'Temos que aprender a conviver com isso', diz governador sobre repetidas catástrofes climáticas em SC; dois morreram e há um desaparecido

Um volume de chuva inesperado que atinge a região Sul do país deixou várias cidades da região da Grande Florianópolis debaixo d'água nesta quinta-feira, a exemplo do que também acontece no Paraná. O cenário é de resgates aéreos em telhados, pessoas ilhadas, estradas fechadas e áreas inteiras inundadas. Até agora, o temporal provocou a morte de pelo menos duas pessoas: um homem, que morreu eletrocutado durante enchente na cidade de Palhoça, e outro que acabou soterrado após um deslizamento de terra em Brusque. Um militar do Corpo de Bombeiros, que participava do trabalho de resgates durante a manhã, identificado como Cabo Tiago José Teodoro, desapareceu ao ser levado pela força da correnteza no Rio Itajaí, que transbordou, e autoridades já admitem que há pouca chance de que seja encontrado com vida.

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Pelo menos 882 pessoas estavam desalojadas até o último boletim da Defesa Civil. O estado está em situação de emergência. As cidades mais atingidas foram Araquari, Joinville, São Bento do Sul, Luiz Alves, Corupá, Guaramirim, Rio dos Cedros, Campo Alegre, Santo Amaro da Imperatriz, Benedito Novo, Palhoça, Rancho Queimado, São José, Águas Mornas, Antônio Carlos, Armazém, Anitápolis, Brusque, Timbó e São José, Schroeder. Aulas foram suspensas em escolas públicas e universidades, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Gabriel Salomão, de 26 anos, é estudante de Engenharia de Telecomunicações no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), e teve as aulas suspensas. Ele é morador de São José, um dos municípios mais castigados, vizinho a Palhoça. O jovem diz que o sentimento é de insegurança, e conta que os transtornos começaram ainda na noite de quarta-feira.

– Nós estamos com as aulas suspensas por conta dos estragos que a chuva fez. Não há rotas seguras pra sair da região, nem para chegar. A estrada está fechada em Garuva e no Morro dos Cavalos (Palhoça). Ontem foi um dia de desespero. Na minha rua alagou, passei a noite em claro com medo de o meu carro ser levado – narra.

Ele critica a postura do poder público e relata o drama de uma amiga, que pede para não ser identificada na reportagem.

– Minha amiga e os três filhos autistas, além de uma com paralisia infantil, estão desabrigados. São pessoas próximas, que amamos, e estão morando em escolas porque a prefeitura de Palhoça não forneceu hotéis como em Florianópolis, por exemplo.

De acordo com o Climatempo, medidores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registraram, entre 4h da manhã de quarta-feira (30), e 4h da manhã de quinta-feira (1), acumulados de 279,6 mm de chuva em São Pedro de Alcântara, 255,7 mm em São José, 231,4 mm em Palhoça, 190,2 mm em Major Gercino, 188,8 mm em São João Batista , 186 mm em Garuva, 183,7 mm em Florianópolis, 179,8 mm em Antônio Carlos.

Segundo a Defesa Civil de SC, no acumulado dos últimos quatro dias, dez municípios do estado registraram volumes de chuva acima da média histórica, de 353,6mm no período. Santo Amaro da Imperatriz lidera a lista com 507,8mm.

O temporal causou o bloqueio de várias estradas e o rompimento de uma adutora da Casan, em Florianópolis. A companhia afirmou que as equipes estão trabalhando no local, mas, há dificuldades por causa da cheia. Com isso, o abastecimento de água está prejudicado em Palhoça, São José, Biguaçu e Florianópolis. Também há problemas de captação que prejudicam os municípios de Águas Mornas, Santo Amaro da Imperatriz, Angelina e Antonio Carlos.

Chuva diminui, mas risco segue alto

O governador Carlos Moisés (Republicanos), em coletiva de imprensa nesta quinta-feira, disse que há previsão de que as chuvas diminuam, mas que os riscos continuam altos no estado.

– A chuva se concentrou basicamente na região da Grande Florianópolis, no Vale do Rio Tijucas. Foram precipitações muito acima da média prevista para esse mês. Em algumas regiões, choveu até seis vezes mais do que normalmente choveria – disse o governador – A nova previsão é alvissareira, no sentido da redução do volume de chuvas, mas deixa um alerta para o risco de novos deslizamentos de terra, por conta das chuvas isoladas que estão previstas para os próximos dias. Então, não teremos grande volume no acumulado das 24h, mas podemos ter precipitações intensas e, com o terreno encharcado, os riscos de novos movimentos de massa existem. Deixo o alerta para aqueles que puderem evitar o deslocamento em rodovias.

Moisés afirmou ainda que as catástrofes causadas pela natureza no estado são recorrentes, e que as autoridades e a população precisam aprender a conviver com elas.

– A Defesa Civil está estruturada nos municípios e no estado, e existem várias ações de conscientização, porque temos um índice de reincidência muito grande. Choveu, as cidades já sabem que vão ter alagamentos – disse. – Somos um estado que tem recorrência em catástrofes e eventos da natureza e temos que aprender a conviver com isso. A gente mitiga o risco, mas não o elimina completamente. Tanto que já tivemos dois óbitos e talvez já tenhamos até um terceiro, por conta desse evento.

'Novo normal' no planeta

Também no Sul, no estado do Paraná, um deslizamento de terra na BR-346, altura da cidade de Guaratuba, deixou dois mortos e o Corpo de Bombeiros estima que até 30 pessoas possam estar desaparecidas. Dezenove famílias procuraram a polícia em busca de informações sobre familiares que passavam pelo local e estão desaparecidas.

O GLOBO conversou com o professor do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo, que explica que situações como as vistas no Sul estão se configurando como um "novo normal" no planeta.

-- Os eventos climáticos extremos estão aumentando tanto de intensidade quanto de frequência, no mundo todo. Essas chuvas mais fortes que o normal no Sul fazem parte desse quadro. Não precisamos mais nos surpreender com essas chuvas, porque isso vai se tornar o novo normal do clima. Chuvas muito intensas, concentradas e causando inundações -- explica Artaxo, que destaca que, do outro lado dos eventos extremos, os modelos climáticos fazem previsão de secas mais intensas, o que deve afetar mais a região central do Brasil.