Tem ação da Americanas? Após queda dos papéis, o que fazer? Vale comprar na baixa? Veja a opinião dos analistas

Diante do tombo de mais de 77% das ações da Americanas na quinta-feira, com o anúncio de inconsistências contábeis na casa dos R$ 20 bilhões em seu balanço, os investidores que carregam esses papéis ou títulos de dívida da empresa em suas carteiras se questionam sobre o que fazer com os ativos.

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Da mesma forma, aqueles que olham a ação com preço descontado, podem estar se perguntando se não seria um bom momento para entrada no papel. Hoje, por exemplo, as ações da companhia apresentam recuperação na bolsa.

Para analistas, no entanto, o momento é de cautela para ambos os casos. Isso porque ainda não se tem todas as informações sobre o que de fato aconteceu com a empresa e qual será o impacto das inconsistências para a sua alavancagem e negociação de dívidas com os credores.

Diversos bancos e corretoras colocaram suas recomendações sobre a empresa em revisão, justamente na espera de maiores informações para avaliar os efeitos. Mas é claro que deve se levar em conta o perfil de cada investidor, seus objetivos e os riscos que se está disposto a correr.

Cautela é a melhor aliada

Entre os investidores que trincaram os dentes na quinta-feira, estava o cirurgião-dentista Thiago Andrade, de 35 anos. Ele investe nas Lojas Americanas desde 2022.

De início, Andrade aplicou R$ 15,8 mil, considerando o que avaliou como um bom "histórico da empresa" e também porque, segundo ele, naquele momento as ações estavam "bastante descontadas". Quando soube do rombo de R$ 20 bilhões anunciado nesta quinta-feira, porém, a reação não poderia ter sido diferente:

— Pensei que eu perderia tudo — declarou ele, que, até o momento, já teve o prejuízo de R$ 13 mil. Apesar disso, completou: — No momento não vou alterar nada (nos investimentos).

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Dessa forma, mesmo que o investidor esteja com calafrios ao ver o painel de ações da Americanas, o mais recomendado é esperar, assim como fez Andrade.

— Para quem já estava posicionado, o momento é de cautela e de não se desfazer da posição. Para quem não está em Americanas, não deve ser uma oportunidade, dado que há incerteza à frente. Ninguém ficou rico comprando esses eventos — disse o sócio e head de análise da Levante Investimentos, Enrico Cozzolino.

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Na mesma linha, o sócio-fundador da Nord Research, Bruce Barbosa, destaca que ainda é difícil fazer as contas dos impactos, pois só se sabe o topo do iceberg do problema que a Americanas irá enfrentar.

Segundo Barbosa, é esperado que a empresa tenha um aumento de dívida e passe a operar com margens ainda mais apertadas.

— Vai ser um período bem difícil para a Americanas, então é menor cautela. Quem tem, não vale a pena vender.

Para Cozzolino, aqueles que possuem debêntures da companhia devem ficar mais preocupados, já que estão comprando uma parte da dívida da empresa, que passa por uma crise em sua credibilidade.

— Para quem tem debêntures, deve ficar mais atento e olhar as cláusulas de garantia. As variações das taxas devem acontecer.

Papéis já vinham sofrendo

Em geral, os analistas não decretam o fim da Americanas. Segundo fontes disseram à agência Bloomberg, apesar do rombo, instituições financeiras não planejam acelerar o vencimento da dívida como poderiam, desde que a empresa receba um aumento de capital imediato.

— Esse tipo de dívida se resolve sentando numa mesa para acordar prazos, garantias e termos de aumento de capital, emissão de novas dívidas, de remuneração a taxas maiores das dívidas existentes — afirmou Cozzolino.

Vale lembrar que as ações da Americanas, assim como outras empresas do setor de varejo, já vinham sendo pressionadas ao longo dos últimos dois anos devido ao cenário macroeconômico de juros altos e inflação elevada, sem falar na competitividade com outros players estrangeiros.

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Após cair 77,33% na quinta-feira, os papéis fecharam a R$ 2,72, muito longe da máxima de R$ 122,90 atingida em agosto de 2020, segundo dados do TradeMap.

Na época, as empresas do setor expostas ao e-commerce surfavam na maior procura por compras online e em um momento de liquidez elevada e juros mais baixos no mercado.

— É um setor que, no atual momento de mercado, é muito afetado pela taxa de juros no país. Não é atrativo para investir em empresas varejistas no momento — destaca o CEO da Box Asset Management, Fabrício Gonçalvez.

Para os analistas, a tendência é que o mercado em geral olhe com maior atenção para os balanços de varejistas, ainda que não se possa dizer que as falhas encontradas na Americanas venham a ocorrer com outras empresas do setor.

Na dúvida, diversifique

Episódios como o da Americanas reforçam a velha máxima de diversificação na carteira, tanto em classes de ativos, como em setores e empresas, justamente a fim de evitar rombos como o visto nos papéis da varejista.

— Quem estava posicionado em Americanas e no varejo há algum tempo já estava em uma exposição de risco condizente. Por isso, é importante a diversificação de setores e empresas para mitigar na carteira total de investimentos, eventos como esse.

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Barbosa, da Nord, afirma que na dúvida e sem as condições de fazer todas as análises necessárias no momento de aportar os recursos, como é o caso de muitos investidores pessoas físicas, a diversificação é necessária.

— Se você não sabe o que está fazendo, melhor diversificar. Para quem faz um trabalho mais intenso de análise, a concentração é interessante, mas traz mais risco.