Teoria da conspiração no governo: como a negação da história atrapalha a democracia

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, participa da Marcha Para Jesus, em São Paulo (REUTERS/Adriano Machado)

Por Nathan Fernandes

Depois da população sofrer uma intoxicação generalizada com atum, Johnny Bravo é declarado prefeito de sua cidade. A legislação é clara no episódio “Hail to the Chump”, exibido pela primeira vez em 2000: “Se todo o governo ficar doente com atum, o maior idiota será declarado prefeito”. Já em exercício do cargo, o personagem musculoso da Cartoon Network e Hanna-Barbera, define sua administração em duas palavras: “Biquínis obrigatórios”.

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A criação do animador Van Partible ganhou os noticiários políticos depois que o presidente Jair Bolsonaro se comparou ao personagem, na inauguração de uma usina solar em Sobradinho (BA). Ao se incomodar com perguntas sobre a indicação de seu filho, Eduardo, para a embaixada dos EUA, Bolsonaro afirmou: “A campanha acabou para a imprensa. Eu ganhei! A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Ganhou, porra! Vamos entender isso. Vamos trabalhar junto pelo Brasil.”

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No mesmo dia, o presidente reforçou a associação postando uma mensagem de boa noite, no Twitter, com uma imagem clássica de Johnny Bravo exibindo seus músculos.

Em uma cena do mesmo episódio em que vira o líder da cidade, Johny ganha a palavra, durante a inauguração de uma biblioteca pública, e declara: “Como sabem ninguém odeia mais os livros do que eu. Portanto, eu ordenei que essa biblioteca seja destruída para dar espaço a uma esfinge gigante igual a mim”.

Uma semelhante falta de apreço pela educação foi fator de mobilização para que estudantes, professores e ativistas (considerados “idiotas úteis” e “imbecis” pelo presidente brasileiro) organizassem o primeiro protesto nacional contra o governo, em 15 de maio. A esfinge gigante dos manifestantes foi o bloqueio de verba do Ministério da Educação — anunciado em 348,4 milhões de reais, no fim de julho.

“O governo Bolsonaro tem um viés anti-intelectual muito forte, uma desconfiança de que intelectuais são de esquerda, ou de que são antipatriotas”, afirma o cientista político Sérgio Praça, professor da Fundação Getúlio Vargas. “Existe um interesse do governo em desqualificar a atividade acadêmica e científica.”

Segundo a socióloga Esther Solano, professora da Unifesp, o governo combina política reacionária, moralista e negacionista, ignorando fatos científicos, que servem de base para questões como o desmatamento, a fome e a desigualdade. “Não se trata nem de uma estratégia conservadora, mas reacionária, que alimenta políticas públicas neoliberais, fazendo isso de forma bélica, utilizando a dinâmica das guerras culturais de criação de inimigos. Ao mesmo tempo em que você justifica políticas neoliberais, você aniquila o outro lado.”

Como afirma Sérgio Praça, muitas vezes, o governo coloca em suspeita os próprios servidores governamentais, que são intelectuais ou com formação acadêmica sólida. “O interesse do governo é esse, é se colocar como provedor da verdade”, afirma.

Ministério da Verdade

No clássico 1984, de George Orwell, uma das funções do Ministério da Verdade — parte do regime totalitário fictício comandado pelo Grande Irmão — é editar fatos do passado e do presente. No Brasil atual, a ideia de um ministério com funções do tipo soa distante, mas já há tentativas de edição semelhante, que se valem, além de mentiras e notícias falsas, de teorias da conspiração.

Uma das teorias principais é a do “globalismo”, defendida por figuras como Olavo de Carvalho, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo e o presidente norte-americano Donald Trump. A ideia é inspirada nos “Protocolos dos Sábios de Sião”, um documento anônimo surgido na Rússia, no fim do século 19, que “denunciava” a existência de um grupo de judeus ricos que se reuniam secretamente para definir os rumos do planeta, com base em seus interesses próprios.

