Telegramas mostram que Ernesto mobilizou Itamaraty para conseguir cloroquina; ex-ministro está na mira da CPI da Covid

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Brazil's Foreign Minister Ernesto Araujo stands behind President Jair Bolsonaro during the ceremony marking National Flag Day at Planalto presidential palace in Brasilia, Thursday, Nov. 19, 2020. (AP Photo/Eraldo Peres)
Mesmo não existindo nenhum “teste bem-sucedido” em hospitais brasileiros, o Ministério das Relações Exteriores pediu, em telegrama, que os diplomatas tentassem a liberação de insumos para o medicamento (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)
  • Telegramas mostram que o ex-ministro das Relações Exteriores mobilizou o Itamaraty para importar cloroquina

  • Movimenteção foi feita mesmo depois de o remédio ser apontado como ineficaz contra a Covid-19 e ser descartado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • Ernesto Araújo será ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado na próxima quinta-feira (13)

Na fila para prestar depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, na próxima quinta-feira (13), o ex-chanceler Ernesto Araújo vai ter pela frente temas polêmicos

Isso porque reportagem da Folha de S. Paulo, publicada nesta segunda-feira (10), apontou que telegramas mostram que o ex-ministro das Relações Exteriores mobilizou o Itamaraty para importar cloroquina, mesmo depois de o remédio ser apontado como ineficaz contra a Covid-19 e ser descartado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

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De acordo com o jornal, que teve acesso as mensagens, a corrida do Itamaraty atrás da cloroquina começou pouco depois de o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) falar em "possível cura para a doença" em suas redes sociais, em 21 de março de 2020.

Na época, a Prevent Senior e o hospital de elite Albert Einstein, em São Paulo, haviam anunciado que tinham iniciado estudos com a droga. Segundo o jornal, em declaração durante reunião do G-20, em 26 de março, relatada em telegrama, Bolsonaro apontou para “testes bem-sucedidos".

"Testes bem-sucedidos em hospitais brasileiros, com a utilização de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes infectados pela Covid-19, com a possibilidade de cooperação sobre a experiência brasileira”, teria escrito Bolsonaro.

No mesmo dia, segundo a Folha, mesmo não existindo nenhum “teste bem-sucedido” em hospitais brasileiros, o Ministério das Relações Exteriores pediu, em telegrama, que os diplomatas tentassem a liberação de insumos para o medicamento.

“[Aos diplomatas, que tentem] sensibilizar o governo indiano para a urgência da liberação da exportação dos bens encomendados pelas empresas antes referidas [EMS, Eurofarma, Biolab e Apsen] e outras que se encontrem em igual condição, cujo desabastecimento no Brasil teria impactos muito negativos no sistema nacional de saúde".

Governo indiano tinha restringido exportações da droga

Na época, o governo indiano havia restringido a exportação da cloroquina. Cerca de duas semans depois, em 15 de abril de 2020, o ministério pede que a embaixada na Índia faça gestões junto ao governo indiano para liberar uma carga de hidroxicloroquina comprada pela empresa Apsen antes de a exportação ser vetada por Déli e para que a venda da droga seja normalizada.

De acordo com a reportagem da Folha, durante todo o mês de abril, houve inúmeros pedidos do Itamaraty para obtenção de cloroquina. 

Até mesmo depois de a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira desaconselharem o uso da cloroquina contra a Covid-19 e apontarem efeitos colaterais graves, em 19 de maio, o Itamaraty continuou acionando o corpo diplomático, em telegramas em junho, para garantir o fornecimento de hidroxicloroquina.

Pouca movimentação para adquirir vacinas

A mesma dedicação, porém, não aconteceu para a aquisição de imunizantes contra o coronavírus. Até novembro de 2020, o ministério não havia enviado instruções específicas para diplomatas prospectarem potenciais fornecedores de vacinas ou medicamentos na China, segundo pessoas envolvidas em negociações.

