Técnica de ginástica trocou cartas com detalhes e relatos íntimos com atleta de 16 anos

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Abusos cometidos pela técnica Ana Carolina Zumpano Dias teriam acontecido em 2018 e 2019, quando a jovem tinha entre 15 e 16 anos. (Foto: Reprodução)
Abusos cometidos pela técnica Ana Carolina Zumpano Dias teriam acontecido em 2018 e 2019, quando a jovem tinha entre 15 e 16 anos. (Foto: Reprodução)

*Por Leonardo Sacco, João Conrado Kneipp e Anita Efraim

A treinadora de ginástica rítmica Ana Carolina Zumpano Dias, condenada em primeira instância por assédio sexual contra uma atleta menor de idade, trocou cartas com a adolescente durante os períodos em que a treinava.

Os documentos constam na denúncia enviada pela Procuradoria do TJD-SP (Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo) e são considerados provas consistentes da prática do abuso.

Na quinta-feira (19), Ana Carolina foi condenada pelo TJD-SP e banida internacionalmente da ginástica. Ainda cabe recurso em duas outras instâncias da Justiça Desportiva - Pleno do TJD-SP e STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva).

Um efeito suspensivo, concedido automaticamente com o recurso, autoriza que a técnica desempenhe suas funções até o trânsito em julgado da sentença.

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Em uma carta escrita pela treinadora em janeiro de 2019, quando a atleta tinha 16 anos, Ana Carolina descreve a relação entre elas. Os contatos aconteciam no âmbito da ginástica, quando elas viajavam com a equipe para competições, e também fora, em almoços e passeios que faziam juntas.

Durante o inquérito que investigou os abusos, Ana Carolina assumiu a autoria da carta enviada à atleta.

O documento escrito pela técnica traz relatos de encontros entre as duas, ocorridos dentro e fora dos treinamentos e competições da ginástica.

Ana Carolina cita beijos, uso de alianças, flores entregues na escola, supostos costumes e hábitos da jovem e ainda faz uma retrospectiva em meses sobre como a relação entre duas "cresceu", segundo as palavras da própria técnica.

Há trechos em que ela faz elogios de cunho sexual à atleta menor de idade. Em outros, cita ligações e chamadas de vídeos da treinadora, quando esta estaria alcoolizada, para a atleta.

Carta enviada pela treinadora à atleta é prova importante no caso (Foto: Reprodução)
Carta enviada pela treinadora à atleta é prova importante no caso (Foto: Reprodução)

A defesa da treinadora, como resposta, anexou no inquérito da Procuradoria uma carta enviada pela menor de idade.

Na avaliação da procuradora do Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo de Ginástica, Carolina Danieli Zullo, responsável pelo caso, as cartas dão a certeza dos abusos na relação entre a técnica e a adolescente.

A procuradora afirma ainda que fica claro que Ana Carolina utilizou-se da posição de treinadora para "persuadir a menor a encantar-se".

"​​As cartas revelam, sem sombra de dúvidas, um “romance” vivido entre uma mulher adulta, já casada e divorciada e uma menina de 15/16 anos de idade (...). Acrescenta-se a isso o fato de que a mulher era sua treinadora, que a treinou, ganhou sua confiança, a fez de uma reserva da equipe a campeã. Ou seja, está claro que usou de toda a sua experiência para persuadir a menor a encantar-se."

ABUSO MORAL E CONSTRANGIMENTO

Na denúncia enviada ao TJD-SP, a procuradora Carolina Danieli Zullo destaca que, além dos abusos sexuais, há indícios também de assédio moral e constrangimento por parte da técnica para com a atleta.

"Os abusos sofridos pela menor não se limitam a abuso sexual, mas também a abuso moral, que foi o primeiro, a partir do momento em que a treinadora se aproximou da menina e iniciou o processo de aproximação. O constrangimento é patente. A treinadora que levou a atleta aos níveis mais altos, ao aproximar-se dela, por intenções outras que não a de ser técnica, certamente, causou constrangimento a menor não apenas no início, mas também quando começou a tratá-la de forma diferente, dando presente e sendo destratada pelas demais colegas, pois diziam que ela recebia tratamento diferenciado da treinadora, que chegou até mesmo a presenteá-la com um uniforme de competição."

CRONOLOGIA DO CASO

  • 2018 e 2019: Entre os 15 e 16 anos, atleta foi treinada pela técnica Ana Carolina Zumpano Dias. É durante esse período, segundo a denúncia da Procuradoria do TJD de Ginástica, em que ocorrem os episódios de assédio sexual e moral.

  • 18 de janeiro de 2019: Ana Carolina envia uma carta à adolescente, então com 16 anos, comemorando o que chama de 2 meses de relação entre elas. No documento, a técnica traz relatos de encontros entre as duas, ocorridos dentro e fora dos treinamentos e competições da ginástica.

  • 2 de fevereiro de 2021: Pais da atleta apresentam a denúncia ao TJD de Ginástica informando dos abusos. Eles relatam mudanças de comportamento da jovem, que tornou-se, segundo os pais, mais agressiva e introspectiva durante o período em que ocorreram os assédios.

