OMS aceita investigação sobre sua gestão da pandemia, após ameaças de Trump

Por Michael MATHES, com María Isabel SÁNCHEZ em Paris e escritórios da AFP no mundo
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O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, encerra sessão da assembleia celebrada em 19 de maio de 2020 em Genebra

Após as acusações e ameaças de boicote do presidente americano, Donald Trump, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aceitou nesta terça-feira (19) fazer uma "avaliação independente" sobre sua resposta à pandemia do novo coronavírus, que já deixou 320 mil mortos no mundo e avança rapidamente no Brasil, onde superou as mil mortes em um dia.

No entanto, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a prioridade é combater o novo coronavírus, pois a COVID-19 continua matando e devastando a economia dos países em todo o planeta.

Os 194 Estados-membros da organização, entre eles Estados Unidos e China, adotaram durante sua assembleia uma resolução que planeja iniciar "o mais rápido possível uma avaliação imparcial, independente e completa" da ação internacional coordenada pela OMS diante da pandemia.

Este acordo é uma resposta às acusações do presidente Donald Trump, que acusa a instituição de ser um "fantoche da China", onde foi detectado o primeiro caso do novo coronavírus em dezembro.

Trump ameaçou congelar indefinidamente o financiamento para essa agência da ONU e até retirar seu país, se não houver "melhorias substanciais" em 30 dias.

Em resposta, o governo chinês acusou Trump, nesta terça-feira, de usar a China para "fugir de suas obrigações" com a OMS.

"É um erro de cálculo, e os Estados Unidos escolheram o alvo errado", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian.

A Rússia, com quase 300.000 casos mas em aparente estabilização, acusou os Estados Unidos de querer "arruinar" a agência da ONU.

"Nós nos opomos à falência (da OMS), que obedeceria aos interesses políticos e geopolíticos de um único Estado, ou seja, dos Estados Unidos", disse o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Riabkov.

Já a União Europeia (UE) expressou nesta terça seu apoio à OMS. "É hora da solidariedade, não de apontar o dedo, ou prejudicar a cooperação multilateral", disse a porta-voz da diplomacia europeia, Virginie Battu.

- Remédio ou vacina -

Trump considera que a OMS ignorou informes sobre o aparecimento do vírus e censura a organização por ser muito indulgente com as autoridades chinesas a respeito da gestão da pandemia. Nos Estados Unidos, já são mais de 90.000 mortos e 1,5 milhão de infectados.

Em todo o mundo, o novo coronavírus infectou mais de 4,8 milhões de pessoas.

Apesar da tensão entre a OMS e Washington, surgiram sinais de otimismo com os resultados encorajadores no desenvolvimento de uma tratamento ou de uma vacina, um desafio do qual participam mais de 100 laboratórios no mundo.

Na China, um medicamento em fase de testes na prestigiada Universidade de Pequim ("Beida") permitiria não apenas acelerar a cura dos doentes, mas também imunizar temporariamente para a COVID-19, segundo o pesquisador Sunney Xie em entrevista à AFP.

Nos Estados Unidos, a empresa de biotecnologia Moderna, uma das mais avançadas na corrida pela vacina, anunciou resultados preliminares encorajadores em testes em oito voluntários, antes de realizar testes em larga escala em julho.

Mas enquanto esse momento não chega, Trump surpreendeu o mundo ao anunciar que está tomando hidroxicloroquina - alvo da controvérsia entre cientistas - "há uma semana e meia", com a aprovação do médico da Casa Branca, apesar de não apresentar sintomas da doença.

Um anúncio polêmico, que o presidente voltou a defender nesta terça durante reunião de gabinete na Casa Branca.

"Não te faz mal", insistiu Trump. "Parece uma linha de defesa adicional".

- "Comemos o que encontramos" -

Na América Latina e no Caribe, a COVID-19 já causou 30.600 mortes (de 554.000 infectados).

O Brasil é o país mais afetado da região, com mais de 17.971 mortos e 271.628 casos, segundo as últimas cifras oficiais da noite desta terça-feira, embora os especialistas considerem que as estatísticas ocultam uma realidade muito mais trágica devido à falta de testagens.

Nas últimas 24 horas, o país ultrapassou as 1.000 mortes por COVID-19, registrando 1.179 óbitos. O número de casos no período aumentou 17.408.

O gigante latino-americano superou a Grã-Bretanha como o terceiro país com com mais infecções no mundo, e agora está atrás apenas de Estados Unidos e Rússia.

Nesse contexto, o governo brasileiro recrutou mais de 150 médicos cubanos para ampliar seus serviços de saúde, um ano e meio depois de Havana ter se retirado do Mais Médicos, programa de cooperação sanitária, alvo de duras críticas do presidente Jair Bolsonaro.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou para o impacto "desproporcional" da pandemia nos povos indígenas e nas mulheres nas Américas, colocando-os entre os grupos vulneráveis por quem apelou por proteção para colocar a região "no caminho da recuperação".

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) também alertou que os venezuelanos indígenas que cruzaram as fronteiras dos vizinhos Brasil e Colômbia estão "perigosamente expostos" à COVID-19.

No Peru, um motim desencadeado pelo medo do vírus em uma prisão deixou 14 feridos entre detentos e agentes penitenciários. Até agora, 30 detentos morreram de COVID-19 e mais de 645 foram infectados em presídios lotados no país.

O Equador, um dos países mais atingidos da América Latina - com quase 34.000 casos, incluindo 2.800 mortos - anunciou nesta terça-feira que, diante da crise econômica causada pela pandemia, iria fechar embaixadas e reduzir o pessoal diplomático na Venezuela, México e Irã, além de eliminar empresas estatais, para economizar cerca de 4 bilhões de dólares ao ano.

Questionado pelas severas medidas de confinamento que envolveram o uso da força, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, condicionou que uma abertura gradual da economia do país em 6 de junho seja precedida por uma "quarentena completa e rigorosa".

Na Argentina, a cidade de Córdoba, a segunda maior com 1,4 milhão de habitantes, recuou desta terça-feira para o alívio da quarentena, depois de detectar um aumento acentuado de infectados.

- Um pouco de ar para uma economia sufocada -

À espera de um tratamento ou vacina para conter o coronavírus, que já infectou 4,8 milhões de pessoas, e em meio ao medo de uma segunda onda de infecções, o mundo tenta dar um pouco de alívio para uma economia asfixiada.

Na Grã-Bretanha, o número de desempregados disparou quase 70% e alcançou 1,3 milhão.

Para lidar com o forte impacto econômico na UE, França e Alemanha propuseram um plano de reativação de 500 bilhões de euros.

O Banco Mundial (BM) advertiu nesta terça que a crise ameaça empurrar 60 milhões de pessoas para a extrema pobreza. A instituição prevê uma contração de 5% da economia mundial este ano, com graves efeitos para os países pobres.

Neste contexto, o BM liberou empréstimos de emergência a 100 países em vias de desenvolvimento, onde vivem 70% da população mundial.

Dos cem países, 39 estão na África Subsaariana e outros sete na América Latina e no Caribe: Argentina, Equador, El Salvador, Haiti, Honduras, Paraguai e Uruguai.

Nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, disse que a economia do país corre o risco de sofrer "danos permanentes". Enquanto isso, a construção de residências na primeira potência mundial caiu 30%.

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