Temas quentes da agenda política e social dão nova cara ao carnaval

Eduardo Vanini

Você pode não ter parado para pensar, mas política e carnaval combinam quase tanto quanto confete e serpentina. Na abertura não oficial da folia de rua no Rio, que rolou no primeiro domingo do ano, um gaiato participante fez sucesso ao sassaricar pelas ruas do Centro fantasiado de “fiscal de bloco”. Paramentado com um colete laranja, o rapaz notificava o público de acordo com algumas “infrações” previstas num papel levado por ele, entre as quais figuravam pautas que têm lugar cativo nos cortejos contemporâneos. “Apropriação cultural”, “gordofobia”, “purpurina não biodegradável”, “machismo” e “homofobia/transfobia” eram algumas.

“É um equívoco dizer que o carnaval é uma festa alienante”, afirma o historiador e professor Luiz Antonio Simas, autor de “O corpo encantado das ruas”. Ele lembra que a farra de Momo está, desde os tempos mais remotos, conectada aos debates políticos: “No século XIX, às vésperas da abolição da escravidão, o carnaval já repercutia muito esse assunto, com desfiles ligados à pauta abolicionista. O mesmo aconteceu nos anos 1980, com a redemocratização e o desmonte dos regimes militares”.

O que mudou, segundo ele, é que a internet e as redes sociais interferiram diretamente na farra. Se antes era uma festa velada, em que a máscara garantia o anonimato, “hoje a pessoa vai para os blocos para mostrar como foi, pelas redes sociais”. Logo, é natural que os assuntos que estejam em alta no ambiente virtual reverberem nos cortejos. “Até então, o carnaval repercutia apenas a política formal. Hoje, você tem as questões identitárias e de gênero fazendo parte desse repertório”, observa Simas.

Um dos casos mais notórios diz respeito ao machismo e nasceu no Rio, quando o Coletivo Não é Não! passou a distribuir, nos blocos, tatuagens temporárias com essa expressão. A ação contra o assédio começou em 2017 e já está em 16 estados.Cofundadora do Não é não!, a cineasta Barbara Menchise, de 28 anos, afirma que é importante desempenhar uma campanha dessas justamente no carnaval porque a festa também é um momento de contestação. “As mulheres precisam lutar para ocupar o espaço público com menos roupa sem sofrer assédio, diferentemente dos homens. Eles também estão com menos roupa e nem por isso entendemos que estão nos convidando a tocar os seus corpos”, diz, mencionando como a tatuagem gera uma identificação entre as folionas, no meio da multidão. “Quando você se perde dos amigos, olha para o lado e vê uma mulher com a tatuagem, sente-se mais segura.”

Até as marchinhas foram puxadas para a roda de debates momescos. Recentemente, alguns blocos aboliram de seu repertório músicas como “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão” e “O teu cabelo não nega”. No mesmo campo, o uso de fantasias consideradas ofensivas a determinados grupos sociais, frequentemente classificado como apropriação cultural e racismo, também entrou em xeque. É o caso de turbantes africanos usados por pessoas brancas e roupas femininas vestidas por homens que estereotipam as mulheres.

As indumentárias indígenas não ficaram de fora. “Quando vejo alguém pintar o rosto, colocar um cocar e dizer ‘mim veio da oca’ numa festa alegórica, me pergunto: ‘Se black face é racismo, por que se fantasiar de índio não é?’”, questiona a rapper, atriz e ativista indígena Katú, que já se posicionou sobre o tema em suas redes sociais. “Essas pessoas ainda alimentam uma indústria que se apropriou de nossos elementos culturais, como aconteceu com o famoso cocar nativo americano, que é comprado dentro de uma loja com etiqueta. Uma réplica barata que só mostra a falta de respeito, a apropriação e o racismo.”

Mas nem só da pauta identitária vive o carnaval contemporâneo. Em tempos de Greta Thunberg, a questão ambiental já se faz presente nos blocos há alguns anos, na forma de glitter biodegradável e confete de folhas secas. Quem entende do assunto garante que essas iniciativas podem realmente impactar na natureza, já que são milhões de pessoas usando determinados produtos num espaço de tempo. “O microplástico, como a purpurina, é tão pequeno, que pode atravessar membranas celulares, além de ser absorvido por organismos que estão no início da cadeia alimentar, como os plânctons”, comenta a pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz Rachel Ann Hauser-Davis, especialista em contaminação ambiental.

Rachel defende que o debate de um assunto como esse em meio à festa mais popular do Brasil é algo a ser incentivado e cita um clássico para dimensionar o poder do carnaval: “As campanhas pelo uso de camisinha nessa época mostram a força do coletivo. As pessoas estão nas ruas para se divertir, mas se você consegue embutir uma mensagem ali, as chances de absorção daquele conteúdo são altas.”