Tempestades como as de São Paulo são o 'novo normal', dizem especialistas

Ana Lucia Azevedo
Veículos submersos após as fortes chuvas que atingiram São Paulo. (Foto: AP Photo/Andre Penner)

Os extremos climáticos se tornaram o 'novo normal', alertam os estudiosos em clima. As chuvas têm se concentrado em poucos dias, em tempestades como a que mergulhou São Paulo no caos. O volume total da precipitação no mês é semelhante ao de outros anos.

Por outro lado, o que mudou foi a distribuição, afirma o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), instituição que desde sábado avisava sobre os riscos para São Paulo.

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Seluchi explica que o verão deste ano não está mais chuvoso do que o normal. Na verdade, dezembro e janeiro tiveram chuvas abaixo da média em São Paulo, Rio de Janeiro e boa parte de Minas Gerais. Excepcional foi a ocorrência de três eventos meteorológicos extremos concentrados nos últimos 20 dias, incluindo a chuva de ontem em São Paulo.

Segundo o coordenador do Cemaden, a tempestade foi causada pelo choque de uma frente fria muito poderosa com o forte calor e a grande umidade de São Paulo. Uma outra frente com potencial de causar chuva extrema como essa se formou em janeiro, mas não foi notada porque teve seus efeitos reduzidos por outras condições atmosféricas.

O climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP, lembra que os extremos têm sido previstos pelos modelos de mudanças climáticas desde o início deste século. Nobre destaca que as grandes cidades brasileiras sofrem com a falta de resiliência: elas foram construídas para uma realidade que não existe mais e não souberam se adaptar. Ao contrário, há cada vez mais gente vivendo em áreas de risco e mais áreas impermeabilizadas por concreto e asfalto, impedindo o escoamento da água.

O climatologista diz que não é possível eliminar o risco, mas as cidades podem ter menos danos com medidas como reduzir a impermeabilização das ruas e investir em restauração florestal.

“Não adianta colocar a culpa na chuva. As cidades precisam se adaptar. O excepcional agora é o novo normal. Esse eventos serão cada vez mais comuns e rotineiros no verão”, salienta Nobre.

O primeiro extremo climático de 2020 foram as chuvas torrenciais em Minas Gerais por uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) em 23 e 24 de janeiro. As ZCAS são fenômenos climáticos típicos do verão, mas a do fim de janeiro foi uma das mais intensas já registradas — maior até do que a associada à tragédia da Região Serrana fluminense em 2011, diz Seluchi.

Ele destaca que a ZCAS deste ano causou as chuvas mais intensas registradas em Belo Horizonte e atingiu mais de 100 municípios mineiros. Só não matou mais gente — 60 mortos agora, contra mais de 900 em 2011 — porque houve alertas com antecedência, mesmo em cidades pequenas.

“Esse verão não saiu do patamar dos últimos anos em volume total de chuva. Os reservatórios de água continuam com déficit. O que chama a atenção e causa tragédia são os extremos”, destaca o coordenador do Cemaden.

Multiplicação

Os extremos têm se intensificado a cada década. Cálculos de Seluchi mostram que as chuvas acima de 100mm em 24 horas, do tipo que castigou São Paulo ontem, quadruplicaram de frequência desde a década de 1960 na capital paulista. Passaram de apenas uma nos anos 1960 para quatro por ano na década de 2010 a 2019.

Estudo publicado recentemente pela equipe do climatologista José Marengo, também do Cemaden, mostra resultados semelhantes e indica que as chuvas leves em São Paulo são espécie em extinção. Segundo essa pesquisa, nos anos 1950 praticamente não ocorriam chuvas com mais de 50mm, patamar acima do qual uma chuva é considerada forte.

André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Boticário de Proteção à Natureza, frisa que a adaptação das cidades às chuvas deveria ser um dos temas mais importantes das próximas eleições:

“Não se trata de acreditar ou não em mudanças climáticas. Se trata de enfrentar a realidade. Tempestades e inundações tendem a ser maiores. Nossas cidades já sofriam com as chuvas e isso só vai se agravar se não não começarem a mudar com urgência”, alerta.

Meteorologista e pesquisador do Departamento de Meteorologia da UFRJ, Pedro Regoto diz que, à medida que essas chuvas se concentram em poucos dias, os transtornos se multiplicam:

“Não cabe mais ficar surpreso, são tragédias anunciadas. E o que potencializa seus danos é o maior número de pessoas expostas a situações de risco.”