Tempestade: Em Petrópolis, 61 ocorrências, como deslizamentos e inundações, foram registradas

Gustavo Goulart
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Funcionária da prefeitura limpa entulho deixado em ponte com a força das aguas durante a chuva

PETRÓPOLIS — Um dia após a primeira tempestade do ano, moradores da Região Serrana se recuperam dos estragos causados. A Defesa Civil da prefeitura de Petrópolis registrou 61 ocorrências relativas às chuvas, que também atingiram outros municípios próximos na noite de quinta-feira (2). Os principais problemas foram os deslizamentos de terra, inundações de rios e interdição de imóveis, mas nenhuma morte ou indicente grave foi registrada.

A maioria dos casos foi de deslizamento de terra, segundo o coronel Paulo Renato Vaz secretário municipal de Defesa Civil. Entre as ocorrências estão também inundações de rios, quedas de árvores e a interdição de dez imóveis, entre eles um prédio com seis apartamentos em Pedro do Rio, duas casas à sua frente, uma residência no bairro Alto da Serra e outra em uma comunidade em Fragoso. Não houve registro de acontecimentos graves.

A Defesa Civil permanece em estado de alerta por causa da previsão de mais chuvas até sábado. Na quinta-feira, em quatro horas, os pluviômetros da Defesa Civil marcaram quase 200mm de chuva, o que equivale a quase sete vezes o previsto para o dia. Segundo a prefeitura, sirenes da Rua 24 de Maio (abrangendo a Rua Nova e Morro do Estado) foram acionados às 17h05m. Um ponto de apoio para receber moradores foi montado na Escola Municipal Augusto Meschick, que permanece aberto.

Casas interditadas

O caso de maior complexidade foi o que resultou na interdição de um prédio com seis apartamentos na Rua Vereador Carlos Canedo, em Pedro do Rio. Quatro famílias estavam no prédio, assim como os moradores de duas residências à sua frente, quando uma galeria de águas pluviais que passa entre elas se rompeu causando o alagamento das duas casas e a desestabilização do terreno. A prefeitura disse que agentes da Secretaria de Assistência Social acompanharam técnicos da Defesa Civil durante a interdição dos imóveis e fizeram o cadastramento das famílias.

Uma das moradoras afetadas é Ana Maria Bordignão de Sena, 70 anos, que reside há seis anos num apartamento no térreo do edifício. Seu imóvel foi invadido pela enxurrada e ela perdeu vários objetos, entre eles uma geladeira que estava financiada e ainda não tinha sido paga.

— Não é a primeira vez que isso acontece. Há cerca de dois anos, essa galeria também entupiu e se rompeu. Perdi tudo que eu tinha em casa. Não sei como vou fazer para comprar uma outra geladeira. Sou aposentada e ganho apenas um salário mínimo do INSS. É um absurdo fecharem essa galeria e ao mesmo tempo deixar aberta no alto do morro. Jogam lixo, arbustos e a galeria entope sempre — lamentou ela, que vai morar com um irmão enquanto aguarda a prefeitura decidir qual assistência dará, se através de aluguel social ou de uma nova moradia.

Na frente de seu imóvel, que é alugado por R$ 400 ao mês, mora sua filha, Monique de Sena, de 33 anos, com um filho de sete anos. A casa dela também foi alagada pela água e muitos objetos também foram danificados. Na manhã desta sexta-feira, Ana Maria ajudava a limpar a casa da filha, que também é alugada.

O proprietário dos imóveis (tanto do prédio como das duas residências em frente), Julimar Lara, de 46 anos, esteve no local na manhã desta sexta-feira para ajudar as famílias a retirar seus pertences.

— Isso aqui nunca foi uma área de risco. Há 40 anos que existem os imóveis e nunca houve qualquer problema. Em 2011, quando aconteceu aquela tragédia com mais de 800 pessoas mortas e muitas ainda desaparecidas, nada aconteceu aqui. Agora é esperar a prefeitura abrir a galeria vê se tem algo entupindo-a. E também esperar mais uma vistoria da Defesa Civil para saber se os moradores poderão voltar para suas casas — disse Lara.

Vizinha das construções interditadas, a cozinheira Luciana Sabino, de 40 anos, sabe muito bem as consequências de uma enxurrada. Na manhã desta sexta-feira, ela foi prestar ajuda aos moradores e contou que em 2011 morava na localidade de Areal e teve sua casa invadida pelas águas da chuva destruindo todos os seus móveis e eletrodomésticos.

— Sei muito bem o que é isso. Tinha duas crianças naquela época e perdi tudo na minha casa. Desde então nunca mais morei em regiões baixas. Sempre em áreas elevadas como aqui em Pedro do Rio, onde aluguei uma kitnet.

Ações de contenção

A prefeitura informou que 200 pessoas trabalham desde as primeiras horas da manhã dando continuidade às ações que começaram na tarde de quinta-feira. Segundo o Executivo de Petrópolis, o trabalho de limpeza de vias começou logo após as chuvas cessarem. Equipes da Defesa Civil e da Assistência social também começaram a trabalhar ainda na quinta.

O rio Piabanha, que corta o município, transbordou causando alagamentos e inundações em vários pontos. Na altura da Estrada União Indústria, entre Petrópolis e Araras, o rio chegou a cobrir uma passarela que fica aproximadamente cinco metros acima dele quando em nível normal. Pela manhã, a gari Edilaine Moura de Oliveira, de 42 anos, disse que já tinha trabalhado muito além do normal. Toda a passarela estava coberta de lama e lixo levado pelo rio.

Moradora da Estrada da Mineira, perto dali, a diarista Cátia Aparecida Damasceno, de 60 anos, reclamou da falta de educação de muitas pessoas.

— Essa inudação aqui do Rio Piabanha é consequência da falta de educação de muita gente. Jogam de tudo no Rio, até sofás, geladeiras e garrafas plásticas. É claro que um dia isso vai trazer consequências — reclamou.

O secretário municipal de Defesa Civil, o coronel Paulo Renato Vaz, contou que a situação ficou mais intensa em alguns locais como Correias e Nogueira, onde a população não pôde entrar nem sair até depois das 22 horas de quinta-feira. Segundo ele, o trabalho de limpeza vai ser feito ao longo do dia em áreas urbanas, além das vistorias de residências e da ajuda humanitária. Ele contou que a prefeitura lançou através de uma lei um projeto social que deve gerar frutos positivos no futuro para região de Petrópolis. Ele disse que 180 escolas do município tem em seu currículo escolar uma disciplina chamada educação para Defesa Civil, que visa a ensinar as crianças e os jovens a se prevenirem e a não permitirem que se crie condições para a ocorrência de tragédias ambientais.

— Esse projeto tem reconhecimento da ONU e é o primeiro do país. Queremos mudar a cultura e o comportamento que muita gente adquire com passar do tempo. Esses jovens estão crescendo com uma outra mentalidade, sabendo o que devem fazer quando a chuva apertar e o que também fazer para evitar as tragédias — comentou.