Temendo a demissão, moradores do RJ se desdobram para driblar atrasos nos trens

Broncas no emprego e más condições de viagem têm desgastado trabalhadores que dependem da SuperVia (REUTERS/Ricardo Moraes)
Broncas no emprego e más condições de viagem têm desgastado trabalhadores que dependem da SuperVia

(REUTERS/Ricardo Moraes)

Por que você tem que ler essa matéria: Os atrasos nos serviços de trens, operados pela concessionária SuperVia, têm aumentado o medo dos moradores do Rio de Janeiro de perder o emprego. Para driblar a situação, há quem saia de casa quase 3h antes, quem comprou uma moto – mesmo não achando seguro – e quem desistiu do trabalho por questões de saúde mental. O Yahoo conversou com esses trabalhadores; na matéria, também explicamos alguns motivos para a baixa qualidade do serviço e resumimos o que os candidatos ao governo do estado prometem para resolver tais problemas.

É por volta das 5 horas da manhã que a agitação começa dentro da casa de Bárbara Lavadores, residente de Inhoaíba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Antes mesmo do dia clarear totalmente, a carioca já está de pé, se arrumando para enfrentar mais um dia de aperto em direção ao trabalho.

Dependente do serviço de trens urbanos para chegar a São Francisco Xavier, Bárbara tranca o portão de casa às 5h20 e caminha ao longo de dois quilômetros até a van que a deixa na estação de Campo Grande, às 5h55. De lá até seu destino, torce sempre pela mesma coisa: que o trem opere com normalidade e sem atrasos - esperança essa que, na maioria das vezes, é em vão.

“Em nenhum dia dessa semana eu cheguei tranquila [no trabalho]. Eu teria que estar lá às 8h, mas chego às 8h20, 8h30, sempre atrasada. Isso porque já teve vez em que cheguei às 10h”, lamenta, relembrando o percurso que durava cerca de 1h10 antes da pandemia e agora demora, no mínimo, 2h10 para ser concluído dentro do trem.

Desde 1998, a responsável por operar os trens na Região Metropolitana do Rio de Janeiro é a SuperVia, empresa cujo contrato de concessão com o estado vai até 2048. Em recuperação judicial, a concessionária enfrenta duras críticas de passageiros devido às condições precárias dos trilhos, falta de segurança nos vagões e, claro, atrasos constantes.

No Twitter, Bárbara se junta a uma legião de trabalhadores que expõem publicamente o drama de ter que ‘se virar nos 30’ para bater ponto no horário certo e escapar de uma bronca - ou até mesmo de uma demissão. A sorte da analista de departamento pessoal são seus chefes que a “deixam muito à vontade” com essa questão. Infelizmente, a realidade não é a mesma para Edgar Moura.

Aos 41 anos, o morador de Mesquita, na Baixada Fluminense, define que chegar no trabalho, em Botafogo, “virou um calvário”. O caminho que concluía facilmente em torno 45 minutos no trem agora leva cerca de 2h30. Como também depende de ônibus, sai de casa às 5h30 para não se atrasar, mas ainda assim enfrenta dificuldade em chegar às 8h na empresa. A solução encontrada para fugir do caos e manter a carteira assinada foi abrir mão das economias e comprar uma moto.

“É uma medida drástica, não estava prevista para agora. Até porque eu acho perigoso, mas acabei comprando pelo desespero de ter meu trabalho cortado. Porque pode ser qualquer empresa, ela não quer saber se você é um bom funcionário, se mora distante. Ela quer produção”, destaca.

Por conta dos atrasos, Edgar foi chamado à atenção pelo RH da empresa mais de uma vez, ainda que, segundo ele, outras pessoas da área sofram com o mesmo problema. “É muito ruim você ser cobrado e se sentir impotente. E ainda ouvir que tem fulano precisando da tua vaga se você não quer trabalhar. Você chega no trabalho já cansado e tem que aturar pessoas te julgando, porque chega 30 minutos atrasado, mas elas não sabem o que você passou até ali nas três horas anteriores”.

Agora, nos dias em vai de moto, Edgar sai de casa às 6h50 e chega por volta das 7h40 no trabalho – uma economia de mais de duas horas. Entretanto, não é sempre que ele opta por ir dirigindo. Em dias de chuva, por exemplo, evita se arriscar, mas na certeza de que o serviço de trens estará ainda pior do que de costume. “Para chegar em casa e descansar é a mesma dificuldade. Eu saio às 18h [do serviço] e desde janeiro não vou para a academia, porque não chegaria lá nem 20h. Aí você começa a viver somente para trabalhar”.

