Telegram X eleições: desinformação e desafio no combate às fake news

·4 min de leitura
  • Aplicativo preocupa autoridades pelo compartilhamento de informações falsas

  • Telegram está instalado em mais da metade dos celulares no Brasil, aponta pesquisa

  • TSE tenta incluir aplicativo em projeto de enfrentamento à desinformação

Após o banimento do ex-presidente Donald Trump no Twitter, Jair Bolsonaro (sem partido) fez um apelo aos seus seguidores: “Inscreva-se no meu canal oficial no Telegram”. O aplicativo e rede social de mensagem instantânea criptografada, virou reduto de desinformação e da extrema direita. Com o recente ‘apagão’ das redes sociais, muitos usuários migraram para o aplicativo concorrente do WhatsApp.

O Telegram, porto seguro do presidente Bolsonaro — que já ultrapassou a marca de um milhão de inscritos em seu canal de compartilhamento de mensagens — tem uma política ínfima de moderação, diretrizes vagas e uma capacidade de compartilhamento e reprodução de conteúdo em massa; e corre o risco de ser bloqueado no Brasil.

Ao contrário do WhatsApp, que estipula um limite de 256 membros por grupos e restringe o alcance de mensagens replicadas muitas vezes — a medida foi tomada após serem criticados pelo papel que o aplicativo desempenhou em campanhas de desinformação durante as eleições de muitos países, entre eles o Brasil — o Telegram permite grupos com 200 mil pessoas e compartilhamento irrestrito.

O Projeto de Lei (PL) 2630/20, conhecido como PL das Fake News, tramita na Câmara dos Deputados. O texto altera o projeto aprovado no Senado e prevê que plataformas de troca de mensagens tenham representantes legais no Brasil, o que não é o caso do aplicativo russo. O projeto também prevê limitar ainda mais os disparos em massa tanto no Whatsapp quanto no Telegram.

O uso do Telegram tem aumentado no Brasil. De acordo com pesquisa, mais da metade dos smartphones brasileiros têm o aplicativo instalado (Foto: Pixabay)
O uso do Telegram tem aumentado no Brasil. De acordo com pesquisa, mais da metade dos smartphones brasileiros têm o aplicativo instalado (Foto: Pixabay)

A proposta traz regras para os provedores de redes sociais, como Facebook e Instagram, e serviços de mensageria instantânea, como WhatsApp e Telegram e sugere uma alteração o Marco Civil da Internet com o objetivo de impedir que as redes sociais cancelem perfis ou retirem conteúdos que venham a ferir os termos de serviço, exceto se houver “justa causa”.

Para Leonardo Nascimento, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador do ecossistema de desinformação do Telegram ao lado dos pesquisadores Letícia Cesarino (UFSC) e Paulo Fonseca (UFBA), o banimento de aplicativos é uma medida drástica. Nascimento atribui a popularidade do aplicativo no Brasil “à estrutura polarizada do país que foi produzida nos últimos anos”, afirmou.

Ao Yahoo! Notícias, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), relator do projeto, afirmou que o trecho do PL que determina a nomeação dos representantes legais no Brasil foi pensado no Telegram que tem ignorado tentativas de contato do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para incluí-lo no Programa de Enfrentamento à Desinformação, projeto que visa as eleições de 2022. “A lei brasileira vale para todos os prestadores de serviços que têm sede no Brasil ou oferecem serviços no país; não cumprir a lei produzirá efeitos jurídicos, abrirá caminho para sanções, da advertência ao bloqueio do funcionamento”, afirmou Silva à reportagem.

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Além disso, o TSE anunciou novas medidas para dar mais transparência ao processo eleitoral. Entre essas ações está a abertura dos códigos-fonte das urnas, inseridos no equipamento para permitir a votação e a contabilidade dos votos. A medida é mais uma forma de rebater alegações infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro, ideia semeada por Bolsonaro, que faz ataques ao sistema de votação pelo qual foi eleito. Apesar dos sucessivos investidas à lisura do sistema, o mandatário não apresenta provas que confirmem a sua tese. Não há comprovação de fraude em quaisquer eleições brasileiras desde que o sistema de votação eletrônico foi implementado no Brasil em 1996.

Crescimento no Brasil

Pesquisa realizada em agosto deste ano pelo site MobileTime, em parceria com a empresa de pesquisas online Opinion Box, mostrou que o Telegram está instalado em mais da metade dos smartphones brasileiros (53%).

Análise do Radar Aos Fatos mostra que canais antivacina no Telegram alcançaram mais de 2,9 milhões de visualizações com desinformação sobre imunizantes contra a Covid-19, defesa de remédios sem eficácia para o combate à doença e teorias conspiratórias a respeito da pandemia.

As verificações realizadas pelo Yahoo! Notícias já desmentiram conteúdos virais compartilhados na plataforma, como texto que relacionava vacinação com aparecimento de cauda em criança, peça de humor descontextualizada em grupos negacionistas e alegações falsas sobre a imunização contra o novo coronavírus.

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