‘Temos que evitar o pior e nos preparar para o inevitável em relação à crise climática’, diz vice-presidente da Comissão Europeia

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SANTIAGO — Com certo otimismo, Frans Timmermans, vice-presidente executivo da Comissão Europeia, diz estar empenhado em chegar a um “acordo que garanta a maior ambição possível” na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-26), que começa no domingo, em Glasgow, na Escócia. “É verdade que a ação global sobre o clima nem sempre deu grandes passos, mas estamos vendo alguns passos significativos, afirma em entrevista ao jornal El Mercurio, do Grupo de Diarios América (GDA). “Vai ser difícil, mas o preço de não agir custaria muito mais caro”.

Entre as metas que a UE vai defender está a limitação do aquecimento global em 1,5ºC, que “continua a ser uma possibilidade realista”, algo que era uma aspiração do Acordo de Paris, onde o compromisso era limitar o aquecimento global a menos 2ºC. “Os países, e especialmente os grandes emissores, devem estabelecer metas nacionais alinhadas com esse objetivo. O Acordo Verde faz exatamente isso na União Europeia”, diz.

Recentemente, você pediu à China, o principal emissor global de gases causadores do efeito estufa, maior clareza sobre seus objetivos. Quanto do sucesso da cúpula depende das ações de Pequim em particular?

É verdade que o papel da China é muito importante. Atualmente, o país é responsável por cerca de 27% de todas as emissões globais, em comparação com cerca de 15% dos Estados Unidos e 8% da UE. Os objetivos já anunciados são passos positivos: o fim do financiamento do carvão, uma data para atingir o máximo de emissões e uma meta de neutralidade climática até 2060. Esses passos me fazem pensar que a China quer contribuir para o sucesso da conferência de Glasgow e assumir um papel de liderança global, assim como fez em Paris. Estamos estudando os detalhes da última proposta que fornece mais dados sobre como eles planejam atingir esses objetivo. Passar das palavras aos atos é essencial, e isso vale para todos os países.

E as outras potências? A China é o primeiro emissor, mas não o único: Estados Unidos, Índia, Rússia, Japão e Alemanha, principal economia do bloco, também são importantes emissores.

Os principais emissores precisam adaptar suas economias e caminhar em direção à meta de zerar emissões líquidas até meados do século. Para a União Europeia, esta não é apenas uma orientação política, já é uma exigência legal. A nossa Lei do Clima prevê que a UE seja neutra para o clima até 2050 e que reduza as suas emissões em 55% até 2030. Desde que a UE anunciou as suas metas, no final de 2019, assistimos a algumas dinâmicas realmente positivas. Vários países que representam mais de 60% do PIB mundial se comprometeram com emissões zero.

Agora, a questão crucial é como ir das palavras às ações. Para que a UE reduza as suas emissões em 55%, é preciso uma enorme aceleração dos nossos esforços em todos os setores da economia. É por isso que apresentamos um conjunto de treze propostas legais para garantir que essa meta seja cumprida até 2030. Outros grandes emissores enfrentam um desafio semelhante. O estabelecimento de metas ainda é relativamente fácil; o difícil é introduzir mudanças na economia e na sociedade para alcançá-las. Portanto, as políticas que todos aplicarem para realmente alcançar seus objetivos determinarão o sucesso do esforço global contra a crise climática.

Uma das prioridades da presidência da COP-26 é encontrar uma forma de financiar as medidas necessárias para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e conter o aquecimento global. O que propõe a UE a este respeito?

Esta é uma das questões-chave da cúpula de Glasgow. Os países desenvolvidos devem eliminar a lacuna no financiamento da luta contra as mudanças climáticas. A UE já aumentou a sua contribuição. Em minhas viagens e reuniões, apelei a outras nações desenvolvidas para aumentarem seus recursos nesse sentido. Também estou convencido de que devemos garantir que esse financiamento vá para esforços de mitigação e adaptação dos efeitos da atual crise climática. Muitos dos países mais vulneráveis do mundo já estão enfrentando seu impacto e devemos ajudá-los a se adaptar a essa realidade.

