Terapia com células-tronco para animais pode até evitar cirurgias

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RIO — No ano passado, após uma série de incêndios no Pantanal, o noticiário informou que uma onça-pintada batizada de Amanad vinha se recuperando bem após receber injeções de células-tronco para tratar suas queimaduras. A terapia celular já é usada em animais há mais de 20 anos. Mas ainda é pouco difundida, e, embora muitos tutores não saibam, está à disposição também de seus pets em clínicas da região, a preços que podem ser compensadores se comparados aos gastos com remédios e cirurgias — que podem ser evitados graças ao método.

Células-tronco são capazes de se diferenciar e produzir outras células do organismo. Por isso, são consideradas especiais. Seu uso tem diversas indicações: elas podem ser úteis para tratar lesões articulares, oculares, crônicas ou que não fecham, doenças renais, sequelas de cinomose, processos inflamatórios e problemas de pele, entre outros males, e para a recuperação no pós-operatório. Inaugurada em fevereiro, a loja Petland, no Jardim Oceânico, realiza este tipo de tratamento graças a uma parceria com a clínica veterinária Dra. Mei. A unidade tem um laboratório de manipulação e aplicação de células-tronco nos pets, o Bio Cell.

— A eficácia da terapia depende da patologia. As doenças osteoarticulares apresentam uma melhora expressiva. Ele também regenera as células vermelhas. Úlceras e lesões de pele têm 100% de cura. O objetivo na verdade é melhorar a qualidade de vida do paciente. Não pensamos somente na cura — explica a veterinária Paula Abreo.

Paula explica que primeiro o animal é avaliado para que seja estipulada a quantidade de sessões. Uma úlcera de córnea, por exemplo, pode ser resolvida com apenas uma. Os resultados diz ela, muitas vezes aparecem já nas primeiras 24h horas.

— Essa terapia é incrível e muitas pessoas não sabem. Acham que é muito cara, mas, se fizerem a conta, acabam gastando muito mais com medicamentos. Uma sessão custa cerca mil reais, dependendo do peso do animal e da doença. Para ter uma boa resposta, geralmente são necessárias de uma a três sessões — diz.

As células-troncos são envasadas em nitrogênio e descongeladas para serem aplicadas de forma venosa ou no local da lesão — neste caso, com sedação. O procedimento dura entre 40 minutos e uma hora.

A servidora pública federal Mônica de Barros Nascimento conheceu a terapia em Brasília e, quando já pensava em permitir a amputação de uma das patas de seu gato, que tinha uma ferida crônica, recorreu a ela. Após as injeções com células-tronco, conta, o bichano não só se curou da ferida como teve sua taxa de glicose normalizada e não precisou mais tomar insulina. Ele também passou a se alimentar melhor e recobrou o ânimo. Agora, ela recorreu novamente ao tratamento, para seu cão Frederico, na Clínica Dra. Mei.

— O Frederico tem 13 ou 14 anos, não sabemos ao certo, sofreu uma luxação numa patinha e precisou operar. Depois disso, levei-o para fazer a aplicação com células-tronco e novamente o resultado foi excelente. A reabilitação foi bem rápida e, mais uma vez, tive uma real percepção da melhora da saúde dele de uma maneira geral. É como se ele tivesse rejuvenescido — relata.

Mônica acha que o preço da terapia é compensador, diante dos benefícios:

— Nenhum tratamento é barato. Quando os animais ficam doentes, sabemos que os gastos serão altos. Pelo custo-benefício, a terapia vale muito a pena e acaba se tornando acessível.

Na Clincardio, no Barra Mall, o tratamento é realizado há um ano e meio. A veterinária do espaço, Silvia Paranhos Turner, explica que o procedimento é muito simples e apenas imita o que o corpo já faz naturalmente.

— As pessoas têm impressão de que é algo da Nasa. O corpo tem um compartimento de células-tronco e, quando acontece uma lesão, por exemplo, ele mobiliza células desse compartimento reserva para regenerá-la. Mas, quando é algo crônico ou grande, essas células se esgotam e o corpo então usa o colágeno, que causa fibrose e a cicatrização, comprometendo a função daquele órgão. Não queremos cicatrização, mas sim regeneração. O corpo mostra que isso é possível — detalha.

Silvia explica que as terapias regenerativas ainda são pouco abordadas nas universidades, o que também dificulta sua popularização.

— É uma pena, porque uma operação de hérnia de disco, por exemplo, pode ser substituída por uma aplicação de células-tronco. O tratamento é natural, baseado no funcionamento do organismo. Não usa drogas e não produz efeitos colaterais. As células-tronco usadas são extraídas de tecidos animais que seriam descartados, como cordão umbilical, placenta e gordura retirada durante uma castração, e cultivadas em laboratório. A única contraindicação para seu uso é se o animal tiver câncer ou uma infecção sistêmica — explica.

Ela diz que em até dez dias é possível observar os resultados.

— Tratei um golden retriever que tinha dermatite atópica e há anos tomava medicamente de uso contínuo, sem melhora na qualidade de vida. O tutor gastava uma fortuna mensalmente e, quando resolveu fazer o tratamento, o cão ficou bom após duas aplicações. Ele já está há quatro anos curado e sem remédios — celebra.

O golden a que ela se refere é Zen, que tinha dois anos quando recebeu o diagnóstico de dermatite atópica. Sua tutora, a estudante de veterinária Angela Inojosa Pereira Pinto, estava insatisfeita com o tratamento proposto antes de procurar o tratamento com células-tronco:

—Ele não tinha qualidade de vida, não podia passear na praia, num gramado ou num jardim. Vivia numa bolha. Até a comida tinha que ser específica para aquele problema.

A terapia celular, afirma, resolveu o caso.

—O tratamento melhorou a qualidade de vida dele e a nossa convivência. Parei de vê-lo sofrendo. Ele passou a ter a vida de um cachorro normal. Não é um tratamento barato, mas quando colocamos na ponta do lápis o preço dos medicamentos, que eram dois e diários, e das consultas veterinárias, além do estresse, sai muito mais em conta fazer a aplicação de célula-tronco. Ele não se coça mais, os pelos não caem. Não precisa mais ir ao consultório com a frequência de antes e não tem mais alergia alimentar — comemora.

O tratamento também poupou a vida do labrador Akim, hoje com três anos e dois meses, que nasceu tetraplégico. A advogada Alessandra da Silva Costa ficou sabendo do caso e resolveu adotar o cão quando ele tinha um mês de vida. Após algumas biópsias, descobriu-se que ele padecia de uma distrofia muscular gravíssima. Akim passou por diversos veterinários e todos recomendaram a eutanásia. Até que uma clínica geral recomendou que Alessandra pesquisasse sobre células-tronco. Ele começou a terapia celular, com aplicação na área do corpo onde mais faltavam músculos, quando tinha 5 meses, e continua fazendo o tratamento mensalmente.

—O efeito foi imediato: na primeira noite após a aplicação ele dormiu a madrugada toda, como se estivesse aliviado. Como não tem cura, queremos dar uma melhor qualidade de vida para ele. Ninguém esperava que passasse dos 6 meses de vida. Não fui eu que salvei o Akim, foi ele que me salvou. Ele me ensinou a ser mais paciente, calma e centrada — diz a advogada.

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