Temer tenta juntar forças diante de tempestade política no País

Por Carola SOLÉ
Temer discursa no Palácio do Planalto, em Brasília

A crise no Brasil viveu um momento de tranquilidade nesta sexta-feira diante das batalhas que nas próximas semanas poderão decidir o destino do presidente Michel Temer, que enfrenta denúncias de corrupção.

O presidente tenta dar um tom de normalidade em meio à tempestade e, na quinta-feira à noite, destacou os avanços do trabalhos legislativos, à espera dos debates sobre as polêmicas reformas do sistema previdenciário e da legislação trabalhista.

"O Brasil não parou e nem vai parar. Continuamos avançando e votando matérias importantíssimas no Congresso Nacional", disse o chefe de Estado em um vídeo postado em suas redes sociais, na terceira aparição desde o início da crise há uma semana.

Visivelmente tenso, Temer enfatizou no breve vídeo que a Câmara dos Deputados aprovou sete medidas provisórias e comemorou por essa "expressão do compromisso de superar a crise" que explodiu no dia 17 de maio, com a revelação de uma gravação em que o presidente parece dar o aval para a compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

Temer se absteve de fazer qualquer referência direta ao contexto de agitação política e social que rodeou esses debates, dentro e fora do Legislativo.

Dezenas de milhares de pessoas convocadas por sindicatos e partidos de esquerda exigiram, na quarta-feira em Brasília, a renúncia de Temer e a retirada de suas medidas de austeridade. Grupos de jovens provocaram destroços em vários Ministérios, dando lugar a uma grande intervenção policial.

Dos cerca de 40 feridos na manifestação, pelo menos um foi de bala.

Temer ordenou o envio do Exército, mas na sexta-feira revogou a ordem diante da onda de críticas recebida.

A ONU criticou nesta sexta a repressão e pediu ao Estado brasileiro que "promova o diálogo para proteger o direito de se manifestar pacificamente".

- Entre as reformas e o TSE -

Temer aposta recuperar a iniciativa mediante o avanço da agenda de reformas, mas dentro de sua própria base aliada as discussões a portas fechadas tratam sobre sua eventual sucessão.

"O movimento que ganha força contra Temer também é contra a agenda de Temer. Tem um esgotamento do governo Temer. Era um governo de conveniência e de transição", disse à AFP Daniel Vargas, professor de Direito Público na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Temer assumiu o poder há um ano prometendo realizar uma série de reformas de austeridade para retirar o Brasil da pior recessão de sua história.

Mas com a popularidade em mínimos históricos, era apenas de 10% antes desta crise, e acusado pelo Ministério Público (MP) de obstrução da justiça e de corrupção, poucos no Brasil acreditam que ele conseguirá sobreviver muito mais.

Embora já existam 16 pedidos de impeachment contra Temer e uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), muitos no Congresso apontam para uma saída institucional de Temer.

Poderia acontecer por meio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que a partir de 6 de junho examinará uma denúncia que poderá anular o resultado das eleições de 2014, nas quais foi eleita a chapa Dilma-Temer.

Mas no entorno da presidência começa a soar com força a possibilidade de que esse julgamento seja mais devagar do que o esperado, se algum dos juízes do TSE pedir para parar o julgamento e revisar o expediente.