Terapia com antirretrovirais faz expectativa de vida de pessoas com HIV crescer na América Latina e Caribe

Evelin Azevedo
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RIO — Um estudo publicado nesta terça-feira na revista The Lancet HIV mostra que a expectativa de vida das pessoas que vivem com o vírus na América Latina e no Caribe e se tratam com remédios antirretrovirais aumentou significativamente. A pesquisa, a maior sobre o assunto na região, indica que a nova expectativa de vida agora é bem próxima da população em geral.

A análise revela que a expectativa de vida aumentou em todas as faixas etárias ao longo do tempo. Os pesquisadores calcularam que expectativa de vida aos 20 anos das pessoas com HIV que se tratam com remédios antirretrovirais cresceu de 13,9 para 61,2 anos adicionais no Haiti e de 31,0 para 69,5 anos nos outros países. Esta nova estimativa deixa este grupo com apenas 10 anos a menos de diferença da expectativa de vida da população em geral, na região.

O estudo foi feito com base em dados de 2013 a 2017 da Rede do Caribe, América Central e do Sul para epidemiologia do HIV (CCASAnet), da qual participam centros de estudos da Argentina, Brasil, Chile, Haiti, Honduras, México e Peru. Foram incluídas 30.688 pessoas com HIV, sendo 57% do Haiti e 43% dos outros países.

— Este estudo mostra o impacto da terapia antirretroviral e que o HIV, por si só, é uma infecção absolutamente tratável. O prognóstico agora está relacionado à situação em que o paciente vive, se ele tem alguma doença associada ou sua condição socioeconômica — afirma Mauro Schechter, professor titular de Infectologia da UFRJ e criador da CCASAnet, grupo que realizou o estudo e do qual seu centro de pesquisas se retirou há alguns anos.

Os autores identificaram uma série de fatores que contribuem para diminuir a expectativa de vida ao longo do estudo. As mulheres tinham maior expectativa de vida do que os homens, com estimativas de 65,3 anos para as do Haiti e 81,4 anos para as mulheres de outros países, ao final do período da pesquisa. Em comparação, a expectativa de vida estimada era de 56,0 anos de idade para os homens no Haiti, enquanto em outros países as estimativas para homens heterossexuais e homens que fazem sexo com homens eram de 58,8 e 67,0 anos, respectivamente.

Pessoas com histórico de tuberculose — uma das principais causas de morte entre pessoas que vivem com HIV — também tinham uma expectativa de vida menor do que aqueles sem histórico da doença. Ao final do estudo, em outros países que não o Haiti, a expectativa de vida foi estimada em 48,0 anos para pessoas com histórico de tuberculose, em comparação com 74,1 anos de idade para aqueles sem. Para os mesmos grupos no Haiti, a expectativa de vida era de 44,1 e 66,6 anos, respectivamente.O menor nível de escolaridade também foi associado a uma menor expectativa de vida. Em outros países, exceto o Haiti, a estimativa foi de 75,5 anos de idade para pessoas com ensino médio, em comparação com 57,0 anos de idade para aqueles com tempo de estudo inferior. No Haiti, a expectativa de vida estimada entre esses grupos era de 77,7 e 53,3, respectivamente.

Política de tratamento

Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou as recomendações da política "Treat All" para ajudar a atingir a meta global de erradicar a Aids até 2030, tratando todas as pessoas que vivem com HIV usando medicamentos antirretrovirais. No final de 2020, 96% dos países de renda baixa e média (LMICs) estavam em vias de adotar o Treat All, em comparação com 40% em 2016.

Os remédios antirretrovirais foram introduzidos na América Latina na década de 1990 e se tornaram mais acessíveis durante os anos 2000. No entanto, existem poucos dados sobre a expectativa de vida de pessoas vivendo com HIV em países de baixa renda. Até agora, nenhuma investigação em grande escala havia ocorrido, com estudos limitados a análises apenas na África do Sul e no Brasil. Grandes estudos na Europa, Canadá e EUA mostraram anteriormente que esta terapia aumentou muito a expectativa de vida entre as pessoas que vivem com HIV.

— A América Latina e o Caribe são uma região grande, heterogênea e diversa, e o HIV afeta várias populações diferentes. No entanto, é também uma região com menos recursos disponíveis para estudos e pesquisas clínicas do HIV — diz Claudia P. Cortes, da Fundación Arriarán e da Escola de Medicina da Universidade do Chile. — Em nossa análise, os maiores ganhos de expectativa de vida coincidiram com o período após o lançamento do Treat All. Desde o final do período de estudo em 2017, mais LMICs passaram a adotar as políticas, por isso temos esperança de que uma análise mais aprofundada mostre que a Treat All continua ajudando a transformar a vida das pessoas que vivem com HIV.