Telemedicina: alternativa para evitar riscos em tempos de coronavírus

Natália Boere
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Tecnologia. A química Cíntia Holleben foi atendida por teleconsulta por Maria Cecília Erthal, especialista em reprodução humana assistida

RIO - O debate acalorado em torno da telemedicina no Brasil teve uma trégua em consequência da chegada do novo coronavírus: enquanto durar a pandemia de Covid-19, esta modalidade de atendimento está autorizada. A medida representou um alívio para pacientes como a empresária Carolina Rios, em tratamento devido a um câncer de mama. Na última quarta-feira, em vez de ir ao Centro de Excelência Oncológica do grupo Oncoclínicas, na Barra, ela fez uma teleconsulta com seu médico, Rafael Jacob. Após finalizar as sessões de quimioterapia e em vias de se submeter a uma mastectomia, ela precisava conversar com o oncologista sobre os resultados dos seus exames pré-operatórios e dizer como estava se sentindo.

— Não estou podendo sair de casa, nem ficar exposta. Ter a possibilidade de conversar com meu médico na minha casa, sem me expor ao perigo do coronavírus, foi muito importante. E poder ter esta conversa olho no olho foi muito bom — afirma a empresária.

Jacob explica que o atendimento é registrado em uma plataforma virtual, onde ficam armazenados os prontuários dos pacientes, e que a interação por vídeo se dá pelo aplicativo Zoom.

— A interação visual é muito importante, porque conseguimos ter noção de como o paciente está se sentindo de fato — destaca Jacob. — No caso de Carolina, consegui ver que ela estava bem após a quimioterapia e pronta para a cirurgia, sem precisar pô-la em risco. Quem está em tratamento de um câncer é mais vulnerável e tem a imunidade mais baixa, então se sente acolhido e mais tranquilo se atendido remotamente.

A telemedicina foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina em 19 de março e regulamentada pelo Ministério da Saúde pelo período da pandemia em portaria publicada quatro dias depois. No Rio, a prática está autorizada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremerj) desde 26 de março.

— Negar a telemedicina é negar a tecnologia, que está presente nas nossas vidas e deve ser usada em nosso benefício. Mas acreditamos que a prática deve ser restrita a pacientes já em tratamento, que podem ser acompanhados à distância, e não numa primeira consulta, em que é preciso dar um diagnóstico — afirma Sylvio Provenzano, presidente do Cremerj.

Há exceções. Especialista em reprodução humana assistida, Maria Cecília Erthal, diretora médica da Clínica Vida — Centro de Fertilidade, na Barra, explica que a consulta inicial de pacientes que buscam procedimentos como fertilização in vitro e congelamento de óvulos pode ser feita remotamente, pois esses processos não demandam exame físico.

— A consulta remota nada deixa a desejar à presencial. Da mesma forma, ouvimos a queixa do paciente, verificamos seu histórico, solicitamos exames (com assinatura digital), avaliamos os resultados e fazemos o encaminhamento para o melhor tratamento — afirma a médica.

A química Cíntia Holleben foi uma das pacientes que recorreram à teleconsulta com Maria Cecília. Aos 38 anos, ela procurava uma técnica que lhe permitisse engravidar futuramente sem problemas.

— Foi fundamental ter esta possibilidade na quarentena. Quanto mais rápido você recorre a qualquer técnica de reprodução humana assistida, melhor, porque a idade do óvulo conta muito para a sua qualidade. Quero garantir que vou conseguir engravidar — diz Cíntia.

Atendimento infantil com termo de consentimento

Antes do atendimento na Papi Pediatria, na Barra da Tijuca, os responsáveis pelos pacientes mirins têm que assinar um termo de consentimento para a realização de teleconsulta e enviá-lo para a clínica. Segundo a pediatra Fátima Paiva, a maior parte das famílias atendidas remotamente quer esclarecer dúvidas sobre a pandemia.

— Muitos pais ficaram preocupados com o coronavírus, queriam saber quais os sintomas da doença, e é muito bom poder dar um conforto e orientá-los — diz Fátima.

A advogada Flavia Ferreira, mãe de Heitor, de 3 anos e de João Vicente, de 7 meses, fez uma dupla consulta remota com a pediatra:

— Ela me orientou sobre a introdução alimentar do João e monitorou o tratamento da alergia respiratória do Heitor. O contato pessoal é importante, mas, numa situação de emergência, torna-se algo menor.

A maternidade Perinatal da Barra oferece uma espécie de triagem telefônica. De segunda a sexta, das 13h às 14h30m, mulheres com problemas ginecológicos podem ligar para 99195-5083. Elas são atendidas por uma ginecologista, que, se necessário, encaminha-as para o atendimento presencial.

— Abrimos esse canal para orientar pacientes antes de elas se dirigirem ao hospital e evitar deslocamentos desnecessários — diz Renato Sá, obstetra da Perinatal.

Saiba mais sobre a telemedicina

Para o oncologista Carlos Gil Ferreira, diretor científico do grupo Oncoclínicas, a telemedicina continuará sendo uma ferramenta crucial no mundo pós-pandemia.

A telemedicina veio para ficar?

No contexto da pandemia de Covid-19 e do isolamento social, a telemedicina (autorizada pelo Conselho Federal de Medicina) se consolida como um precioso recurso ao proporcionar mais segurança e conforto a quem precisa manter o seu tratamento. Também é uma aliada na redução do fluxo em clínicas, ambulatórios e hospitais.

Como ela funciona?

A telemedicina ultrapassa as fronteiras da consulta on-line. Funciona para o controle do paciente, assegurando que ele não está com queixa alguma do ponto de vista clínico. Também permite a análise periódica de exames e a ampliação da rotina de acompanhamento individualizado. Desta forma, o médico detém uma ferramenta segura de monitoramento à distância nos intervalos entre as consultas presenciais essenciais.

Como será a telemedicina no mundo pós-pandemia?

Ela continuará sendo uma ferramenta crucial. A tecnologia é uma aliada para que o paciente possa ser acompanhado ainda mais de perto.

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