A China é o país que mais produz imunizantes contra a Covid e foi alvo de ataques constantes durante a gestão de Ernesto. O país tem cinco vacinas aprovadas pelas autoridades sanitárias locais, entre elas a da gigante Sinopharm —ainda que os produtos chineses tenham eficácia menor do que os da Pfizer e da Moderna, por exemplo.

Das chinesas, o Brasil só usa a Coronavac, da Sinovac, produzida em parceria com o Instituto Butantan, em acordo fechado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Mais de 80% das doses administradas no Brasil são de Coronavac. 

Segundo a Folha, que ouviu pessoas envolvidas na negociação, houve apenas pedidos vagos de informação sobre os desenvolvimentos na área de vacinas, mas nenhuma orientação ativa para obter imunizantes, ao contrário do que foi feito com a cloroquina.

Brazil's Foreign Minister Ernesto Araujo speaks at the Chamber of Commerce in Washington, Monday, March 18, 2019. (AP Photo/Susan Walsh)
No feriado de 1º de maio, por exemplo, Ernesto afirmou que a partir do ano passado, com a pandemia, uma "reação do sistema" começou a "desmantelar" esperanças geradas com a eleição do presidente Bolsonaro em 2018 (Foto: AP Photo/Susan Walsh)

Ernesto cria constrangimentos nas redes sociais

Fora do governo desde março, Ernesto Araújo vem usando as redes sociais para minar o trabalho do sucessor, Carlos França, e conservar influência ideológica no Itamaraty. Segundo interlocutores, ele quer se manter em destaque para tentar um cargo eletivo no ano que vem.

No feriado de 1º de maio, por exemplo, Ernesto afirmou que a partir do ano passado, com a pandemia, uma "reação do sistema" começou a "desmantelar" esperanças geradas com a eleição do presidente Bolsonaro em 2018.

"Hoje o povo brasileiro tem a oportunidade de recuperar sua esperança, ao pedir ao presidente Bolsonaro simplesmente que ele volte a ser o presidente eleito em 2018, aquele que prometeu derrotar o sistema, o líder de uma transformação histórica e constitucional, o portador de uma missão", escreveu.

Convocação de ex-ministros na CPI da Covid

Na semana passada, a CPI da Covid aprovou na convocação de ex-ministros do governo Bolsonaro e representantes do Instituto Butantan e da Fiocruz e representantes de farmacêuticas.

Confira os requerimentos de convocação aprovados na quarta-feira (5):

  • Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores (13/05)

  • Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência da República (11/05)

  • Nísia Trindade, presidente da Fiocruz (12/05)

  • Marta Díez e Carlos Murilo, representantes da farmacêutica Pfizer (11/05)

  • Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan (12/05)

  • Fernando de Castro Marques, presidente da União Química Farmacêutica (13/05)

Pressão pelo uso de cloroquina

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich depôs na quarta-feira (5) na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, que apura a condução do governo federal na pandemia do coronavírus.

Teich afirmou que sua saída do ministério deveu-se à pressão sobre o uso da cloroquina e à falta de autonomia para fazer o trabalho necessário. “Sem liberdade para atuar segundo minhas convicções”, disse.

Segundo o ex-ministro, o pedido de demissão ocorreu justamente pelo pedido de ampliação do uso do medicamento contra a covid-19. Nelson Teich disse que havia uma preocupação do "uso indevido" de medicamentos, não apenas da cloroquina.

“[A cloroquina] é um medicamento que tem efeitos colaterais. Essencialmente era a preocupação do uso indevido. Isso vale nao para a cloroquina, mas para qualquer medicamento”, afirmou.

No entanto, Teich declarou que nenhuma orientação para a distribuição de cloroquina passou pelo Ministério da Saúde durante sua gestão e que não soube da produção do medicamento pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército.

"Não sabia da produção da cloroquina pelo Exército, não fui consultado", afirmou Teich.

Questionado sobre o desempenho do general Eduardo Pazuello, secretário-executivo da pasta na época em que Teich era ministro, ele afirmou que o militar auxiliou nas demandas relacionadas à logística.

Ele ainda afirmou que prescrever nebulização com cloroquina é "totalmente errado".

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