Tensão cresce com chegada de indígenas a Quito, e ministro da Defesa adverte que 'democracia está em risco'

A chegada de milhares de manifestantes indígenas a Quito, no nono dia de protestos contra o governo, aumentou a tensão no Equador nesta terça-feira. Em pronunciamento na sede do Ministério da Defesa, o ministro Luis Lara afirmou que os indígenas deixam em "sério risco" a democracia do país e alertou que "as Forças Armadas não permitirão tentativas de romper a ordem constitucional ou qualquer ação contra a democracia e as leis da república".

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— A democracia do Equador está em sério risco diante da ação coordenada de pessoas exaltadas que impedem a livre circulação da maioria dos equatorianos — afirmou o ministro, ao lado dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Há uma semana, a poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) vem organizando marchas em várias cidades do país e o bloqueio de estradas para exigir que o Executivo reduza o preço dos combustíveis. No fim de semana, Lasso declarou estado de exceção nas três províncias mais afetadas, e na segunda-feira incluiu outras três regiões: Chimborazo, Tungurahua e Pastaza. Um toque de recolher vigora de 22h às 5h.

A medida, porém, não conseguiu evitar que cerca de cinco mil manifestantes chegassem à capital equatoriana durante a noite de segunda-feira, contornando barreiras policiais e militares. Vindo de diferentes comunidades em Cayambe, Zumbahua e Latacunga, eles se concentram do lado de fora de algumas universidades e outros pontos nos extremos norte e sul da cidade, bloqueando o acesso à capital.

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Em vídeos compartilhados pelos próprios manifestantes, muitos indígenas são vistos entrando por Tambillo, gritando “viva a greve” e carregando paus, pedras e tochas.

Na noite de segunda-feira, a Universidade Politécnica Salesiana informou que abriu as portas aos manifestantes por motivos humanitários. As ruas ao redor estavam cheias de manifestantes, o que levou um grupo de voluntários a trazer comida. Estudantes da Universidade Central do Equador também informaram no Twitter que receberiam os manifestantes.

Na semana passada, o presidente da Conaie, o líder indígena Leonidas Iza, chegou a ser preso, acusado de supostamente paralisar o serviço de transporte do país durante os protestos. Ele acabou libertado dias depois, mas a detenção deu mais fôlego às manifestações, que deixaram até agora 83 feridos e 40 detidos em meio a choques com policiais.

Em resposta aos protestos, que são por tempo indeterminado, o presidente conservador Guillermo Lasso fez um discurso em cadeia nacional, na segunda, em que afirmou que seu governo "sempre esteve aberto ao diálogo, escutando as necessidades dos equatorianos, especialmente os mais vulneráveis". Horas antes do discurso, no entanto, Lasso divulgou um vídeo no Twitter, acusando os indígenas de quererem implantar o caos no país.

Para concordar em conversar, os indígenas pedem que Lasso reduza o preço dos combustíveis e atenda a uma lista de dez pontos, que inclui a proibição de concessões de mineração em seus territórios.

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Em pouco mais de um ano, o governo de Lasso subiu o galão de diesel em 90% e a gasolina em 46%, mas, desde outubro do ano passado, os preços estão congelados por pressão dos indígenas. Os novos protestos exigem que esse preços baixem.

O movimento, liderado por Iza desde 2021, também exige uma moratória para o pagamento de dívidas de agricultores, o controle de preços agrícolas, mais emprego, suspensão de concessões à mineração em territórios indígenas e novos investimentos em saúde, educação e segurança.

Para conter a crise, Lasso mandou aumentar de US$ 50 a US$ 55 um auxílio entregue a 30% da população mais vulnerável, subsídios a pequenos e médios produtores e perdão a créditos vencidos de até três mil dólares (a economia equatoriana é dolarizada) concedidos pelo banco estatal para o fomento produtivo. Também declarou emergência no sistema de saúde pública para destinar recursos extras e duplicou o orçamento para a educação intercultural.

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