  • 22 de fevereiro de 2021: Inquérito é instaurado por determinação do Presidente do TJD da Ginástica, João Guilherme Guimarães Gonçalves

  • 25 de março de 2021: Defesa da técnica Ana Carolina Zumpano Dias presta os primeiros esclarecimentos sobre a acusação

  • 26 de março de 2021: Auditor do TJD de Ginástica conclui inquérito de investigação apontando a existência de uma "relação entre as partes superou a relação profissional, a relação de uma técnica com uma atleta menor de idade e adentrou no âmbito na ilicitude desportiva."

  • 18 de maio de 2021: Procuradoria envia a denúncia ao TJD de Ginástica na qual pede ao Tribunal que Ana Carolina Zumpano Dias seja condenada e banida da Ginástica por conduta que fere "todos os códigos de ética, conduta e disciplina da categoria e do esporte de forma geral". A procuradora Carolina Danieli Zullo indica infração a artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, do Código de Conduta da Federação Internacional de Ginastica, Código Disciplinar da Federação Internacional de Ginástica e Estatuto da Federação Internacional de Ginástica.

  • 19 de agosto de 2021: De forma unânime, por três votos a zero, o TJD-SP da Ginástica acata integralmente o pedido e decide pelo banimento internacional da técnica Ana Carolina Zumpano Dias das atividades da ginástica, além de multa pecuniária no valor de R$ 20 mil por infração a dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Ainda cabe recurso em duas outras instâncias da Justiça Desportiva - Pleno do TJD-SP e STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Um efeito suspensivo, concedido automaticamente com o recurso, autoriza que a técnica desempenhe suas funções até o trânsito em julgado da sentença.

ENTENDA A DENÚNCIA

O caso aconteceu entre 2018 e 2019, quando a menina tinha 15 anos, mas a denúncia foi oferecida pelos pais da jovem em 2021. O processo tramita em segredo de Justiça no Tribunal de Justiça Desportiva da Ginástica.

Segundo a procuradora responsável pelo caso, Carolina Danieli Zullo, o comportamento de Ana Carolina Zumpano Dias fica claro, especialmente pelas cartas anexadas ao processo.

A recomendação da procurado é que a treinadora seja “severamente punida, para que não possa mais atuar como técnica de ginastica, pois sua conduta fere todos os códigos de ética, conduta e disciplina da categoria e do esporte de forma geral”.

“É inaceitável que uma técnica que, supostamente, deveria estar orientando uma atleta, se ache no direito de ter comportamentos outros somente porque levou a atleta a conquistas. Este é o papel do treinador! Levar o atleta a conquistas, fazer com que ele se desafie, supere os seus limites”, diz a procuradora em processo enviado à Comissão Disciplinar STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) de Ginástica.

A treinadora Ana Carolina Zumpano Dias é formada em Educação Física e há 15 anos coordena equipes de ginástica rítmica.

Ela e a adolescente teriam se conhecido na escola onde a menor de idade estudava, no estado de São Paulo. Atualmente, Ana Carolina tem um projeto social de ginástica rítmica em São Bernardo do Campo, onde continua treinando meninas.

PAIS DENUNCIARAM O CASO

Os fatos relatados pelos pais datam de 2018 e 2019, período em que a menor tinha entre 15 e 16 anos. O pai descreve que Ana Carolina se aproximou da família e, com a confiança deles, passou a “doutrinar” a jovem, moldando os comportamentos dela. A adolescente chegou a ficar agressiva com os pais, se distanciando deles, segundo os relatos.

Além das mudanças de comportamento, as cartas trocadas entre treinadora e atleta expõe que havia um relacionamento amoroso. Ana Carolina confirmou que a carta apresentada no processo foi escrita por ela.

À Comissão Disciplinar do STJD de Ginástica, a procuradora fala também em abuso moral e “constrangimento patente”. A menor seria tratada de forma diferente por Ana Carolina, que chegou a dar presentes para a atleta. A situação gerou um mal-estar entre a equipe, que passou a destratar a jovem.

Após os pais denunciarem o ocorrido, a escola demitiu a técnica Ana Carolina Zumpano Dias.

O QUE DIZ A DEFESA DA ACUSADA

Procurada, a defesa da técnica não quis se pronunciar e afirmou que iria se manifestar apenas nos autos.

RELEMBRE O CASO FERNANDO LOPES

Outro caso emblemático na ginástica, citado pela relatora Suzi Teles Zyskind, foi o de Fernando Carvalho Lopes.

Em 31 de março de 2019, Fernando de Carvalho Lopes foi banido definitivamente do esporte. O ex-treinador de ginástica artística foi condenado por assédio sexual e moral contra atletas, quando era técnico do Mesc, em São Bernardo do campo.

Fernando de Carvalho Lopes durante oitiva no Senado (EFE)
Fernando de Carvalho Lopes durante oitiva no Senado (EFE)

Os crimes teriam acontecido entre 1999 e 2016, contra crianças e adolescentes.

A decisão foi tomada de forma unânime pelo Pleno do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da Confederação Brasileira de Ginástica.

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