Tela de Tarsila do Amaral é leiloada por R$ 57,5 milhões e bate recorde em vendas públicas no Brasil

Nelson Gobbi
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Ding Musa/Divulgação

SÃO PAULO — Arrematada por R$ 57,5 milhões, às 20h17 desta quinta, a tela "A caipirinha", de Tarsila do Amaral (1886-1973), tornou-se a obra de arte brasileira mais cara da história negociada em venda pública. A pintura de 1923 bateu o recorde das duas obras nacionais mais caras vendidas em leilões: "Vaso de flores", de Guignard, que foi arrematada por R$ 5,7 milhões em 2015; e "Superfície modulada nº 4", de Lygia Clark, que alcançou R$ 5,3 milhões em 2013. Corrigidos, hoje os valores seriam, respectivamente, de R$ 9,4 milhões e R$ 8 milhões.

A tela foi colocada à venda após ser confiscada pela Justiça. Antes, ela pertencia à coleção particular do empresário Salim Taufic Schahin, do banco Schahin, envolvido no escândalo da Lava-Jato. Uma juíza decretou, em junho, a venda com pagamento à vista. A arrecadação do leilão será usada para pagar parte dos mais de R$ 2 bilhões da dívida de Salim com 12 bancos credores.

Na semana passada, Carlos Eduardo Schahin, filho de Salim, entrou com uma medida cautelar para impedir o leilão, alegando que a obra havia sido vendida a ele pelo pai em 2012, por R$ 240 mil. A versão era questionada pelos credores do empresário e já havia sido derrubada em outras duas ocasiões pela Justiça.

No dia 9 de novembro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou o recurso de Carlos Eduardo. Contudo, o ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro determinou que a quantia arrecadada com a venda fique bloqueada até que a apreciação do mérito da questão seja realizada. Antes do início do leilão, foi lido um informe da juíza Melissa Bertolucci, da 27ª Vara Cível de São Paulo, avisando que, após o lance vencedor, a alienação seria comunicada ao Juízo e formalizada por termo nos autos da execução.

O óleo sobre tela, de 60 cm x 81 cm, ficou disponível para visitação pública desde o dia 8 de novembro, na sede da Bolsa de Arte, em São Paulo, onde foi realizado o leilão. "A caipirinha" foi finalizada durante a segunda viagem de Tarsila do Amaral a Paris, em 1923, um ano após sua participação na Semana de Arte Moderna, na capital paulista. Em carta enviada à família no mesmo ano, Tarsila do Amaral afirmou: “Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando”.

Um dos maiores nomes das artes visuais no Brasil, Tarsila vem ganhando projeção internacional nas últimas décadas. Em 1995, o empresário argentino Eduardo Costantini adquiriu o "Abaporu" (1928) por US$ 1,3 milhão (cerca de US$ 2,2 milhões em valores atuailizados) em um leilão em Nova York. A tela é a principal atração do Malba (Museu de Arte Latina de Buenos Aires), fundado por Costantini em 2001.

Em fevereiro do ano passado, o MoMA comprou outra tela de Tarsila, 'A lua', numa venda privada, cujos valores não foram revelados, mas que profissionais do mercado estimaram em US$ 20 milhões (cerca de R$ 102 milhões). Um ano antes, o museu promoveu a retrospectiva "Tarsila do Amaral: Inventing modern art in Brazil", com curadoria de Luis Pérez-Oramas e Stephanie D’Alessandro, que reuniu mais de cem trabalhos e projetou ainda mais o nome da artista brasileira no exterior. Algumas destas obras também ganharam destaque na mostra "Tarsila Popular", a maior retrospectiva da artista já realizada no Brasil, em 2019, que deu ao Masp (Museu de Arte de São Paulo) seu recorde de público, com 403 mil visitantes.