Teatro 'em carne e osso' na pandemia: retorno da cultura na Venezuela

Andrea TOSTA
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Em seu figurino, Leandro Campos ensaia suas falas em voz alta com empolgação. É a primeira vez que sobe ao palco em 10 meses, após o longo hiato que a cultura sofreu na Venezuela por conta da pandemia.

“Eu disse: não pode ser! Graças a Deus, tenho essa oportunidade de novo!”, disse à AFP. O ator está pronto para ser preenchido por aquela "energia" que "dá vida" a ele: o público.

Momentos depois, cerca de trinta pessoas entraram no salão central do Teatro Nacional em Caracas e começaram a ocupar poltronas, deixando algumas vazias entre elas para manter a distância.

"A experiência em carne e osso não se compara", explica emocionada à AFP Esmeralda López, que foi assistir ao espetáculo.

É um público em declínio devido a uma grave crise, com sete anos de recessão e três de hiperinflação, que tirou muitos artistas dos palcos e fechou teatros.

Esses estabelecimentos de cultura, assim como os cinemas, estavam fechados desde que a pandemia atingiu a Venezuela em março passado.

Na Venezuela, desde junho foi lançado um plano denominado "7 + 7", que alterna sete dias de "quarentena radical" - quando todos os negócios são forçados a fechar, exceto aqueles em setores prioritários como alimentação ou saúde - com sete dias de "flexibilidade" que permite retomar as atividades.

“Tinham outros setores habilitados que você realmente colocava em um balança: se isso está aberto, por que não a cultura? (...) Por que é menos importante?”, lembra Campos.

No final de janeiro, o governo socialista finalmente autorizou a abertura de espaços culturais.

Do teatro Trasnocho Cultural, no setor rico de Las Mercedes, o renomado diretor Javier Vidal se considera um "incômodo" para o governo de Nicolás Maduro, acusado por diferentes ONGs de censura e perseguição de dissidentes.

“Somos um incômodo, a cultura incomoda (...). No nosso governo não há indiferença, mas um verdadeiro desprezo pelo que é teatro”, disse Vidal à AFP.

"Isso que nos aconteceu, obviamente, é 'virada do jogo'", confessa, após o desafio de atuar sem público em peças gravadas e postadas na internet como alternativa à paralisação pela pandemia.

- Circo de rua -

As máscaras são obrigatórias em teatros e cinemas. A capacidade foi reduzida para menos da metade para manter distância.

Longe das salas fechadas e climatizadas, Heysell Leal, uma dançarina de 28 anos, se contorce sorrindo em um aro que pende de um teto alto.

Ao redor, vários praticam acrobacias em esteiras e outros escalam longos panos pretos. Eles fazem parte de um grupo de circo que se apresenta em Caracas.

Com a sua tenda colorida guardada devido à pandemia, cerca de quinze jovens ensaiam uma versão de rua do clássico shakespeariano "Romeu e Julieta", seguindo uma coreografia de saltos e piruetas.

Tem como objetivo “uma intervenção urbana e que as pessoas consigam isso no seu espaço cotidiano”, afirma o diretor Nicky García.

É uma experiência "totalmente nova" para Leal. “As pessoas precisam muito, tanto quanto a gente (...). Não quero mais tanta separação”, diz.

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