Teleférico do Alemão completa dez anos em ruínas e sem previsão de voltar a funcionar

·4 minuto de leitura

RIO — Promessa de transformação para um dos maiores complexos de favelas da cidade, o Teleférico do Alemão completa dez anos em ruínas. A última viagem das gôndolas ocorreu um mês após o encerramento da Olimpíada de 2016, quando o equipamento fechou - inicialmente para uma manutenção de seis meses - e nunca mais reabriu. Inaugurado em julho de 2011, com recursos do PAC, ao custo de R$ 253 milhões, o teleférico se tornou um elefante branco. Com as seis estações depredadas e as máquinas corroídas pela ferrugem, ele depende de investimentos para voltar a funcionar. O governo do estado não informou o montante necessário para a revitalização do sistema, mas afirmou que pretende abrir licitação para escolha de nova concessionária que assuma a operação e faça as intervenções.

Antes visto como sinal de esperança pelos moradores, hoje os 3,5 quilômetros de cabo de aço que cortam o complexo inspiram frustração e medo de que o abandono provoque algum acidente. Na estação do Adeus, a estrutura está deteriorada e há peças espalhadas pelo chão. Na das Palmeiras, estação final do serviço, onde foi construído um prédio para sediar a UPP da Fazendinha, a corporação abriu mão do edifício e, hoje, só restam carcaças de viaturas no local.

— Há medo entre os moradores de que esses cabos arrebentem e caiam em cima de nossas casas. São cabos enormes, grossos e com certeza trazem riscos diversos — conta o ativista, comunicador e empreendedor Raull Santiago, de 32 anos.

Nascido e criado no Alemão, Raull esteve na estação do Adeus no último dia 9. O local, que deveria estar lacrado, teve as portas e janelas destruídas. Lá dentro, o cenário encontrado foi de total abandono.

— Havia muita sujeira, um cheio ruim, coisas destruídas, algumas aparentemente por intervenção de alguém, outras pela degradação do tempo. Muita poeira, sujeira acumulada — conta o jovem, que lamenta a descontinuidade do projeto: — Famílias foram removidas. Comércios faliram. Não há outra alternativa para um resgate da energia e perspectivas futuras para o Alemão, se não a tentativa imediata de retomada da operação do teleférico.

Inspirado em Medellín

Considerado o primeiro sistema de transporte de massa por cabo no Brasil, o Teleférico do Alemão foi inaugurado três anos antes de o país sediar a Copa do Mundo e cinco anos antes de a cidade receber os Jogos Olímpicos. O projeto ajudou a conceber a mensagem para o mercado de um Rio com os olhos voltados para o futuro e para o desenvolvimento social.

A obra foi inspirada em um teleférico com 10 quilômetros de extensão, que funciona na cidade de Medellín, na Colômbia. Visitada por Cabral em 2007, a beleza arquitetônica chamou atenção por ter exercido um papel central na retomada urbanística local.

Inicialmente, o sucesso colombiano se repetiu no Rio de Janeiro. O Teleférico do Alemão chamou a atenção de turistas, que passaram a incluir em seus roteiros as favelas do complexo. O cenário começou a mudar com a interrupção do serviço, em 2016, provocada por um problema num cabo que precisaria de uma peça importada. A manutenção nunca chegou a ser concluída.

Ao menos duas estações passaram a ser usadas como base para UPPs. No entanto, com o recente desmonte do projeto das UPPs, a Polícia Militar também deixou para trás a ocupação da estrutura. Na estação do Morro do Alemão, ainda há presença de policiais, que se instalaram no primeiro andar do prédio do teleférico. Em nota, a Polícia Militar informou que a área ainda é utilizada para projeto social realizado pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP).

Superfaturamento

Em 2016, a Controladoria-Geral da União (CGU) identificou um superfaturamento de R$ 139 milhões dentro do total contratado para as obras, de R$ 710 milhões. Além do teleférico, esse valor englobava ainda gastos com projetos de revitalização e habitação no entorno do modal. As obras do PAC foram comandadas por um consórcio liderado pela Odebrecht.

O teleférico foi inicialmente operado pela concessionária SuperVia, que não demonstrou interesse de estender o contrato e entregou o serviço em março de 2016, quando o consórcio Rio Teleféricos assumiu, e operou o serviço até setembro. O consórcio acusou o estado e não realizar os pagamentos devidos. Hoje, o equipamento está sob responsabilidade da Secretaria estadual de Transportes. Em nota, a pasta disse que o projeto de recuperação das estações de energia do Teleférico do Alemão já foi concluído, mas ainda não há previsão para nova licitação. "Por conta das dificuldades financeiras do Estado, que se encontra em Regime de Recuperação Fiscal, ainda não foi possível realizar a licitação para a escolha de nova concessionária, que assuma a operação do teleférico e faça os investimentos necessários".

Situação de semelhante abandono vive o Teleférico da Providência. De responsabilidade da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), o equipamento está parado desde dezembro de 2016, com o fim do contrato vigente à época. Em nota, a pasta disse que "trabalha na contratação de empresa de engenharia para avaliar a condição atual do equipamento".

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos