Telescópio Espacial James Webb é vitória da Ciência — e obra de arte

Quando foi lançado ao espaço no último Natal, o Telescópio Espacial James Webb (JWST) ainda inspirava ceticismo. Estava vivo na memória de quem acompanha as peripécias da Nasa o fiasco das primeiras imagens enviadas em 1990 por seu antecessor, o Hubble. Pois a visão estonteante do Cosmo divulgada nesta semana, gerada apenas 12 horas depois que o JWST começou a funcionar, mostra que correr riscos é fundamental para o avanço da Ciência.

O Hubble só começou a cumprir a promessa de oferecer uma visão inédita do céu, desimpedida da interferência da atmosfera terrestre, três anos depois do lançamento, à custa de vários consertos em pleno espaço. O JWST não poderia se dar ao mesmo luxo, pois não está na órbita terrestre, acessível a missões espaciais. Foi colocado a 1,5 milhão de quilômetros da Terra em órbita do Sol, protegido do astro por um escudo com fator de proteção solar 1 milhão, que permite a visão sem obstáculo do Cosmo e a manutenção da temperatura próxima do zero absoluto, exigida pelos equipamentos mais importantes para enxergar mais longe.

James Webb: Saiba quem consertou o telescópio quando tudo parecia perdido

O acúmulo de novas especificações técnicas e garantias de segurança adiou o início da operação por 15 anos e elevou o custo dos US$ 500 milhões inicialmente previstos em 1996 para US$ 9,7 bilhões, cifra que combina com a ambição astronômica do projeto. Seus espelhos de berílio folheado a ouro têm seis vezes a área de captação de luz do Hubble — e propiciam cem vezes o poder de visão. Graças à capacidade de captar radiação infravermelha, o JWST poderá, dizem os otimistas, enxergar até 13,5 bilhões de anos-luz de distância, processando luz emitida poucas centenas de milhões de anos depois do Big Bang e permitindo um salto no conhecimento sobre a origem do Cosmo.

James Webb: Novas imagens mostram pontos nunca antes vistos do universo

Basta lembrar que, antes do Hubble, ainda havia dúvida sobre a velocidade de expansão do Universo. Hoje conhecemos a aceleração precisa dessa expansão, atribuída a um campo energético desconhecido, batizado “energia escura”. Medimos a idade exata do Universo — 13,8 bilhões de anos. Também foi possível estudar em detalhes as manchas de Júpiter, as mudanças climáticas noutros planetas, confirmar a existência de buracos negros no centro das galáxias e até observar, em 2017, um objeto voador misterioso, até hoje não explicado, o Oumuamua.

As primeiras imagens do JWST, de nitidez e qualidade impressionantes, trouxeram o olhar mais distante já alcançado pela vista humana, para a luz de galáxias emitida há 13,1 bilhões de anos. A exemplo das vacinas contra a Covid-19 alcançadas em tempo recorde, são mais uma vitória da Ciência na luta para desbravar as fronteiras do conhecimento. Mais que isso, elas também são uma obra de arte. O retrato de um pedaço do céu do tamanho de um grão de areia, capaz de abrigar trilhões de galáxias, traz um recado profundo sobre a insignificância de todas as guerras, disputas políticas e vicissitudes terrenas que afligem a alma humana. O silêncio do Cosmo segue e seguirá indiferente a tudo isso — às vezes é preciso saber parar para ouvi-lo.

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