A UE está interessada em cooperar em questões climáticas na região, por exemplo, para ajudar os seus países a alcançarem a meta de emissões zero?

É importante estudar o alinhamento dos fluxos de investimento com as ambições climáticas, a transição energética e, em particular, a promoção do hidrogênio verde e da silvicultura, assim como uso da terra e agricultura sustentáveis. A nossa ideia de cooperação futura seguirá os três pilares principais do Acordo Verde europeu: alterações climáticas, perda de biodiversidade e economia circular.

Desde 2017, a UE apoia os países da América Latina no âmbito do programa Euroclima +. O programa, que conta com cerca de 55 projetos, acompanha os países latino-americanos no fortalecimento de sua governança climática e na formulação e implementação de políticas climáticas. Também apóia a inclusão da sociedade civil e a integração da perspectiva de gênero e a participação de grupos vulneráveis nas medidas relacionadas às políticas climáticas. Estamos agora trabalhando em um novo programa que terá como base as experiências positivas com o Euroclima +, mas também cobrirá o Caribe. Nosso novo orçamento prevê 3,4 bilhões de euros (cerca de US$ 3,9 bilhões) para a região como um todo, e a transição ecológica será a primeira prioridade desse orçamento.

A UE estaria interessada em apoiar programas de incentivos fiscais, financeiros ou mesmo programas de conversão de dívidas na América Latina em troca de esses países implementarem medidas concretas de descarbonização?

Não posso dizer muito sobre as possibilidades de conversão da dívida, uma vez que não se trata de uma questão da Comissão Europeia, mas sobretudo dos Estados-membros da UE. Uma coisa que fizemos e que teve muito sucesso foi a combinação de fundos públicos e investimentos do setor privado. Foi utilizada, por exemplo, para apoiar a criação da usina termossolar de concentração do Cerro Dominador, no Chile. Os fundos públicos atuam como uma alavanca para mobilizar financiamento privado extra e, assim, aumentar o impacto e a eficácia desses fundos. Estamos trabalhando para ampliar esse procedimento para que abranja toda a região.

Especialistas e organizações alertam sobre as consequências sociais do aquecimento global, como migração ou mesmo conflitos armados na disputa por recursos naturais: quão urgente você considera essas questões e como elas podem ser tratadas na UE e na COP-26?

Eles são extremamente urgentes. Se não agirmos agora, estou muito preocupado que nossos filhos e netos declarem guerras por causa da água. Também está claro que pessoas mais pobres e vulneráveis sofrerão o impacto das consequências da nossa inércia, na Europa e em todo o mundo. É por isso que o Acordo Verde também é uma estratégia social, com financiamento para ajudar na transição em regiões de carvão e fundos para ajudar famílias de baixa e média renda a isolar suas casas ou investir em painéis solares para produzir sua própria energia.

E é também por isso que a União Europeia está ajudando, em primeiro lugar, os países vulneráveis de todo o mundo, através do financiamento na luta contra as alterações climáticas e da assistência técnica, tanto para mitigar as alterações climáticas como para que os governo se adaptem às mesmas; temos que evitar o pior e também nos preparar para o inevitável. Além disso, a UE contribui de forma consistente para fazer com que as vozes destes países sejam melhor ouvidas nas Nações Unidas, graças, por exemplo, à nossa cooperação com a High Ambition Coalition (HAC). O combate à crise climática é um esforço global que exige o esforço de cada um de nós.

*O Grupo de Diarios América (GDA), ao qual O GLOBO pertence, é uma importante rede de meios de comunicação fundada em 1991, que promove os valores democráticos, a imprensa independente e a liberdade de expressão na América Latina através do jornalismo de qualidade

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