Já em 1921, o jornal britânico The Times desmentiu os documentos, mostrando que não passavam de plágio de diversos livros, incluindo cópia de trechos inteiros da obra satírica “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, de Maurice Joly. Mesmo assim, a ideia da conspiração judia de dominação mundial foi usada pelo nazismo para justificar a morte de 6 milhões de judeus.

A ideia sobrevive até hoje com nomes e formas diferentes. O globalismo é um exemplo. Segundo esse conceito, as relações internacionais poderiam ser resumidas a três blocos principais: o bloco ocidental, que busca dominar o mundo através da economia; o bloco comunista eurasiano, o qual, através da Rússia e da China, tenta se impor através do poder militar; e o bloco islâmico, que se concentra na religião — uma divisão de mundo não muito diferente daquela descrita em “1984”.

Segundo os globalistas, quem levaria a melhor seria o bloco comunista, que, depois do experimento com a União Soviética, teria percebido que uma dominação mundial só seria possível através da união promovida por uma nova fé, a “Religião Biônica Mundial”.

Em junho, a Fundação Alexandre Gusmão (Funag), órgão vinculado ao Itamaraty, promoveu um debate sobre o globalismo, com a participação de expoentes da direita brasileira e norte-americana. Na ocasião da abertura do evento, Araújo declarou: “O globalismo tenta formular, de maneira canhestra, uma espécie de nova religião, com esses pseudo-valores, esses conceitos legítimos, mas que são extrapolados e transformados em ideologia – como direitos humanos, como tolerância, como a proteção ambiental, por exemplo”.

É também dessa forma de perceber o mundo que parte as ideias de “marxismo cultural” e “ideologia de gênero”, que, para além do rosa e azul, já quase geraram prejuízo financeiro ao próprio governo. Em junho, a Câmara gastou meia hora discutindo o uso do termo “gênero”, em formulários do INSS, que fariam um “pente-fino” nos benefícios. Parlamentares evangélicos queriam trocar a palavra por “sexo” e iniciaram uma confusão que poderia ter custado 9,8 bilhões de reais aos cofres públicos, caso a medida, hoje aprovada, não tivesse passado.

O problema é que, como o próprio globalismo, essas ideias não podem ser observadas como um fenômeno concreto, por sua falta de base acadêmica, científica e lógica. “Com essa abertura no coração da sociedade liberal, que expulsa Deus, o caminho ficou livre para que o marxismo cultural, o gramscismo, como quer que se chame, ocupasse o coração da sociedade liberal, que tinha sido deixado vazio”, declarou o ministro, no mesmo evento.

Mentiras que os homens contam

Além das teorias da conspiração, a tática de reconfigurar o presente camuflando o passado funciona também através de mentiras mais objetivas. Em julho, depois de reclamar que a Ordem dos Advogados do Brasil tinha entrado com uma ação para impedir a quebra do sigilo telefônico do defensor de Adélio Bispo, que esfaqueou o presidente, Bolsonaro afirmou sem ser questionado: “Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”.

Ainda segundo o presidente, em uma live no Facebook, o militante Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira teria sido morto pelos próprios companheiros do grupo de esquerda Ação Popular do Rio de Janeiro, e não pelo governo militar, contrariando o relatório da Comissão da Verdade, que não aponta ligação de Fernando com a luta armada.

O pai de Felipe Santa Cruz, atual presidente da OAB, desapareceu em 1974, aos 26 anos, quando ele tinha apenas 2 anos. Sem notícias do filho por 45 anos, a mãe de Fernando, Elzita, manteve o mesmo número de telefone até sua morte — aos 105 anos, poucos dias antes das declarações do presidente — à espera de uma ligação do filho ou de uma pista.

