para marcar o ritmo – parece dar pistas para a plateia dos limites do palco. É a esse objeto que os performers recorrem quando precisam impor limites físicos ao jogo teatral – como quando pedem uma pausa para se hidratar, ou quando precisam “esticar” o tempo de uma cena, interpretada em câmera lenta. Uma cena que se estica, um objeto que determina a celebração: a alquimia plástica entre o absurdo e o luto dão o tom da "canção" catártica da diretora belga.

“One Song – Histórias do Teatro IV”, de Miet Warlop, fica em cartaz no Festival de Avignon até o dia 14 de julho.

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