O que você faria se o mundo estivesse a um erro de cálculo da aniquilação nuclear?

Pedestrians wait at an intersection near a screen showing footage of Chinese People's Liberation Army (PLA) aircraft during an evening news programme, in Beijing, China August 2, 2022. REUTERS/Tingshu Wang
Chineses acompanham em Pequim noticias sobre exercício militar do Exército de Libertação Nacional em Taiwan em resposta a visita de autoridade americana ao país. Foto: Tingshu Wang/Reuters

Eu não gostaria de atrapalhar o passeio de ninguém por esta terra, mas nas últimas horas, enquanto você aguava as plantas, coava o café ou apresentava a sua participação inteligente no bloqueio a Cuba, o ministro das Relações Exteriores da China, a segunda maior potência econômica e terceira militar do Planeta, Zhao Lijian, afirmava que seu país está pronto para agir caso Nancy Pelosi, presidente da Câmara do Deputado dos EUA, a maior potência econômica e militar do mesmo planeta, mantivesse na agenda seus planos de visitar Taiwan.

Ninguém precisa ser fluente em mandarim para entender que estar de “prontidão”, no caso, não significa enviar uma carta de repúdio contra o árbitro da partida em caso de discordância.

O próprio Zhao Lijian desenha o que quer dizer em bom inglês: “O Exército de Libertação do Povo nunca ficará de braços cruzados, e a China tomará respostas resolutas e fortes para defender sua soberania e integridade nacional”.

Parece briga de gangue, e é. Mas em escala e proporções, digamos, um pouco maiores.

Pelosi é a terceira autoridade na linha sucessória dos EUA. Sua passagem por Taiwan, onde deve ser recebida pela presidente Tsai Ing-wen, mais do que uma visita oficial, é considerada um endosso à rejeição da ilha ao consenso de 1992, que reconhece a existência de apenas uma China. Tsai Ing-wen se opõe a essa ideia e mantém um governo próprio e sob permanente pressão, com penalidades comerciais e econômicas, promovidas por Pequim.

Por isso a visita da deputada, em seu giro por países asiáticos, é considerada delicada pela China.

Para mostrar que fala sério, Pequim enviou aeronaves de guerra para Taiwan antes da visita, enquanto a Marinha americana mandou navios de combate para o local. Tudo isso acontecendo enquanto estamos aqui na praça dando milho aos pombos.

Taiwan poderá responder ao desfile militar dos vizinhos em seu país ou não. Em caso afirmativo, aviões chineses podem ser abatidos.

O ataque e o revide seriam o estopim para um conflito sem precedentes em um momento em que a Rússia, a segunda potência militar do planeta, dá de ombros para as reiteradas ameaças de sanções dos países ocidentais e segue estraçalhando os vizinhos da Ucrânia. Não sem consequências para todos ao redor, inclusive os brasileiros, dependentes de grãos, combustíveis e dos fertilizantes produzidos no leste europeu e às voltas com uma crise aguda de segurança alimentar.

Como se, por aqui, os brasileiros já não tivessem razões suficientes para se preocupar com um presidente disposto a atiçar o ânimo de seus apoiadores e a Forças Armadas a saírem às ruas com sangue nos olhos em sua defesa em Sete de Setembro.

A visita de Pelosi à ilha rebelde acontece, portanto, em boa hora. É como observar o vazamento de gasolina em um posto de combustíveis e trazer um isqueiro para limpar.

No mesmo dia, como se tentasse mudar de assunto ou mostrar quem pode mais, os EUA anunciaram a morte em um ataque a drone do líder da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, sucessor de Osama bin Laden no comando do grupo terrorista. A ação tende a alavancar em alguns dígitos a popularidade do presidente Joe Biden em seu país.

A Humanidade está a um erro de cálculo da aniquilação nuclear e a chance de esse erro de cálculo ocorrer nunca foi tão alto.

Quem diz isso não é o doidinho em cima do caixote que anuncia o fim do mundo todos os dias na mesma calçada desde 1989. Quem diz isso é o secretário-geral da ONU António Guterres.

Para ele, tivemos no passado recente uma “sorte extraordinária” por não explodir pelos ares até o momento, mas “essa sorte não é uma estratégia ou um escudo para impedir que tensões geopolíticas causem um conflito nuclear aqui e agora”. Não é animador?

A declaração foi dada diante de representantes de 191 países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear, reunidos em uma conferência para revisão do acordo, em Nova York.

Depois da peste, da fome e da guerra, o mundo flerta agora com um filme de apocalipse zumbi.

Difícil não é querer fugir para as montanhas. É saber de tudo isso e seguir a rotina diária, com suas guerras particulares, normalmente. Boa sorte para quem tentar.

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