'Tem que todo mundo comprar fuzil', diz Bolsonaro em meio a crise institucional provocada por ele

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro voltou a estimular nesta sexta-feira (27) que a população se arme, no momento em que ele mesmo promove uma crise institucional entre os Poderes. "Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado", disse ele a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

O presidente ainda ironizou quem se opõe a comprar as armas. "Eu sei que custa caro. Daí tem um idiota que diz 'ah, tem que comprar feijão'. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar", declarou a apoiadores, pela manhã, em frente ao Palácio da Alvorada.

Bolsonaro tem feito declarações golpistas e sugerido que as eleições de 2022 podem não ocorrer, caso seja mantido o sistema de votação com as urnas eletrônicas —a PEC do voto impresso foi derrotada na Câmara.

Mais tarde, em Goiânia, o presidente disse que o Alto-Comando do Exército está "dedicado e preocupado" com o "futuro da pátria". Bolsonaro não explicou quais seriam as preocupações, mas afirmou que o Brasil vive momentos "não muito tranquilos".

"Cada vez mais posso dizer a vocês que muito me orgulha de ser comandante de todos vocês. E ter o Alto-Comando realmente dedicado e preocupado com futuro da nossa pátria", declarou Bolsonaro.

O presidente participou nesta sexta-feira da passagem de chefia do Comandante de Operações Especiais do Exército, em Goiânia. Ele ainda fará uma motociata com apoiadores na cidade nesta sexta-feira.

O Alto-Comando é formado pelo comandante do Exército, Paulo Sérgio de Oliveira, e pelos generais-de-exército (4 estrelas).

"O Brasil vive momentos não muito tranquilos, mas a certeza da existência daquele que tem acima de tudo a sua pátria conforta toda nossa nação", afirmou Bolsonaro no evento.

Em outro trecho do discurso, ele disse que o soldado brasileiro sempre esteve presente nos "momentos mais difíceis". "O que está acima de tudo é o destino da nossa nação."

Bolsonaro disse que há vontade "inabalável" de que a Constituição, a democracia e a liberdade sejam mantidas "a qualquer preço". "Sempre estivemos e estaremos dentro das quatro linhas da Constituição", afirmou.

Além de ministros do governo e militares, acompanhou a cerimônia o ex-ministro da Saúde e atual secretário de Estudos Estratégicos da Presidência, o general Eduardo Pazuello.

O presidente ainda tem convocado a população para atos pró-governo no feriado de Sete de Setembro. Ele disse no último dia 4 que pode usar "antídoto" fora das "quatro linhas da Constituição".

Os principais alvos das críticas de Bolsonaro são os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

As Forças Armadas estão no centro da crise institucional entre os Poderes no governo Bolsonaro. O presidente promoveu no último dia 10 um desfile de blindados em frente ao Palácio do Planalto horas antes de a Câmara rejeitar proposta de voto impresso, ato lido como tentativa de intimidar o Congresso.

Além disso, o ministro da Defesa, Braga Netto, defendeu a discussão sobre a mudança no sistema de votação, ampliando a crise.

Bolsonaro defende armar a população. Em 2019, ele sancionou lei que ampliou a permissão de posse de arma a toda extensão de uma propriedade rural.

O tema é um espinho para uma das bases aliadas mais fortes do presidente, a evangélica. Três pastores procurados pela reportagem, todos do pelotão bolsonarista, não quiseram falar sobre o assunto com a justificativa de que a pauta não era do interesse do segmento.

"Entendo que quem quer ter uma arma pra sua defesa pessoal não deve ser impedido pelo Estado, lógico que cumprindo a legislação e os controles", diz o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que assumirá a presidência da bancada evangélica em 2022.

"Mas entendo que, com um fuzil na mão de cada cidadão, vamos criar um problema contra a vida humana ainda maior do que os que já temos. O segmento entende que ele está falando para os armamentistas. Nós ignoramos. E valorizamos o que nos une, não o que nos separa."

As medidas de flexibilização no acesso às armas fizeram com que o Brasil atingisse, em dezembro de 2020, a marca de 2.077.126 armas legais particulares, 1 para cada 100 brasileiros, como mostrou o jornal Folha de S.Paulo.

Os dados fazem parte do anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que compilou os números de registros de armas nos sistemas do Exército e da Polícia Federal.

A conta inclui armas legais registradas por cidadãos, por atiradores desportivos, caçadores e colecionadores e armas registradas em nome de empresas, além das armas de uso pessoal de policiais, bombeiros e militares.

Não foram contabilizadas as armas que pertencem a instituições do poder público, que somam 359,8 mil.

Comparados aos de anos anteriores, os números apontam para uma escalada no acesso e na circulação de armas particulares no Brasil nos últimos anos.

No Sinarm, sistema de registro de armas da Polícia Federal, o número de armas registradas dobrou entre 2017 e 2020. Eram 638 mil registros de armas ativos em 2017, número que cresceu para pouco mais de 1 milhão em 2019 e atingiu a marca de 1,2 milhão em 2020.

​Enquanto o presidente estava em Goiânia, um grupo de indígenas pôs fogo em um caixão simbólico na frente do Palácio do Planalto, em protesto contra a proposta de marco temporal para a demarcação de terras, em julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal).

O ato ocorreu por volta das 11h desta sexta-feira (27) e sem confronto. Depois, os bombeiros apagaram as chamas, que podiam ser vistas praticamente por toda a Esplanada.

Nas redes sociais, Bolsonaro publicou vídeo do protesto. "Este tipo de gente quer voltar ao Poder com ajuda daqueles que censuram, prendem e atacam os defensores da liberdade e da CF [Constituição Federa]", escreveu.

Indígenas de todos os estados do país estão acampados em Brasília, neste semana, para protestar contra julgamento do julgamento do STF) que, segundo eles, pode manter as esperanças de ver suas áreas reconhecidas ou comprometer em definitivo o processo de demarcação de terras indígenas no país.

O mega-acampamento, chamado de Luta Pela Vida, reúne representantes de 176 povos, cada um com idioma e características próprias, de todos os estados do Brasil. Em alguns casos, nem sequer há comunicação entre eles, pois muitos dominam apenas a língua da própria etnia e não sabem falar português.

Pela terceira vez, o julgamento do STF sobre o marco temporal foi adiado na quinta-feira (28). A análise do caso pelos ministros deve ser retomada na próxima quarta-feira (1º).

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