"Tentaram me matar", diz ambulante agredido por policiais em SP; PM considera ação "legítima"

Colaboradores Yahoo Notícias
·3 minuto de leitura
O ambulante Jeová de Oliveira Lima é agredido por policiais militares no centro de São Paulo

Vendedor de açaí no centro de São Paulo, Jeová de Oliveira Lima, de 48 anos, foi agredido por ao menos cinco policiais que tentavam imobilizá-lo na rua Direita. O ambulante acusa os agentes de segurança de tentarem assassiná-lo, enquanto a corporação considera a ação “legítima” porque houve dano a patrimônio público e violência contra um fiscal.

Em entrevista ao portal UOL, Jeová afirmou que voltava para casa com sua mulher, Blanca Medina, quando foi abordado por fiscais da prefeitura em um “rapa” (apreensão de mercadorias). As agressões começaram após o vendedor quebrar o para-brisa de uma das peruas dos fiscais. Imediatamente, foi contido por policiais, que o derrubaram no chão e passaram a pressionar seu pescoço, até que ele perdesse os sentidos.

Leia também

“Eles tentaram me matar. Eu ia ser assassinado aqui mesmo. Por um triz não ceifaram minha vida, agradeço muito a Deus”, disse o ambulante. “Ele [um policial] colocou o joelho no meu pescoço, daí minha mulher empurrou a perna dele. Aí ele forçou o cassetete no meu pescoço com todo o peso do corpo. Senti meu olho virar e fiquei desacordado. Não sei quanto tempo fiquei assim, se foram minutos, segundos”, relatou.

Após recuperar os sentidos, não foi levado ao pronto-socorro. Foi algemado e encaminhado ao 1º DP, onde foi fichado por “dano, resistência e desobediência”. O investimento total dos bens apreendidos passa de R$ 3.000 (R$ 1.900 só do valor pago pelo carrinho). Para tirar a licença de camelô, o casal investiu R$ 420.

“Eu perdi a cabeça, acabei surtando. É a única coisa que eu tenho. Além disso, só tenho Deus, o dia e a noite. Chegamos no ponto às 7h e só vamos embora às 16h. Depois, vamos no Mercadão comprar os produtos. À noite, a gente fica fatiando melancia, abacaxi, preparando a salada de frutas. Ficamos até as 3h trabalhando. Eu escolho as melhores frutas para vender aos meus clientes”, contou.

“Quando o policial apertou o cassetete no pescoço dele, eu pensei que ele tinha partido. Minha filha se aproximou em desespero. Um deles apontou a arma para ela e disse: ‘Se afasta’. Eu acho isso absurdo. Precisa apontar a arma para uma menina de 16 anos?”, disse Blanca, que é paraguaia.

“Eles fizeram uma rodinha pra ninguém ver eles me matando, pra depois falarem que eu tinha infartado. A onda agora é essa. Tá na moda enforcar o cidadão. Começou com o rapaz lá nos Estados Unidos e agora o Brasil está copiando”, afirmou Jeová, se referindo ao caso de George Floyd. Em seguida, fez uma ressalva. “Tem muitos policiais bons, que protegem a gente. Mas esses aí, eu não sei o que passou pela cabeça deles de fazer essa maldade.”

Procurada pela reportagem, a PM classificou a ação, ocorrida no último dia 15, como “legítima”. “A PM analisou todas as imagens, também de outros vídeos, que mostram a ação por várias perspectivas, inclusive do vídeo que flagrou o momento em que o ambulante quebra o vidro do veículo municipal, portanto a Polícia Militar considera a ação legítima.”