Dificuldades históricas

Patrão, o trem atrasou/ Por isso estou chegando agora/ Eu trago aqui um memorando da Central/ O trem atrasou meia hora/ O senhor não tem razão pra me mandar embora!

Composta em 1940, a música ‘O trem atrasou’ se mantém atual após mais de oito décadas, já que bastam poucos minutos de pesquisa nas redes sociais para encontrar posts de trabalhadores desesperados por uma melhoria nas operações. “@SuperVia_Trens, pelo amor de Deus, preciso chegar no serviço, está insustentável. @claudiocastroRJ ajuda nós, vou ser demitido por conta de transporte público”, escreveu um internauta, marcando os perfis da concessionária e do atual governador.

Outra trabalhadora sofre o mesmo drama. Funcionária de uma agência do setor bancário, ela admite que só tem conseguido manter “a rotina de atrasos”, inadmissível na empresa, por conta da ajuda de alguns amigos. “Mas o medo de todos os dias é real perder o emprego por falta de responsabilidade da Supervia”, desabafa.

Mas por que o serviço de trens anda tão ‘mal das pernas’? Em junho de 2021, a concessionária divulgou detalhes sobre o pedido de Recuperação Judicial, que visa superar a crise financeira provocada pela pandemia de Covid-19. O motivo seria a redução de mais de 102 milhões de passageiros até 2 de junho de 2021, o que resultou na perda de R$ 474 milhões. “A recuperação total do fluxo de passageiros está prevista apenas para 2023”, pontuou.

Antes de definir um ‘culpado’ pela má qualidade do serviço, Hostilio Ratton, doutor em engenharia de transportes e professor da pós-graduação da COPPE/UFRJ, alerta que é importante entender quem faz o que. “O responsável por investimento é o estado e a responsável pela manutenção é a SuperVia. Tudo que tem que ser recolocado é manutenção, como um trem que quebrou e tem que comprar outro igual. Tudo que tem que comprar a mais é investimento, como novos trens diferentes ou colocação de ar condicionado”.

Historicamente, alguns outros fatores ajudam a explicar as dificuldades nos serviços ferroviários do Rio de Janeiro, como o rápido e intenso processo de urbanização pelo qual o Brasil passou a partir dos anos 1950. O professor também cita, como exemplo, o preço igual das passagens para quem viaja tanto longas quanto pequenas distâncias e o deslocamento, praticamente no mesmo horário, de muitas pessoas na mesma direção.

“Às 4h coloca o trem de Japeri para funcionar, que chega na Central [do Brasil] às 6h. Ao voltar para Japeri, leva mais duas horas. Ou seja, demora quatro horas para fazer a volta completa. Quando chega lá de novo [em Japeri] o horário de pico já acabou. Se a cada 10 minutos sai um trem, são necessários 12 trens que vão fazer uma só viagem de manhã e uma a tarde, porque vai haver uma ociosidade muito grande”, explica.

Soma-se a isso o fato de que, se são 12 trens, são 12 equipes diferentes que trabalham. Há ainda custo com energia, gastos comuns da operação e investimentos. “Às vezes, nem há recursos do estado para comprar os trens que precisa. Tem uma série de problemas que levam o serviço a ser ruim e a população que acaba sendo penalizada”.

Saúde mental em xeque

Quem pensa que os transportes não influenciam na qualidade de vida dos moradores, mal imagina que Bárbara recebeu uma orientação de sua psicóloga para evitar ao máximo o aperto. Por isso, vai até Campo Grande em vez de pegar o trem em Inhoaíba, onde mora, para garantir a viagem sentada. “Eu tenho crise de ansiedade e síndrome do pânico e isso se agravou com o estresse a ponto de eu desmaiar e vomitar dentro do trem. Meu psicólogo falou para tentar não ir em pé para evitar isso”, revela.

Quem também chegou no limite foi Carla Caroline. Sem conseguir suportar a rotina de 12 anos pegando trem rumo ao centro, a moradora de Bangu, zona oeste do Rio, decidiu não esperar pela demissão e sim tomar a iniciativa de largar o emprego.