Bolsonaro já havia criado polêmica ao declarar que a jornalista Miriam Leitão havia integrado a luta armada, e dirigia-se à guerrilha do Araguaia ao ser presa, na década de 1970. Segundo o presidente, Leitão também mente sobre as acusações de abuso e tortura que sofreu na prisão. Militante do PCdoB, a jornalista foi presa aos 19 anos, em 1972, quando estava indo para a praia. Ela nunca integrou a luta armada.

O presidente não demonstra intimidade com estes fatos porque, durante os doze anos que passou no Exército, entre os 21 da ditadura militar no Brasil, ele nunca teve ligação direta com a repressão à luta armada, como escreve o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, no livro “O Cadete e o Capitão: A vida de Jair Bolsonaro no Quartel”.

Ainda assim, a fixação com o período militar é grande, como o presidente demonstrou ao chamar de “herói nacional” o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, quando anunciou que receberia a viúva do militar no Palácio do Planalto. Em 2016, o presidente já havia homenageado o “terror de Dilma Rousseff”, durante a votação do impeachment. Ustra era o ex-chefe do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura. Acusado pelo desaparecimento e morte de 60 pessoas, foi o único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça.

Em março, o porta-voz da presidência, Otávio Rêgo Barros, também causou surpresa ao afirmar que o presidente havia determinado que o Ministério da Defesa fizesse as “comemorações devidas” na data que instaurou o regime militar no Brasil. A justiça proibiu a comemoração por risco de afronta à memória. O Conselho Federal da OAB e o Instituto Vladimir Herzog denunciaram a ação do presidente à ONU, como uma "tentativa de modificar a narrativa sobre o golpe de 1964".

Arte: João Brito

Soma-se a isso a insistência de militantes de direita de classificar o nazismo como um movimento de esquerda. O assunto gerou tanta polêmica que o embaixador alemão no Brasil Georg Witschel deu uma entrevista ao jornal O Globo, afirmando: “É uma besteira argumentar que o fascismo e o nazismo são movimentos da esquerda. Isso não é fundamentado, é um erro, é simplesmente uma besteira (...) É um consenso entre os historiadores da Alemanha e do mundo que o nazismo foi um movimento de extrema direita.”

O psicanalista Christian Dunker, professor da USP, que tem um canal no YouTube com seu nome, lembra que o negacionismo tem uma tendência histórica muito associada ao holocausto, um evento que demorou para ter uma consolidação histórica e de difícil aceitação para o público que viveu naquela época, assim como a ditadura militar no Brasil. “O que o governo está fazendo é se aproveitar de uma relativa indeterminação de fatos ocorridos durante a ditadura e que não foram completamente esclarecidos”, afirma ele.

“A gente prefere eleger culpados, de preferência no campo do outro, em vez de entrar nas verdadeiras causas. O negacionismo se apoia nesse mecanismo das pessoas não quererem mudar, de não quererem ser consequentes com o que a história pode ensinar.”

O historiador da USP Marcos Napolitano lembra que qualquer fato histórico é passível de uma revisão. O problema é quando essas revisões já partem de uma orientação ideológica, desconsiderando fontes e consensos mínimos de pesquisadores. “Nestes casos, já estamos no limiar do negacionismo”, afirma. “As memórias sociais não têm compromisso com a verdade histórica, mas também não devem se sobrepor a ela, sobretudo quando criam discursos fantasiosos sobre o passado e partem de uma estratégia de negar os conflitos e suas vítimas históricas.” Para Napolitano, o antídoto para o negacionsimo não é o reforço das memórias do passado, mas da cultura histórica, na direção da democracia e dos direitos.

A população da cidade de Johnny Bravo teve um entendimento parecido no final do episódio em que o personagem musculoso vira o prefeito. Depois de substituir o conselho municipal por “gatas divinas” e de forçar a população a trabalhar na construção da esfinge gigante, Johnny é destituído do cargo por abuso de poder, em “nome da democracia”. Ao ser hostilizado em praça pública, ele lamenta a falta de compreensão das pessoas e implora para não ter seu cabelo desarrumado.