“Por mais que eu saísse cedo de casa, nunca chegava no horário. É muito cansativo, as broncas [no trabalho] eram bem frequentes”, comenta.

O estresse provocado pelos atrasos, as vezes em que presenciou assaltos em outros vagões e a dificuldade de voltar para casa fizeram com que a jovem de 29 anos decidisse abrir uma loja online de moda fitness. “Minha saúde mental ficou bem desestabilizada e agora, só o fato de não ter que sair de casa para pegar transporte público, fico bem mais aliviada”, diz.

Ao ser questionada sobre aceitar um emprego novo no centro do Rio, Carla é firme: só se não tiver que pegar trem. “Se for o único meio de transporte, não vou. Porque eu sei que vai me desmotivar”.

O que diz a SuperVia?

O Yahoo Notícias entrou em contato com a concessionária, que ofereceu o seguinte posicionamento:

“A SuperVia vem realizando estudos periódicos com o objetivo de adequar toda a grade de horários operacionais com a atual realidade do sistema. No dia 19/09, os passageiros do ramal Belford Roxo passaram a contar com uma viagem expressa, partindo da estação Belford Roxo com destino à Central do Brasil, por volta das 6h20. Baseada em estudos de demanda, a SuperVia transformou um trem parador em um trem expresso nessa faixa de horário, que seguirá sem paradas em nove estações. As melhorias no sistema ferroviário da SuperVia vêm ocorrendo, mas é um processo que leva tempo”.

O que propõem os candidatos ao governo?

  • Cláudio Castro (PL – candidato à reeleição)

Em sabatina promovida pela Veja, disse que considera a possibilidade de decretar a caducidade (anulação) do contrato com a SuperVia. Em ocasiões passadas, comentou que pensou em rever a concessão e afirmou ter renegociado “para baixo os reajustes”.

  • Marcelo Freixo (PSB)

Promete um pacote de investimentos públicos “para melhorias das estações, compra de novos carros, modernização da sinalização, isolamento completo da via e retomada de linhas expressas” em seu plano de governo. Também quer retomar “o fluxo de investimentos públicos em mobilidade no estado, a partir da articulação com o Governo Federal para investimento prioritário nos trens da SuperVia e na construção da Linha 3 do Metrô”.

  • Rodrigo Neves (PDT)

Propõe a modernização do sistema ferroviário e sugere “encampar provisoriamente a SuperVia”, de forma a retomar a concessão e permitir que o estado assuma a administração do serviço. Em agenda de campanha, também sugeriu “retomar os trens expressos nos ramais de Santa Cruz e Japeri em todos os horários. Vamos garantir banheiros para mulheres e melhorar as estações com acessibilidade, para os idosos e pessoas com deficiência, e garantir a segurança, que é uma tarefa básica do estado para que não haja roubo da fiação dos trens e a população sofra”.

  • Paulo Ganime (Novo)

No plano de governo, faz promessas como “revisar e reequilibrar os contratos de concessão vigentes”, como o da SuperVia, “fortalecer as agências reguladoras estaduais”, integrar a bilhetagem e harmonizar os horários entre os transportes na região metropolitana do Rio. Também quer “converter para metrô” o trem de Pavuna até Belford Roxo, conforme disse em agenda de campanha.

  • Juliete Pantoja (UP)

Sugere “administração estatal e com controle popular dos trens e metrôs”, segundo plano de governo. Ou seja: acabar com as concessões públicas da SuperVia, de forma que o estado assuma o controle dos transportes ferroviários. Também pretende aumentar a malha ferroviária, reduzir os preços das passagens e implementar o Bilhete Único Intermodal e Intermunicipal.

  • Cyro Garcia (PSTU)

Defende a estatização da gestão de todos os transportes públicos. "A nossa proposta é a reestatização de todas as empresas que foram privatizadas nos governos anteriores: Supervia, Metrô, Barcas. (...) Eu encamparia os ônibus também e criaria uma empresa estadual para os transportes coletivos", explicou em agenda de campanha.

  • Eduardo Serra (PCB)

Promete a expansão de transportes sobre trilhos – como os trens –, e a reestatização da SuperVia. No plano de governo, também pontua que “os transportes funcionarão sob controle popular, exercido pelos conselhos, e estarão integrados ao planejamento urbano”.

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